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Uma loura sensacional

Uma loura sensacional.

O que dizer para uma criança de cinco anos, quando ela procura pela mãe e ninguém lhe dá uma resposta plausível? Uma resposta que seja um conforto paa seus olhos cheios de lágrimas, medo, insegurança e revolta.

Para Sonia, aquela manhã parecia revestida de uma poesia especial. Era uma manhã tão clara, leve, linda mesmo. Havia algo muito especial no ar e Sonia ao levantar-se sentiu-se tão feliz, tão bem disposta, tão cheia de vida. Levantou-se como fazia habitualmente às seis, começou a incrementar seus preparativos para a saída. Tomou um banho, vestiu-se enquanto olhava rapidamente no espelho, achou que rosa não ia bem, mudou para um terninho de saia e casaquinho básicos de cor preta. A cor combinava melhor com a nova colaração dos cabelos mais clara, louro dourado, sua farta cabeleira encaralocada que caia pelos ombros como uma cascata cheia de brilho. Ela olhou  impaciente para o relógio já estava ficando atrasada. Gritou: - João Manoel, mais uma vez vamos chegar atrasados. O menino veio correndo e pulando, andando ainda de pijamas como se naquele momento não tivesse nada mais importante a fazer. Sonia agitada, vestiu-lhe o uniforme, calçou-lhe as meias e o par de tênis, penteou-lhe os cabelos. Saíram de casa. Desceram a escada. Ela abriu a porta do carro, instalou José Manoel no banco de trás, a mochila, as bolsas e rumou apressadamente para o colégio do menino. Sete e trinta e cinco, quando espiou o relógio no pulso. Seu filho estava atrasado pela segunda vez naquela semana, na certa receberia uma reclamação da professora da escola, pensou, enquanto, entregava o menino, a “tia” e dava-lhe um beijo rápido no rosto.

Agora começava a segunda etapa, sua jornada de trabalho. Estacionou o carro, chegou em sua sala, que ficava no terceiro andar de um prédio de sete andares. Estava trabalhando como assistente no departamento de marketing há três anos, e até que gostava de seu trabalho.

Logo cedo, recebeu a visita de uma colega, Dolores, que trabalhava com eventos e tinha uma sala do outro lado do andar. Dolores veio convidá-la para irem juntas, dali, a uma hora a um evento de marketing que estava acontecendo em um hotel cinco estrelas logo após a Barra da Tijuca. Sonia olhou os afazeres, antes de responder ao convite. Eram tantos, incotáveis, mas se desse uma espremida em tudo e deixasse algumas tarefas para depois, poderia ir ao evento com a colega. O temo no Programa parecia bastante interessante para o desenvolvimento de seu trabalho. Sonia juntou-se a Dolores e tomaram um táxi, que as esperava na recepção da empresa. Foram começando animadamente já dentro do táxi no trajeto para o hotel.

De repente, Sonia esboça um sorriso tímido (talvez um pouco envergonhada com a proximidade da colega Dolores). Sonia ficou calada, mas ao olhar para o “display” do celular e encontrar aqueleTorpedo dizendo:  “Bom-dia minha loura sensacional. Volto hoje à noite, vai ser especial. Beijão. Marcos”.

Tinham já alguns anos de uma união estável, o carinho e a forte paixão que ardia entre eles era muito forte. Marcos tinha uma vida agitadíssima. Viajava muito e Sonia ficava sempre sozinha com o filho João Manoel. Muitas vezes vivendo exclusivamente para o trabalho, o filho a casa, raramente tendo lazer com seu amor. A vida deles era mágica.

Sonia ficou mais feliz, pois além de ser sexta-feira, Marcos estava voltando para casa. Depois de quinze dias fora em Porto Alegre. Já era tempo de voltar.

O transito estava tão engarrafado desde a saída da Barra com destino a zona sul.
“- Não dá para prever quando vamos pegar um engarrrafamento, como este. Ninguém merece! Que paciência é preciso ter! “ Dolores não parava de reclamar e olhou o relógio: - Pronto, acabamos de perder o primeiro módulo do “Workshop”.  Sonia respirou fundo e não acrescentou nada ao comentário da colega. Estava nas nuvens pensando que os três fariam uma pequena festa. Poderiam ir juntos com João Manoel a uma nova pizzaria recém inaugurada perto de casa.E também será que Marcos não traria um espumante “Chandon” para se deliciarem no domingo. Ficou feliz também pelo “minha loura sensacional”, poderia ser uma promessa de uma noite muito, muito especial.

Finalmente chegaram ao hotel, pegaram os crachás, esbarraram em uma pequena multidão até chegarem ao auditório onde iriam participar de uma palestra. E então entre uma troca e outra de tela, os olhos de Sonia espiavam curiosos meio na penumbra, tudo ao seu redor, foi achando aquela atmosfera enfadonha e quase dormiu.

Na hora do almoço sua colega Dolores sugeriu que comessem fora do hotel, havia um shopping ao lado com bons restaurantes e tambémn “fast-food”. Almoçaram e voltaram a pé pela calçada, Dolores vinha comentando sobre o seu ponto de vista da nova estratégia de marketing que vem sendo adotada por algumas empesas que não dispõem de capital suficiente..., quando de repente escuta a sirene de um carro de polícia e começa o tiroteio, carros cruzando a pista, Dolores se agita e procura Sônia, suas retinas para sempre irão lembrar da cena triste que ela acaba de presenciar. Foi tudo tão depressa. Ela vê estarrecida Sonia virar o corpo, e ir caindo lentamente seus cabelos chegam a dar uma pequena balançada. Sua bolsa se solta de seu braço e cai também na calçada. O celular continua a tocar dentro da bolsa. É uma confusão só. Dolores grita:  Não é possível, Sonia,  Sonia, levanta daí!. Sonia.

Na semana seguinte ela lembra do que leu no display do celular da colega. “Bom-dia minha loura sensacional”.

Então eu me pergunto: O que dizer para um menino de cinco anos, que espera a volta de sua mãe, na porta da escola? Que sua mãe não virá mais buscá-lo? O que dizer para todas as crianças, que perdem, pais, irmãos, amigos vítimas de uma bala perdida?  O que posso dizer para João Manoel e para Marcos que a loura sensacional não volta mais e agora é apenas uma foto numa folha de jornal? Imagino que este menino, jamais conseguirá erguer suas mãos para o céu novamente e rezar para Papai do Céu sem duvidar, será que vale a pena tentar?  Porque ? O que foi que eu fiz de errado, porque minha mamãe não vai voltar?

Eu também faço a mesma pergunta a mim mesma. O que dizer para este menino? Como ajudá-lo a secar suas lágrimas. A verdade é nua e cruel, ela não irá mais voltar. Por favor, me ajudem a responder a João Manoel.  Neste momento, só sinto o silêncio de revolta de não poder expressar, e ter que calar a dor, a tristeza, e a frustração de nada poder fazer. Nem mesmo responder o porque a um menino de cinco anos. Às vezes, na vida, tem situações que não temos como responder.

Aradia Rhianon
Enviado por Aradia Rhianon em 17/03/2006
Código do texto: T124501

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Sobre a autora
Aradia Rhianon
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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