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O despertar de Antero

    Naquela manhã, estava diferente, de qualquer modo estava diferente. Acordadra mais cedo, aí pelas cinco horas e, ainda metido em seu pijama, Antero debruçou-se à janela de seu quarto do pequeno apartamento. Nunca percebera que a vista que tinha daquele lugar não era toda má. Era a primeira vez, em dois anos, que a notava. Ao longe, por cima de algumas árvores, podia enxergar o trem passando e, na avenida que circundava o bairro, algumas pessoas indo e vindo, fazendo seu cotidiano, umas a pé, outrs em suas bicicletas, quem podia, de carro, de ônibus, mas que importa isso? As pessoas, de qualquer modo, vão e vêm. Tomadas em suas (pré) ocupações, absorvidas em suas rotinas. Antero murmurou entre um bocejo e outro : - Essa rotina! Bendita seja essa rotina, maldita rotina! Ora, quem não tem rotina? Antero viu-se naquela rotina. Verdade é que, agora, estava "curtindo" abençoados vinte dias de férias coletivas, e sem uma soma razoável que lhe permitisse ao menos viajar para algum lugar, onde pudesse respirar outros ares. Precisava economizar para a compra do carro novo. Mas esse não era um grande problema para Antero, aliás nesse dia nada se apresentava como tal. Ainda debruçado na janela, acendeu um cigarro. Passou a mão pelo rosto com a barba de dois ou três dias. Aíás, desde que "ganhara" férias, não havia feito a barba. Afinal, estava em férias, para que se preocupar com esses detalhes? nenhum chefe iria dizer-lhe coisa alguma nestes dias, nenhum colega para perturbá-lo, nenhum encarregado de setor para dar tarefas, enfim, ninguém para empurrá-lo às obrigações cotidianas.
   Antero sentiu-se leve, estava "livre" daquela rotina das oito às dezoito, de segunda a sexta-feira, de semana a semana, da espera do contra-cheque no dia cinco. Ora! Disso não poderia livrar-se. Suas despesas continuavam, era apenas ele, Antero, brasileiro, quarente e cinco anos de idade, divirciado, dois filhos (com os quais comprometia um terço de seu salário), que estava em férias. Não queria pensar nisso. Amava os filhos, e sempre que podia estava ao lado deles. Agora, porém, estavam na casa dos avós maternos, no interior. Estavam bem. Como de hábito, olhou para o relógio: - Sete e meia, como tempo passa! Mas, que importa? Hoje não vou sair de casa mesmo, nem tenho algo interessante para fazer, e também nem quero ter. Precisava "descansar", assistir ao noticiário, dar uma olhadela na página de esportes, ficar ocioso naquele dia.
    Antero estava tomado por uma preguiça diferente, tranqüila, dessa que convida a debruçar-se à janela e observar a vida (dos outros), a rotina (de outros), o vai e vem (de outros). Sentiu o cheiro de café fresco, vindo do apartamento ao lado, do 201. Esboçou um sorriso: - Deve ser a filha de dona Elizabeth que está preparando o café. Pobre menina - pensou - ainda uma criança e com essa responsabilidade de cuidar da mãe neurastênica. Sabe-se lá se não foi por isso que o marido suicidou-se? Ou será que Elizabeth ficou assim por causa do marido? Ah, sei lá...
    Antero acendeu outro cigarro e pensou que enquanto tomava um bom banho, poderia deixar a cafeteira ligada, como sempre fazia antes de ir para o escritório. - Ah, não, não quero café, não quero tomar banho, vá...
    Voltou seu olhar para a avenida, agora um pouco mais movimentada. Entre seu prédio e a avenida havia um parque com um lago, onde as pessoas praticavam caminhadas, alguns arriscavam alguns exercícios de alongamento, e todas, de uma maneira ou outra, iam e vinham. Riam, conversavam, calavam-se, falavam de si, falavam de outros, criticavam, condenavam, absolviam, promoviam, matavam...
    Antero deu a volta e saiu para a pequena sacada. Podia ouvir uma mistura de sons, ruídos, vozes. Uma cena chamou-lhe a atenção lá embaixo: um homem rebuscava na lata de lixo algo que poderia lhe ser útil. Do outro lado, o menino gritou em voz alegre, forte:- Ei, vô, veja o que achei! O menino levou à boca uma caixinha de leite condensado semi-vazia. O avô sorriu, olhando a alegria do menino, assentindo com a cabeça. Antero sentiu-se enojado. Era repugnante aquela cena. Olhou para o cigarro pela metade. Num ato de raiva, lançou-o calçada abaixo. Uma voz abusada chegou-lhe aos ouvidos: - Obrigado moço, "tava seco" por um cigarro! O rapaz saiu soltando baforadas e rindo. Antero cobriu o rosto com as maõs, num gesto desalentado. - Que mundo é esse? Como é que pode esse gente viver assim? O interfone tirou-o dessa inquietude. - Pronto! Do outro lado, timidamente, uma mulher: - Oi "seu" Antero, aqui é a Rute, a empregada. O senhor pode tirar a chave da porta pra eu entrar? - Desculpe Rute, havia me esquecido disso. Já abro a porta, pode subir. Antero foi até a porta, abriu-a, e esperou a mulher franzina, de cabelos longos presos em elástico em rabo-de-cavalo, chegar. - Bom dia, rute, entre. - Bom dia "seu" Antero. Demorei porque quebrou o ônibus e , até que viesse outro carro, perdia quarenta minutos. - Nem havia me dado conta disso, Rute, tá tudo bem. - O senhor quer que eu faça um café, "seu" Antero? É um instante só. - Quero sim, depois do que vi lá embaixo... (um silêncio tomou conta), mas que fazer? Cada um escolhe o modo como viver, cada um sabe o que lhe é bom ou ruim... (será)? Esses rápidos pensamentos o remeteram a um estranho sentimento de vazio. Balançou a cabeça num gesto vago de incompreensão e deslaento. Rute não entendia o que Antero falava,apenas ouvia-o enquanto lidava com a cafeteira e estendeu um atoalha xadrez na pequena mesa oval.
- Rute, há quanto tempo você limpa minha casa? - Já tem um ano e cinco meses, "seu" Antero. O senhor vai me dispensar? Se é isso, fale logo, sem rodeios, porque não tá nada fácil arranjar emprego, sabe? - Ora Rute, não é nada disso. O que eu quero dizer é que nunca conversamos de verdade, é tudo tão corrido , que nem tenho percebido o mundo ao meu redor. Acho que nem te conheço direito. Você trabalha, eu pago pelo seu trabalho. Nunca soube mais nada de você, tua família, como é? - Ah "seu" Antero, deixa de se preocupar com isso. Eu sou só sua empregada, não tem que se preocupar comigo. Té tudo bem. Os meus meninos já estão se virando. O mais velho tá aprendendo mecânica na oficina do Jóca, lé perto de casa mesmo. O "nenê" tá estudando a sétima série, diz que quer ser advogado. E eu faço o que posso pra cumprir o papel de mãe e pai. Bom mesmo é no final de samana, agente pode ficar juntos, ir na igreja ou na casa de minha mãe, do outro lado da cidade. Mas té tudo bem, a gente vai levando, como dá... a gente não escolhe como viver, sabe, "seu" Antero. É avida que leva a gente.
   Antero se deu conta que vivia num mundo isolado, sem lembrar de que, junto com seu mundo, havia outros mundos, que havia "gentes", que tal qual ele eram seres humanos. Sentiu-se aflito, inquieto. -Tome seu café, "seu" Antero, que eu vou colocar a roupa suja na máquina pra lavar. Se precisar de mim, tô na lavanderia. Antero percebeu a alegria de Rute em trabalhar, servir...
    Há quanto tempo Antero não parava para a vida. E a vida era isso: um mundo que se envolvia em outros mundos. E perguntava-se o porquê de tudo isso ter sido assim até agora. Foi preciso sair da rotina, entrar em outra para ver outras faces do mundo. Estava tomado por uma emoção que provocava em seu estômago um certo frio, mal-estar, como se tivesse que apressar-se, que o tempo estava passando muito rápido. Precisava fazer alguma coisa, algo que lhe aliviasse aquela sensação de desconforto. Sentia náuseas. Precisava sair, pensou ele. Tomaria um banho e sairia. - è isso, vou sair. Andar por aí. Ver coisas diferentes. Antero percebera, enfim, que o mundo era universal. Que cada mundinho estava inserido num mundo maior, que precisava da atuação de todos. Antero "despertou". Ele que até agora só havia pensado em seu trabalho, seus ganhos, suas despesas, sua própria vida. percebeu que não estava só. Existia ali um universo de coisas onde as pessoas esperavam a solidariedade. Antero deparou-se com esta realidade num rápido instante em que "parou", que se permitiu sair de sua "bolha". Antero ainda não sabia como participar, mas já percebeu que podia participar do mundo de outros homens que, como ele, estavam tomados pelos próprios interesses e esqueciam-se do semelhante que comia restos de lixo embaixo de sua sacada, do velho que amparava-se na margem da dignidade, da empregada que amava e sentia orgulho das simplicidades da sua vida, da menina que pacientemente cuidava da mãe neurastênica, da mãe que padecia, do jovem viciado, dele próprio, isolado, "protegido" em sua prisão domiciliar, absorvido pela comodidade de seu mundo medíocre.
    Antero vestiu-se e, quando foi para a porta, Rute interceptou-o: - Volta pra almoçar, "seu" Antero? Ele voltou-se, apoiou as mãos nos ombros de Rute, fitou-a por alguns instantes. - Não sei Rute. Vou à vida, respirar vida, enxergar vida. Vou ver lá fora o mundo que me cerca, quem sabe eu descubro que sou parte dele e que, pensando nisso, posso torná-lo melhor. Rute olhou para Antero e lhe disse: - Não é fácil, o povo aí fora sente fome, é bruto na lida com as coisas. É sempre bom ter cuidado "seu" Antero, tudo pode acontecer... Antero interrompeu a fala de Rute, e com um sorriso firme: - Claro, Rute. É por isso mesmo que tenho que sair do meu casulo. Tomara que tudo aconteça. Se as coisas não fossem como são, não faria diferença alguma estar aqui ou lá. Mas aqui e lá fora, seja como for, fazemos parte do mesmo universo de coisas, com realidades diversas uns dos outros. è preciso ter coragem para ir, e eu tenho, eu vou...
 Sentir-me gente deste mundo...
NENINHA ROCHA
Enviado por NENINHA ROCHA em 03/04/2006
Código do texto: T133328
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Sobre a autora
NENINHA ROCHA
Guarapuava - Paraná - Brasil, 56 anos
310 textos (10915 leituras)
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NENINHA ROCHA