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QUINZINHO



QUINZINHO

Marion era seu nome. Mas, poucos sabiam, pois este apelido, Quinzinho, lhe fora dado quando ainda era bem pequeno.
Era ainda jovem, por volta de seus vinte e cinco anos. Muito querido por  todos  do lugar pelo seu modo de falar e agir. Sempre tinha uma resposta espirituosa para tudo o que lhe perguntavam.
Era pintor. Dos Bons! Ninguém reclamara, até então,  de seus serviços profissionais. Além disso, era muito respeitador, principalmente com as senhoras mais idosas. Seu respeito por estas senhoras atingia as raias da veneração; era muito carinhoso com elas.
Muito cedo conheceu Marion, a dureza da vida. De seus pais, tinha uma vaga lembrança, que já se desvanecia.
Lembrava-se apenas do seu pai tê-lo deixado sentado no banco da praça. E nunca mais retornou.
De calças curtas, uma camisa já bem puída  e um par de chinelos rotos. E o mundo para ele andar.
De si mesmo, não sabia nada e nem de onde viera.
Quando já estava a escurecer, dirigiu-se instintivamente para a Igreja, entrou e sentou-se bem lá na frente e ficou olhando com muita curiosidade, tudo o que lá havia. Era a primeira vez que entrava numa Igreja.
Terminada a ladainha, o zelador se preparava para  fechar a Igreja e viu o menino sozinho.
- Quem é você, meu filho?
- Não sei.
- Não tens nome?
- Tenho. É Quinzinho.
- Onde estão seu Pai e sua Mãe?
- Sumiram.
O zelador foi então, falar com o Padre. Veio junto, dona Filomena.
Dona Filomena olhou aquele menino magrinho, pele queimada, cabelos encaracolados brilhantes, olhos verdes inquietos, inquisidores, profundos.
Foi amor à primeira vista. Quinzinho adorou dona Filó – como era conhecida aquela senhora idosa, magra, de olhos bondosos e muito temente a Deus.
O Padre falou a dona Filó: “Será que a senhora poderia acolher o menino em sua casa por hoje, para depois tomarmos providências?”
- Claro, foi a resposta de dona Filó.
E daí em diante, nunca mais se separaram.
Tão logo cresceu um pouco se tornou um ótimo sacristão, orientado que foi, por dona Filó.
Rápido, inteligente, trabalhador e muito engraçado, aprendia tudo com facilidade. Sua origem nunca o tornou triste, pelo contrário, era muito alegre e sua alegria era contagiante.
Assim o criava dona Filó que, no seu modo de dizer, era uma “santinha” viva.
Crescera cantando os louvores da Igreja ou os assobiava, o que fazia muito bem.
Devotava à dona Filó um amor filial e sincero, visto que, ela passara por muitas dificuldades para criá-lo. Era cheio de cuidados  com ela. Nada lhe faltava.
De outra parte, era muita apegado à Igreja. Só ele a pintava, quando o padre Inácio assim julgasse necessário. E, neste ano, o padre determinou que se pintasse a Igreja para o Natal.
Padre Inácio convocou Marion – só o padre Inácio o chamava pelo nome de batismo, afinal foi ele quem o batizou . A madrinha, só poderia ter sido a dona Filó. É claro!

- Marion, disse o Padre, este ano vamos pintar a Igreja – por dentro e por fora .
- Reverendo estou pronto para deixar a nossa Igreja “linda de viver”.
- Marion, quero você dê um jeito nestas lagartixas que aparecem em grande número aí pelas paredes, depois que represaram o rio, pois algumas senhoras se assustam com elas.
- Deixa comigo Reverendo, eu já “senti que tem muita lagartixa para pouco inseto”. Se fossem maiores, nós teríamos que pedir auxílio a São Jorge, mas a estas aí, eu dou um jeito.
E lá se foi Marion em busca de tintas e afins para pintar a Igreja. Só que, desta vez, comprou umas “químicas” para repelir os reptis que infestavam a Igreja .
Começou a misturar  tintas, forrar o chão, colocar andaimes, sempre cantando ou assobiando. Assobiava com e pela alegria e cantava para Deus.
E lá ia Quinzinho pintando com capricho e zelo a Casa do Senhor, a casa da “santinha” que lá ia todos os dias.
Quinzinho sentiu que estava no caminho certo, pois tudo estava correndo sem imprevistos. Ele sempre achou que os imprevistos eram obras do “inimigo”. Por isso, antes de começar seu trabalho, mormente na Igreja, acordava rezando e, como dizia, “para não dar folga para o adversário” – oração nele. O negócio é espantar o “bicho” para bem longe. Aí o trabalho rende que é uma beleza.
E assim, decorreram seis semanas. A igreja estava linda! “Moléstia à parte” dizia ele. E estava mesmo. Impecável. Afinal, dizia Quinzinho, é Casa do Senhor. “Não pode haver pecados”. Impecável.
Os paroquianos todos, elogiavam o trabalho de Quinzinho. A Igreja nunca estivera tão bonita como desta vez. Seria, sem dúvidas, um Natal memorável, marcante.
Padre Inácio, sempre muito reservado, não conseguia esconder seu contentamento. Marion, desta vez, mostrara todo o seu talento. Os paroquianos ao verem Quinzinho, iam ao seu encontro a fim de parabenizá-lo.
Estavam o Padre e Quinzinho ultimando alguns detalhes, quando notaram que uma lagartixa tentava subir na parede e não conseguia. Tentou uma, duas, três vezes. E nada!
Marion virou-se para o padre e disse: “Reverendo, como diz o velho deitado – Parede que eu pinto, não é qualquer lagartixa que sobe.”
O padre foi como que, pego de surpresa e, apesar de ser sisudo, deixou escapar uma sonora gargalhada – o quê, não fazia há muito tempo. Ato contínuo, entrou em sua sala e se trancou, mas ainda se ouvia o seu gargalhar.
Quinzinho riu também e arrematou: “Quem não rir dos meus ditos, está morto”. E se foi muito alegre assobiando para a felicidade.

criado em 03.01.2004
FARNEY MARTINS
Enviado por FARNEY MARTINS em 28/03/2006
Código do texto: T129844

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Sobre o autor
FARNEY MARTINS
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 77 anos
66 textos (7074 leituras)
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