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Fortuna

        Estava sentado numa desconfortável cadeira da universidade, assistindo a uma aula de desenvolvimento interpessoal, sem sequer prestar atenção, quando recebeu o telefonema que ansiosamente aguardava. Ela recebera o resultado do exame de sangue que ratificava a indicação da cor azul do exame caseiro comprado na farmácia: estavam grávidos; ligou felicíssima com a boa nova: seriam pais... e mães. Ele riu e chorou, contou aos amigos e professora, recebeu os parabéns e saiu correndo ao encontro da esposa.
Houve dificuldades antes desta realização: aborto involuntário, ovários policísticos e, maior de todas, ela cria ser incapaz de ter filhos, o que, mais tarde, provou-se uma grande inverdade. Esta crença foi a maior inimiga, pois enquanto ela assim acreditou, não conseguiu. Somente quando convenceu-se que não tinha “defeitos” e que, no máximo, precisaria tomar medicamentos que a ajudariam no processo, relaxou a mente e permitiu-se engravidar. Chegou a comprar o remédio que o médico prescreveu, mas deveria esperar sua próxima menstruação acabar para começar a tomá-lo, só que ela não veio. Não acreditou que estivesse grávida, mas comprou o teste mesmo assim e, embora o azul do resultado do teste indicasse a gravidez, continuava sem acreditar. Fez o exame de sangue e o que era apenas sonho e esperança tornou-se vida e realidade.
Começou uma nova fase: enxoval, berço, cômoda, armário, banheira, babá eletrônica, brinquedos, chá de bebê, acompanhamento médico, vitaminas, hospital e tudo mais que se relacionava com a preparação da chegada do primogênito. As ultra-sonografias foram momentos lindos e foram devidamente registrados em fita VHS. Por meio delas via-se que era um bebê bem formado e saudável, que desenvolvia-se satisfatoriamente e que era um menino.
A vida deles mudou com a gravidez. Cercaram-se de cuidados, mudaram os hábitos, inclusive os alimentares. Até os horários se adequaram à nova realidade, passaram a dormir mais cedo e a acordar mais cedo. Nada disso, porém, chegava perto das mudanças que viriam com o nascimento do menino.
Numa madrugada de novembro, dormia um sono sem sonho, leve e inconstante. Acordou ao sentir a esposa se levantar para mais uma de suas constantes viagens ao banheiro, dada a sua condição. O parto estava previsto para o dia 13, mas, nesta madrugada do dia 12, ela voltou exclamando que a bolsa rompera. O sangue acelerou, o sono se foi, a urgência nasceu. O menino simplesmente resolveu rebentar antes do combinado, até porque, ele mesmo não combinou coisa alguma. Informaram ao médico e aos parentes e correram para o hospital, não sem antes o pai quase deixar o retrovisor direito na garagem. Saíram do Méier e chegaram à Barra sem incidentes.
No início da manhã escutou o choro do rebento e ao ouvir este choro da vida, chorou. Sentiu o suave deslizar das lágrimas que sem timidez alguma vertiam dos olhos vidrados naquele pedacinho de gente nascido do amor; e assim foi fisgado no anzol de um novo sentimento, arrebatador, mas edificante. Uma paixão que parece um sonho do qual não se quer acordar.
        Pegou o pequeno e frágil pedaço de si e levou para o berçário, carregando-o como um troféu da vitória do amor e da vida, como um amuleto de saúde, riqueza e fortuna. Cheio de orgulho e felicidade, entregou-o à enfermeira para as devidas medição, pesagem e limpeza.
        Foi ao encontro da esposa, raiz que sustenta e alimenta a árvore que é aquele casamento, para ampará-la, acarinhá-la e confortá-la. Beijou-a a face, declarou mais uma vez o amor que sentia e exclamou que este não seria dividido, mas sim multiplicado.
        No dia seguinte foi ao cartório indicado pelo hospital para providenciar aquele papel que se fará necessário durante toda a vida do pequeno. Para ele e sua família o menino será sempre seu filho, mas para o mundo ele precisa de registro, número, documento para ter identidade. Lavrou-se então a Certidão de Nascimento do infante, que recebeu o nome Renan.
        Dois dias depois do nascimento, saiu da Barra em direção a casa, mas não seguiu pela Linha Amarela. Fez um longo caminho pela cidade como se quisesse apresentá-la ao novo morador, ou mais ainda, apresentá-lo àquela maravilhosa cidade onde cresceu, estudou, amou, casou e onde ainda viveria muitas etapas de sua jornada terrena.
        Passou pela praia da Barra, praia de tapete branco que convida para um mar azul e imenso, seguiu pelo Elevado do Joá, admirando a paisagem alta, bela e intimidante, atravessou São Conrado, admirando os pássaros humanos que pousavam suas asas-delta na movimentada Praia do Pepino e contrastando a visão com a grandeza impressionante da Rocinha, favela Zona Sul; não foi pelo túnel, mas pela Niemeyer, descendo na Praia do Leblon, seguindo por Ipanema e Copacabana. Foi para a Lagoa Rodrigo de Freitas, contornou-a, apenas para apresentar ao filho sua outra paixão, o Flamengo. Fez promessas de levá-lo aos jogos, de comprar-lhe uniforme e até mesmo de títulos, como se fosse artilheiro do time e não um tremendo perna-de-pau. Esqueceu, ou mesmo ignorou, que a paixão do guri poderá ser outra. Atravessou o túnel, a Radial Oeste e chegou ao monumento carioca ao futebol, o Estádio Jornalista Mário Filho, mais conhecido como Maracanã e, para ele e seus apaixonados companheiros de torcida, lar do clube mais amado, intensa e quantitativamente, do mundo.
        Ao chegar a casa, o menino fez-se senhor de tudo e de todos, centralizando todas as atenções, como se fosse um pequeno imã que, ao invés de metal, magnetiza sentimentos.
        O pai era todo cuidados. Havia um medo em seu peito, quase palpável, que só era superado pela paixão. Medo de deixar o menino cair, de segurá-lo forte demais e de machucá-lo. Qualquer motivo era motivo para sentir medo. De um momento para outro começou a crer que era estabanado, desastrado e que poderia, a qualquer tempo, fazer mais mal do que bem. Pensou em seus pais e em como deve ter sido difícil para eles também. Este pensamento iluminou sua mente e o levou a crer que: se seus pais conseguiram criá-lo a ponto de se tornar um pai, também haveria de conseguir criar o seu. Fora educado para isto, para perpetuar a família, não o nome que este não importa, mas a família, o aconchego da família, o carinho da família, o amor da família. Concluiu então que fora muito amado, muito bem preparado e que possuía muito amor para repassar. Assim, o medo desapareceu, a insegurança se foi, dando lugar à certeza. Percebeu que o amor e a prática o evoluíam como pai e que bastava amar e praticar o amor para conseguir o que até então o assustava tanto.
        Neste momento, ocorreu a maior mudança de todas, foi quando ele entendeu seus pais, aquelas pessoas que o cercavam de cuidados exagerados e que o controlavam ao extremo. Ele entendeu o que seus pais sentiam, pois estava sentindo o mesmo agora. O amor pelo filho é maior que o amor a si próprio e qualquer coisa que possa fazê-lo mal deve ser combatido com todas as forças. Há a necessidade de proteção, mas, acima de tudo, há a necessidade de proteger.
        Vieram então as fraldas, os choros, as noites maldormidas, que, estranhamente, vinham acompanhados de uma felicidade crescente, o guri crescia com uma saúde enorme e com lindos sorrisos. O trabalho que dava nem de longe se comparava ao retorno afetivo que proporcionava.
        A vida seguiu em frente, batismo, primeiros passos, primeiras palavras, primeiro corte de cabelo, passeios, primeiro aniversário, brincadeiras e brinquedos novos, bolas e “cainhos”. Nada como chegar a casa depois de um estressante dia de trabalho e receber o carinho da esposa e o do filho, que a esta altura já dá seus abraços, “upas”, seus beijos e clama: - te amo, papai!
        Hoje, sentado numa desconfortável cadeira do curso de pós-graduação, assistindo a uma aula de processo do roteiro, sem sequer prestar atenção, aguarda ansiosamente uma ligação que pode mudar tudo de novo, mas que, sem dúvida, fará dele um homem ainda mais feliz.
Fabrício Mohaupt
Enviado por Fabrício Mohaupt em 11/03/2006
Reeditado em 13/07/2011
Código do texto: T121668
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Sobre o autor
Fabrício Mohaupt
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 44 anos
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Fabrício Mohaupt