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Dom caramujo - parte 03

De repente eu compreendi por que me mantinham distante quando chegava aquela turma de caras legais que trabalhavam na ferrovia e que sempre chegavam de moto. Realmente não posso dizer que me trataram mal, ao contrário. Eram muito gentis para comigo. Mas no entanto, então eu percebi que era tudo parte de um estratagema para me manterem calado e distante.

Uns três anos depois que saí da oficina, ouvi na rádio que o dono da oficina era procurado por roubo de carro e tráfico de drogas. Cheguei mesmo a ficar com pena dele. Mas me pergunto até hoje porque escolheu aquele caminho? Poderia estar em um situação totalmente diferente. Bastava querer. Mas cada um deve saber o que faz. Na certa ele pensou, como muitos outros, que nunca iriam pegá-lo. Mas eu aprendi que a polícia tarda, mas um dia, quando menos se espera, ela consegue bons resultados.

Ainda referente aquele tempo, muito mais tarde, fiquei sabendo que um daqueles rapazes que trabalhavam na oficina, morrera afogado em uma piscina. Na verdade ele não trabalhava. Como era um conhecido do dono da oficina, este ficava com pena de vê-lo sem nada nos bolsos e volta e meia o chamava para nos ajudar. Quanto a morte na piscina, saiu a versão de que ele havia se drogado antes de mergulhar. Foi um mergulho sem volta.


Ainda também dessa época, lembro de uma vez em que estava em uma praça, onde havia um enorme colégio, chamado de Convenção, e alguns rapazes jogavam bola na grama, como um campo improvisado. Me chamaram e eu entrei no jogo feliz. Já fazia uns seis meses que morava na cidade e nunca mais havia jogado bola. Me lembro bem do que falaram quando subi para cabecear uma bola:
“Nossa, você viu só! O cara tem uma impulsão do caralho...” comentaram entre si, os outros jogadores.
Eu fiquei feliz e todo orgulhoso com o comentário.  Mas nunca mais joguei naquela cidade.

Morei com meu cunhado e minha irmã ainda uns outros seis meses, um ano ao todo. Um ano sem escola. Outro ano perdido.
Bem, logo que voltei para casa, meu pai foi para o interior de Santa Catarina.  Ficamos nós ali, sobrevivendo do jeito que dava. Muitas vezes os vizinhos nos ajudavam com alguma coisa para comer. Batata doce, um pouco de feijão. Eu voltei a trabalhar em um mercado. Meu irmão, o segundo, já trabalhava lá e me arrumou a vaga. Meu irmão mais novo, o caçula ou o terceiro, como queiram ,andava nessa época por entre as matas, caçando passarinhos e vivendo a sua fase de descobrimento do mundo. Fazia então o que eu já havia feito quando tinha aquela idade.
 
O pessoal do mercado gostava do meu irmão, o segundo. Como eu já disse era ele nessa época um dos jogadores mais comentados da pequena cidade. Fazia jogadas incríveis e dava dribles maravilhosos. Chegou mesmo a ganhar o apelido de Maradona, em alusão ao craque argentino que fazia maravilhas nos gramados da Itália.

Mas eu via com outros olhos o que os donos do mercado faziam com ele. Era exploração pura e simples. Ele, na alegria de jogar e fazer o que gostava, nem ligava. Mas eu estava atento. Eles o obrigavam a ficar além do horário, e  ele ainda não ganhava extras. Não deixavam que saísse mais cedo para estudar. E ainda tinha de carregar peso além do que agüentava, nas costas. Eram os sacos de batata, trigo, feijão e outras coisas mais. Por esse tempo ele deveria Ter uns 16 ou 17 anos.

Quando tentaram fazer isso comigo, eu não suportei por muito tempo. Abri a boca e reclamei um dia em que  descarregando de um caminhão, jogaram uma melancia e meu irmão deixou ela cair, rachando-a. Falaram então:
“ Vai ser descontado do salário! Tu é muito mole!”
Falaram isso em frente a vários clientes que estavam dentro do mercado. Eu na hora na falei nada, mas o sangue fervia por dentro. Meu irmão ficou também calado, humilhado. Nos sentíamos como dois escravos.
Depois, mais tarde, quando estávamos somente eu e o dono do mercado eu lhe disse:
“ senhor fulano (não me lembro o nome) não achei certo o que fizeram com meu irmão.
___ O que que não gostou? O que não fizemos certo?
___  A maneira como o trataram na frente dos outros. Eu lhe peço que se um dia for chamar minha atenção pelo menos não me maltrate na frente dos clientes. Pode me xingar a vontade, maltratar se quiser, mas fale comigo em retirado. - - tentei dar um tom de dureza nas minhas palavras, mas falava com a cabeça baixa, com vergonha e medo, pois temia ser mandado embora. Mas também não podia calar-me por mais tempo, vendo a exploração que faziam.
---- Olha! Você aqui é empregado, não tem que falar merda nenhuma! Se eu quiser gritar eu grito, se eu achar que devo xingar eu xingo, entendeu? E não dê uma de metido, seu irmão é boa gente, mas você é um desses que acha que tem o mundo na barriga e vive reclamando.--- me falou ainda mais um monte de coisas...

Dois dias depois, em um Sábado fui dispensado.
Meu irmão ainda continuou com eles durante mais um tempo.
Então eu fui para o interior de Santa Catarina onde meu pai estava.
Cápitulo Quinto

Em Santa Catarina trabalhei como servente de pedreiro. Ajudei a erguerem uma grande churrascaria.
Meu pai estava trabalhando em outro supermercado. Era subgerente. Ele morava com outros homens que trabalhavam no mercado.
Eu aluguei um quarto em uma pensão. Na verdade era apenas um sótão, onde havia uma cama, e uma pequena janela..
Logo conseguimos ajuntar dinheiro e alugamos uma casa. A família veio atrás.

Mas ainda falando da época de pedreiro, ou melhor, servente. Certa feita, no inverno o frio era tanto que não conseguíamos segurar a enxada na mãos. Os dedos não fechavam em torno do cabo. Fazíamos então uma fogueira e nos aquecíamos em volta do fogo. Nesses dias o sol aparecia por detrás das nuvens somente ao meio-dia, perdurando seu brilho e calor somente umas duas horas e logo sumia de volta por detrás da cerração existente.
Formei amizade com um grupo de rapazes e então nos fins de semana sempre íamos jogar bola em um lugar distante chamado de “praia do Tio Juca”. Uma divertida alusão a praia da Tijuca, no Rio de Janeiro. Me divertia bastante.

Comecei a estudar novamente. Na sala tinha alguns dos rapazes que participavam dos jogos de futebol. Viramos grandes amigos. Um deles em especial me cativou o coração.
Era simples, direto e vivia sempre alegre, contrastando comigo, que nesta época já era sorumbático. Sentia nele um pouco do que faltava em mim. Estávamos sempre juntos. Eu contava com dezoito ou dezenove nessa época. Ele também. A escola da cidade era pequena, mas era a única. Estudávamos a noite.
Eu precisava estudar ainda mais dois anos para fechar o segundo grau. Teria que completar o segundo ano e fazer o terceiro. Coisa das mudanças intemporais.

Logo eu consegui serviço em uma firma. Trabalhava até as seis da tarde, daí saia correndo para casa, literalmente correndo, e depois ia para a aula. Na sala de aula eu e esse amigo que se chamava Luís, disputávamos a atenção de uma morena, cor de chocolate, de cabelos ondulados e lábios carnudos. Na verdade outros na sala diziam muitas coisas a respeito dela e de sua vida. Mas não nos importávamos. Era uma disputa nossa. Eu acho que ele sempre levou a melhor, mas eu não queria aceitar esse fato, ou inconscientemente fingia não ver.
Na verdade eu ainda trazia na lembrança a chama de um rosto redondo, Sildit. Sim, é que Sildit passou a ser Sandra depois de uma brincadeira que fizemos na sala, quando estudávamos juntos em Rosana.
Bom, mas ali, em Santa Catarina, eu não conseguia me desfazer daquela lembrança que cada vez mais me fazia recluso da vida. Surgiu então certa vez a história de que a morena havia ficado com um outro rapaz, que era da nossa sala, mas não tão amigo assim. Eu o achava petulante e metido demais. Tomando coragem eu e o Luís perguntamos a ela se era verdade; “Claro que é, vocês não tomam coragem. Querem o quê??” – fora uma senhora indireta para nós dois.

Mas eu achei mais do que isso. Encontrei nessas palavras uma mulher sem qualidades para a que eu sonhava como namorada. Ela não era igual a Sandra. Parecia mesmo amoral, vendo-a falar daquele jeito. Como se fosse algo que o primeiro que chegasse levaria como prêmio. Definitivamente, depois disso eu comecei a dar menos valor a ela. Claro que ainda assim, a cobiçava. Afinal era uma moça dona de pernas muito bonitas, de um corpo sem sinal de gordura e ainda por cima usava roupas que chamavam muito a atenção. Mas, gradativamente esse interesse foi diminuindo.

Logo eu fui transferido da firma onde trabalhava para uma cidade do Paraná. Gal. Mallet, quase na divisa com Santa Catarina. Como eu já tinha acabado o segundo ano, aceitei de bom grado. Seria uma experiência nova.


Foi algo realmente novo, mas até degradante. Conheci um pouco do inferno nos três meses em que lá fiquei.
Era início de Novembro.
Me dói ver ao que a mente humana é capaz de rebaixar-se para continuar a sua existência e tentar obter algo mais. E esse algo mais sempre foi o poder. O poder de um cargo, o poder da posse, do direito. O direito dá poder, mas o poder nem sempre é direito, pode ser direto, mas não direito. Pois o direito não é somente a lei dos homens, mas o certo. O direito pressupõe poder, outorga poder. Para os padrões dos anciões "fazer direito" era como "fazer certo". E é em busca de poder, desse direito moderno e consternador que a alma humana padece.
A firma onde trabalhava pegou um empreitada nessa cidade e eu fui para lá com o cargo de almoxarife.
 O salário era bom, conseqüência da transferência.  Mas convivia com todos os tipos de pessoas. Algumas vinham do nordeste, outras do sul, como eu. Ali se encontravam todos os tipos possíveis de caráter. Os de bom valor e os de valor nenhum. Homens de rostos rudes e passado pior. Jovens em busca de uma vida melhor e de sentimentos controversos, que por algum motivo se escondiam da justiça.
Como todos os que foram transferidos eu morava em um alojamento. Durante o dia eu tinha um cargo em uma sala fechada, distante do mundo dos peões lá fora. Mas ouvia muitas histórias. Algumas macabras até.
Tendo então vinte anos e vivendo poucas experiências da vida eu era considerado por todos como um “roupa-limpa”, como os homens  que trabalhavam no campo chamavam os sujeitos que nunca pegavam no pesado. Pessoas que só lidavam com caneta e papel.
Havia ali, um sujeito, operador de moto-niveladora, ou patrola como é mais comum chamá-la, modelo 120-h, que bebia demais e depois para combater o álcool ingerido comia desgraçadamente um bom punhado de alho. Credo, o leitor pode crer que ainda hoje sinto repulsa ao cheiro desse condimento. Então esse sujeito aparecia no almoxarifado para pedir luvas, botas ou mesmo macacão. Tinha que me manter a uma boa distância para que o odor não me fizesse mal. E os olhos desse jovem, sim era jovem, não devia ter mais que 25 anos, e os olhos dele refletiam maldade, vazios, opacos, sem brilho algum, negros. Seu rosto era inexpressivo.  Tinha mais altura do que eu e ainda era mais robusto.

Aconteceu então de um dia eu ter que ir ao campo rever os materiais e as peças para poder fazer novos pedidos. E a chuva me pegou em meio do caminho. Me abriguei em um barracão e não estava lá essa figura, feita de álcool e alho?! Em algumas rodas, dizíam em brincadeira que ele era o AntiDrácula! Mas caro leitor, ás vezes nós recebemos algum aviso divino através de certos sentimentos esquisitos que não sabemos explicar. Naquele momento aconteceu isso comigo. Alguma coisa me dizia que algo de ruim iria acontecer.
 Outros mais estavam lá. Havia um senhor de mais idade, gordo, baixote, me pareceu uma pessoa mais esclarecida. Começamos a conversar enquanto o tempo não melhorava. Nesse instante o “alho”, era esse seu apelido, começou a me provocar, achando que eu era natural de Santa Catarina, pois sabia que era de lá que eu viera. “ Catarina é tudo viado! Catarina que ainda não deu o rabo, é por que vai dar, mais dia menos dia!” e assim, naquele palavreado de homens chulos que pensam que palavrão é sinal de masculinidade, tentava me provocar de todas as maneiras. No princípio não lhe dei atenção, mas com o passar dos minutos aquilo foi se repetindo e eu já não agüentava mais. Então em dado momento avancei para ele.

Cabe agora uma descrição do espaço onde estávamos. Era uma casarão de madeira onde se guardava algumas ferramentas e também onde funcionava a casa de rádio. Devia ser um espaço de uns cinco, seis metros quadrados. Não havia piso. O chão era recoberto de britas e havia dois bancos de madeira pregados junto a parede. Eu me achava sentado em um destes bancos, o sujeito melindroso estava de pé, no meio da sala, distante coisa de dois metros de mim.

Quando o ser humano deixa a raiva o dominar, não existe voz que o chame a razão. Foi isso que aconteceu comigo, aos poucos aquelas palavras do provocador iam subindo e me tirando os pensamentos. Logo eu não pude mais suportar. Não só por mim, mas me dei conta do sentimento do homem ridicularizado, ultrajado e humilhado perante os outros da mesma tribo.

Rapidamente, qual uma víbora dando um bote,  eu avancei com as duas mãos a frente e o agarrei pela gola da camisa  o empurrando de uma vez só para a parede. Com o choque caiu uma capa e um capacete no chão. Bati forte a cabeça dele na parede, mas cometi um erro. Um erro crasso, que eu não sabia. Pois nunca havia me aventurado a me por de socos com alguém daquela estirpe.
Mal ele bateu a cabeça na parede um canivete pontiagudo e afiado encostou-se em meu pescoço.: “ Vai, filha da puta! Continua! Vem! Vou te fazer um chuveiro! Vem seu desgraçado!” – eu o soltei de pronto e dei dois passos para trás. Via em seu olhar um brilho que não vira nunca em olhar algum. Sua face parecia de pedra, sua boca abriu-se em um misto de riso e escárnio. “ Não és valente? E aí?! Vai dizer que não é bichona? Que não deu o rabo pra ninguém?! Vem, diz que não é verdade?!”  então os outros que estavam ali dentro  se intrometeram e o seguraram, eu saí correndo sem olhar para trás, debaixo da chuva. Envergonhado, humilhado, mas o mais importante era que estava vivo.

Durante dias  planejei como me vingar daquele ser que me humilhara de forma terrível. Mil e uma idéias me povoavam a mente. Mas eu sempre fiquei nos pensamentos. Vivia agora ainda mais recluso dentro do acampamento da firma e dentro da minha Concha.
 Muitos souberam do ocorrido e vieram me parabenizar por tê-lo enfrentado e ao mesmo tempo me recomendar cuidado pois sabiam que ele era vingativo. Uma destas pessoas me disse então que não se tinha certeza ainda, mas corria o boato de que esse “alho”  tinha matado duas pessoas em uma briga de bar.
No alojamento eu dormia de olhos abertos. Temia o pior pois as janelas e portas eram fracas e um pontapé qualquer as poria abaixo.

Ivair Antonio Gomes
Enviado por Ivair Antonio Gomes em 08/04/2006
Código do texto: T135654

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Ivair Antonio Gomes
Palhoça - Santa Catarina - Brasil, 47 anos
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