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Ele tinha medo


De sair à rua, pois julgava que o seu destino estava em ficar debaixo dum pára-choques de uma qualquer viatura anónima, a agoniar, enquanto os transeuntes anónimos iriam espreitar os seus derradeiros momentos, para depois chegarem a casa, contarem a novidade, para depois a esquecerem, pois a morte de um desconhecido é sempre enfadonha, e eles só a relataram por não terem mais nada a dizer quando chegassem a casa no final de mais um dia monótono de trabalho.
Da chuva porque sempre fora sensível a esta, desde os primeiros dias da infância que era o que mais chegava à escola cheio de roupa para o proteger de algo a que intimamente não ligava muito, mas que passara a ligar depois de toneladas de conselhos dos seus e de alguns médicos. O tempo passara e ele passou a recear mesmo as gotas mais tímidas, pois já não se lembrava da tal indiferença.
De ficar só, de acabar só, pois só achava-se uma nulidade, e em companhia de alguém algo, um contributo para qualquer coisa que não fosse para si próprio. Podia ser apenas uma parceria casual num banco duplo dum qualquer transporte público, uma colaboração fria e profissional no trabalho, ou uma conversa fútil e logo esquecida num qualquer bar por onde se deixava arrastar nas noites em que a sua casa estava insuportavelmente oca de gente. Intimamente nunca tivera o afecto, tal como todos o conhecemos na versão adulta. Os amigos tinham partido na adolescência e a sua incapacidade em gerar empatia fizera-o percorrer o resto do corredor da vida sem ninguém a seu lado.
Dos olhares dos outros nos seus olhos, pois neles via poderosos raios X que lhe vasculhariam a alma, que lhe revolveriam as meninges e o resto do cérebro, até que o mistério da sua interioridade, todos os seus mistérios fossem tanto do conhecimento comum como de si próprio. E o pior era na realidade nada ter para esconder que valesse realmente a pena, não tinha um segredo mortal para discorrer num confessionário ou a alguém que o fizesse realmente temer ser descoberto, sendo esse vazio o seu maior receio
Ele tinha medo

Conto protegido pelos Direitos do Autor
Miguel Patrício Gomes
Enviado por Miguel Patrício Gomes em 18/03/2006
Código do texto: T124985
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Miguel Patrício Gomes
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Miguel Patrício Gomes