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Saideira!

      Calmo. Banhava-se em águas tranqüilas, alternando goles de vodca com suspiros quentes. Adorava encenar o atraso e abrir a multidão com braços de desprezo. Mas hoje se sentia repleto de autoridade, realçada ao aceitar os músculos flácidos embaçados pelo calor. Secou-se em atropelo, esvaziou o copo e vestiu a camisa, ainda com as costas molhadas. Escolheu o excesso de instrumentos para ouvir no mais alto volume, enquanto confundia os agudos assoviados com o tilintar do gelo. Adorava whisky depois da vodca, mesmo que causasse estranheza nos que o rodeavam. Defendia-se alegando que, após o primeiro copo, não havia mais necessidade para transparências. Sempre calava os contestadores com suas reflexões. Ironicamente, os pensamentos nunca se calavam. Isso sim o incomodava.

      Perfumou-se pela segunda vez, como costumava fazer, e caminhou até a porta. Antes que a trancasse fotografou, com os olhos, a imagem que lhe era arremessada. Temia voltar mais tarde e desconhecer o cenário onde vivia. Evitava explicar esse comportamento aos amigos. Primeiro porque temia que o desconhecessem da mesma forma. Segundo, porque não tinha nenhum. Queimou a garganta com o álcool, ainda quente pela ineficácia do gelo ou pela falta de paciência, e deixou que o copo se quebrasse ao tocar o piso escorregadio. Não varreu os cacos. Assim como pensava que nossos pedaços deviam ser resgatados pelos outros, também acreditava que nossos desastres deviam ser corrigidos depois. Evitaria que nos machucássemos ainda mais.

      O perfume cítrico o acompanhou até o elevador. Dificilmente fumava, mas ao ler a proibição à altura dos olhos, acendeu o cigarro e fumou com fortes pulmões. Costumava seguir regras, mas somente as que não o prejudicavam ou atentavam contra seus passos. Não fumar desrespeitava seu direito de morrer. Não tinha pressa, mas o aceleramento do processo estava relacionado ao seu sorriso. Ao sair do elevador esmagou o que sobrava daquele momento com os pés. A demasiada força utilizada na operação mostrava sua superioridade. Aniquilaria quem, como costumavam dizer, o mataria.


      Caminhou pela rua e ao avistar o primeiro boteco, aceso o suficiente para garantir o fornecimento de soluções engarrafadas, parou. A simples presença fazia o atendente agilizar o copo com o líquido anestésico. Outros pareciam conhecê-lo, mesmo que não ligasse a mínima para os cumprimentos cambaleantes do que cruzavam sua vista. Apenas sorvia e, antes que manifestasse qualquer movimento, era servido novamente. Nunca contou quantos copos colavam suas mãos. Apenas contabilizava as perdas tropeçadas e longe do resgate. Lembrava das lágrimas de despedida dos outros enquanto mantinha os olhos secos. Sonhava com os beijos que disfarçou devido ao gosto nauseante de seus lábios.
Pensava ter agido certo. Engoliu a garrafa em segundos.

      Moveu-se sem pressa para fora do bar, buscando atravessar a rua e alcançar o outro lado. Lento o suficiente para que fosse prensado contra o vidro do automóvel que cruzava a luz vermelha. Pelos estilhaços colados à face enxergou o rosto bêbado de seu carnífice. Balbuciou ao lembrar de seu reflexo no banheiro. Igual ao que via. Respirou mais uma vez antes que deixasse de existir e deixou que o último pensamento dominasse a despedida. Não reclamaria a fatalidade.

      Já teve ressacas muito piores.
Felipe Valério
Enviado por Felipe Valério em 04/04/2006
Reeditado em 28/02/2007
Código do texto: T133767

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Sobre o autor
Felipe Valério
São Paulo - São Paulo - Brasil, 37 anos
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Felipe Valério