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Valentina, a Gata

        Esta noite fiquei esperando Romeu… e ele não apareceu. Minha dona me acomodou na minha linda cestinha de cetim azul, apagou as luzes e foi dormir. Quando eu percebi que ela já estava roncando, fui até o pátio esperar meu gato. Esperei, esperei e nada! Miei algumas vezes para ver se ele vinha, porém meus chamados foram em vão.
Mas Romeu é assim mesmo. Minha dona é uma senhora de uns 70 anos e sou a sua única companhia. E a velha odeia o Romeu. Certa vez, ele entrou aqui em casa para me namorar. Quando ela chegou e se deparou com Romeu, nossa! Foi uma loucura. Pegou a vassoura para pô-lo para correr, mas Romeu foi mais rápido, como sempre. Deu um salto e logo estava em cima do muro, olhando para minha pobre dona, com uma cara de deboche. Que danado! Aquele dia fiquei de castigo, depois de ter que escutar um discurso dizendo que eu não era uma gata de rua qualquer para me juntar com o primeiro gato vagabundo que aparecesse.
Sei que não sou uma gata qualquer. Sou uma bela siamesa, de olhos azuis, tão charmosa que já fui capa de revista e participei de várias exposições felinas. Mas o Romeu também tem o seu charme, e como tem! Aquele porte altivo, sua cara forte e aquele pêlo amarelo deixam os meus próprios pêlos eriçados. Aquele maldito sabe conquistar uma gata. Bem, ele é um gatão.
Por isto fiquei tão chateada porque ele não veio esta noite… será que ele me trocou por alguma outra gata? Sem falar que a dona dele é uma chata, uma solteirona magricela que morre de ciúmes de mim. Por que ela não arruma um gato? De preferência de duas pernas e deixe o Romeu todinho para mim. Mas a concorrência é grande. Mesmo sendo eu siamesa e linda, com encantadores olhos azuis, não posso facilitar. Aqui pertinho mora a Adelaide. E ela é tão sensual… vejo-a caminhando elegantemente, com a cauda para cima, olhando-me de esguelha, o pêlo preto reluzindo no sol. Uma vez flagrei Adelaide e Romeu muito juntinhos, o pêlo amarelo dele contrastando com a negritude dela e meu sangue felino ferveu. Desejei ser uma leoa para me avançar no pescoço da Adelaide, mas minha refinada educação me impediu de me comportar como uma gata do nível dela. Quando perguntei para ele o que tanto cochichavam entre si, Romeu desconversou. E hoje descobri que a Adelaide está esperando gatinhos. Aquela barriga não me engana.  E se Romeu for o pai? Que decepção. Se minha dona não tivesse me esterilizado, como seriam meus filhotes com o Romeu?
Fiquei um bom tempo esperando por Romeu no meu pátio, mas ele não veio mesmo. Quando eu estava voltando para minha bela cestinha de cetim azul, um miado diferente me chamou atenção. Voltei-me para ver quem era e me deparei com um belo espécime totalmente branco a me fitar do alto do muro. Humm, que gatinho... Olhos verdes, fortão e que miado! Miei em resposta e ele desceu do muro.
Ficamos namorando a madrugada toda e quando ele foi embora assim que o primeiro raio de sol nasceu, dei-me conta de que esqueci de perguntar seu nome. Mas será que precisava?
Patrícia da Fonseca
Enviado por Patrícia da Fonseca em 19/03/2006
Código do texto: T125370
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Sobre a autora
Patrícia da Fonseca
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 46 anos
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Patrícia da Fonseca