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Antídoto do Esquecimento

        Enquanto Gisela ficava deitada na cama, envolta em lençóis de cetim cor de rosa, ela imaginava o quanto seria bom ser esquecida por tudo e por todos. Seria tão bom, mas tão bom mesmo, que existisse o antídoto do esquecimento... Por que nenhum cientista maluco fôra capaz de inventar algo semelhante?
A vida rolava lá fora e era um domingo maravilhoso. Gisela se virava na cama, sem vontade de levantar. Ficar em pé para quê? Para escutar as reclamações dos filhos, as queixas do marido, ter que começar a arrumar a casa, já que domingo era folga da empregada?
Gisela queria ser esquecida. Queria não ter que levantar também na segunda-feira. Trabalhar? Não, Gisela queria mesmo era sumir. Me esqueçam, esta era sua frase preferida – mas nunca proferida – a todos que ousavam abusar da sua paciência, diariamente, cinco dias por semana. Se pudesse, se fosse realmente corajosa, mandaria o seu chefe para aquele lugar, diria sem delicadeza alguma que seus colegas fossem trabalhar, pegaria sua bolsa e nunca mais apareceria. Nem no trabalho e nem em casa.
Mas Gisela não era assim tão corajosa e engolia os seus sapos inteiros sem digerir, o que lhe estava criando uma bela gastrite. E isto não compensava seus lençóis de cetim cor de rosa, nem o carro zero estacionado na garagem da sua casa nova. O que Gisela sonhava era com o antídoto do esquecimento. Isto resolveria seus problemas, todos eles, um a um.
E o que faria ela sem ninguém para lhe perturbar? Sairia sozinha, sem crianças dependuradas nas suas pernas, sem bolsa e sem celular. Passearia nos parques e viajaria para a praia, sem baldinhos e sem pázinhas de areia. E então, Gisela daria suas longas caminhadas, com as ondas lambendo seus pés, tão solitária quanto as estrelas no céu.
Aí, quem sabe, encontrasse um homem que realmente valesse a pena, um homem que lhe mostrasse o que é ser mulher e não apenas mãe, mas só por uma noite, uma noite apenas. Uma noite que valesse por uma vida inteira e depois fosse cada um para o seu lado, curtirem suas vidas, até que a próxima noite chegasse.
Mas batidas na porta fizeram com que Gisela acordasse dos seus devaneios e voltasse a sua vida, que perto de outras vidas não poderia ser julgada de tão dura assim. No entanto, cada um sabe o que pesa em sua própria existência, todas as dores e seus amores – ou a falta deles – e é por isto que imploramos para que algum cientista maluco como nós invente uma pílula que nos faça invisíveis, que nos transporte para uma ilha paradisíaca ou que simplesmente faça com que o universo nos esqueça.
Patrícia da Fonseca
Enviado por Patrícia da Fonseca em 26/03/2006
Código do texto: T128778
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Sobre a autora
Patrícia da Fonseca
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 46 anos
572 textos (37895 leituras)
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Patrícia da Fonseca