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Dom Caramujo - parte 04

Passei dias assustado. Um grito qualquer, um ruído atrás de mim,  me despertava o medo.
Só fui ver o indivíduo quando ele veio dar baixa das roupas e forros de cama, duas semanas depois. Havia sido demitido e a polícia já o esperava para depoimento para esclarecimento sobre as duas mortes no oeste de São Paulo.




Ainda desse tempo é outra narrativa de terror que me apossou.
Havia também um pessoal que trabalhava em transporte de minério que vez ou outra apareciam no almoxarifado para pegar materiais.
Um desses parecia um urso, todo peludo,  pele branca. Baixo, atarracado, voz fanhosa e rosto cheio de cicatrizes, parecia ter saído de um filme de terror. Gostava de conversar. Era do interior de São Paulo e sempre conversávamos quando ele ia até o almoxarifado.
Esse sujeito me pareceu ser gente de bem, pois nunca fui de julgar as pessoas pela aparência, mas com o transcorrer do tempo vi que meu julgamento estava totalmente distorcido.
Num desses passeios ao campo, indo verificar os materiais dos transportes de minério, eu peguei carona no veículo RK (Randon Kokun) que esse sujeito manobrava. Começou a falar coisas  sem nexo, totalmente sem sentido e agia como se não fosse aquele homem que eu conhecia de quando ia ao almoxarifado.  Observei que estava alcoolizado. Me assustei e pulei fora do veiculo, com esse ainda em movimento. Rolei sobre mim no chão e acabei sujando minhas roupas.
Voltei correndo até onde o encarregado do setor estava. Relatei o ocorrido. Como podiam deixar um motorista bêbado pilotar um veículo daquele tamanho? E as coisas que podiam ocorrer? Acidentes acontecem, mas não era obrigação de todos tentar evitar?
 O encarregado não gostou da minha intromissão na gerência de como administrava o serviço do local.
Nesse mesmo dia chegando no almoxarifado recebi a notícia de que um Engenheiro queria falar comigo.
Disse-me, em uma reunião a sós, que o pessoal estava reclamando de mim, pois falava demais.
Referiu-se ao meu papo com o encarregado dos serviços de transporte da mina. Disse que o operador era genro do encarregado e que não devia jamais ter falado em voz alta que o vira bêbado. O fato, disse ele, é que todos sabiam, mas não davam importância. Fingiam que nada acontecia. Pois apesar de beber, o homem era muito bom, tratava a todos com boa educação. Eu toquei no assunto de algum acidente que porventura acontecesse. Me garantiu que nada aconteceria e que eu deveria esquecer a conversar que tivéramos e também o caso do operador de RK.

Passaram-se três dias e então aconteceu. Fiquei sabendo no outro dia, pela manhã. O fato corria de boca em boca.
Na madrugada o operador bêbado, havia entrado com o RK na boca do britador, arrebentando com uma linha de rádio e ainda fazendo o encarregado do britador pular de sete metros de altura, para não ser esmagado, por sorte pulara em cima de brita ¼. Quebrara uma perna na queda.

O engenheiro me procurou no fim daquela tarde mesmo e disse que já estavam providenciando minha volta para a cidade de onde viera. Tinha medo de que contasse a história de que o prevenira com antecedência.  Além disso me alertou para que nada dissesse, pois conhecia algumas pessoas que gostavam de fazer certos “serviços” para agradá-lo.
Eu pestanejei. Ele estava me ameaçando? O aviso era claro. Não havia outra coisa a pensar.

Faltavam ainda quatro dias para eu viajar. Foram dias de muita angústia e medo.
Corriam muitas histórias sobre peões que sumiam de repente em meio ao campo, onde ninguém mais tivera notícia alguma.
Agora eu tinha uma idéia do que ocorrera com esses sumiços.



Capítulo Seis

Bem,  Voltei para o interior de Santa Catarina e para a casa dos meus pais uma semana antes do carnaval.. Deu tempo de me matricular para a terceira série do segundo grau.
Encontrei ainda os mesmo amigos na sala de aula.
Também a morena, pela qual eu já perdera o interesse, e uma loira, amiga inseparável dela, além de quase todos os outros do ano anterior.

Meu irmão, o segundo havia ido fazer um teste em uma equipe profissional e havia encantado os dirigentes. Ficara por lá. Meu pai o havia levado e voltou sozinho.
Minhas amizades na cidade, apesar de ser pequena, menos de cinco mil habitantes, se resumiam aos colegas da escola e aos conhecidos do trabalho.

Na época em que estive transferido, eu comecei a ter gosto por escrever. Escrevia poesias sem rima, sem estudo algum, bastante influenciado pelas músicas sertanejas que ouvia.  Era uma maneira de fugir da solidão e também do tédio em que vivia nos fins de semana em que não estava trabalhando. Saudades de casa, de Sandra, dos amigos....
Quando voltei, procurei ler mais e me aprofundar no assunto. Comecei também a escrever textos mais densos. A poesia é boa mas não deve ser compartilhada com um dicionário. A criança sabe que uma flor é bonita e não precisa de livro para saber disso. O poeta não deve escrever de forma estudada e elaborada, pois os sentimentos não são estudados nem elaborados. O sentimento aflora e se o poeta precisa de um dicionário para descrevê-lo, ou o leitor precisa de um dicionário para entender o que o poeta escreveu, isso não é poesia, é ciência. E a poesia não é ciência de palavras, mas sim a palavra tendo como essência os sentimentos.
Na classe, durante as aulas de português, eu vivia discutindo com o velho professor da matéria. Não aceitava o modo tradicional de como ele ministrava as aulas. Eu queria saber o verdadeiro significado das mesóclises e ênclises. Não aceitava ele simplesmente pedir para fazermos um exercício de gramática, discutia com ele porque a virgula não podia ser ponto? Queria que nos fizesse trabalhar mais em cima da literatura do que em cima da gramática. E discutíamos muito mesmo. O pessoal da classe se divertia com isso, uns até se irritavam com minha teimosia. Ele era o professor, eu devia calar e ouvir, como todos o faziam. Diziam que eu acabava por fazê-los confundir-se.
Mais tarde vim  a assistir um filme. “Sociedade dos Poetas Mortos”, e sorri ao lembrar que bem antes do filme, eu já era um rebelde sobre o tradicionalismo nas salas de aula. Na verdade não era somente nas aulas de português, também nas demais, porém era na disciplina de lingua nacional que eu me enraizava mais.
Até mesmo o diretor chegou a me admoestar dizendo que o professor  reclamara da minha posição em suas aulas.

Talvez o que eu procurasse era um pouco de distinção entre os outros alunos. Eu era pobre, minha família sequer possuía um imóvel e trabalhava o dia todo. Era apenas mais um, igual a muitos. Não era notado. Havia até mesmo me tornado um aluno comum. Minhas notas já não me destacavam, como outrora faziam. Tinha que arrumar um modo de que me conhecessem. E a crítica dura, feroz e mordaz foi a opção que fiz. Isso eu consigo compreender hoje, mas na época não pensava assim.

 Luís ficou sabendo que eu escrevia e resolveu disputar comigo. Um lia o que o outro escrevia.  Nossa amizade se intensificou de tal modo que chegávamos a matar aula juntos, para podermos descansar no gramado do colégio, dormindo uma ou duas horas ao relento.  Ele também começara a trabalhar durante o dia e sentia cansaço o da luta diária. Acordar às cinco da manhã e ir dormir toda noite depois da meia-noite não era fácil.

Mas se nessa época eu ainda tinha alguma recordação de Sildit, essa lembrança logo ia diminuir. Não acabar, mas diminuir. Eu conto ao leitor como foi isso.

A primeira vez que a vi foi uma casualidade, eu voltava do serviço em um Sábado a tarde. Parei em uma banca de revistas e conversei um pouco com a menina que atendia a banca, que também era uma loja fotográfica. A balconista era conhecida do colégio. Eu estava com a roupa do serviço. Macacão cinza, uma mochila de couro atravessada ao largo do peito, e usando botinas, acessório que todos os peões usavam.
Ao sair da banca de revistas tropecei em alguém na calçada. Levantei os olhos para pedir desculpas e vi a mais linda menina que até então havia visto. Gaguejei, fiquei sem jeito e ela sorriu. Dentes brancos e perfeitos encobertos por lábios carnudos e vermelhos. Seu rosto era de uma alvura sem par e seus olhos verdes que mais pareciam duas estrelas esmeraldinas brilhando com meu jeito atabalhoado.  Seus cabelos loiros, cacheados e compridos, dançavam ao sabor do vento. Fiquei assim, parado, sem saber o que dizer, ela sorriu, não disse nada e se afastou com a amiga que eu nem tinha reparado.
  Fui andando e a cada dois passos olhava para trás na esperança de que ela olhasse também. Uma vez  a vi se torcer também para olhar-me. Sorri  e interiormente uma felicidade que eu não compreendia e que a muito não sentia se apoderou de mim.
Á noite, indo a missa, a vislumbrei do outro lado do corredor de bancos. Era sem dúvida alguma a menina mais linda da cidade. Incrível como eu ainda não a tinha visto.

Na semana seguinte eu trabalhei e fui a escola, e todos os dias eu estava sonhando em encontrá-la novamente. No entanto temia internamente. Já havia sofrido muito com o que sentira por Sandra e não queria repetir tudo novamente. Esperava encontrá-la no final de semana.
Mas no Sábado á tarde não a vi.
No Domingo fui jogar futebol com um pessoal da cooperativa agrícola da cidade. O jogo fora de manhã e ainda ficáramos para o almoço. Lá era sempre assim, o jogo de manhã e depois o time visitante ficava para um churrasco. Voltamos era perto das quatro da tarde. Bom, o mesmo caminhão pau de arara que nos levou também nos trouxe de volta.
Desci no centro  da pequena cidade, onde havia uma rótula. Alguns outros   desceram ali também. Mas eu segui o rumo de casa sozinho.

 Antes de chegar na rua que dava até meu lar, eu tinha que passar por uma quadra de futebol, de cimento, toda velha, mas a única da cidade. Ao passar por essa quadra, notei ao fundo, sentada na arquibancada feita de concreto, a loira que eu tanto ansiara em ver.

Estava com a amiga que eu vira junto no outro dia.

    Ela estava do outro lado da quadra, mas mesmo assim acho que me percebeu. De repente começou a falar mais, gesticular, sorrir alegremente. Isso mexia comigo. Fiquei ali, parado, em pé, só de calção, a camiseta dentro da mochila junto com as chuteiras.  Quando dei por mim a princesa estava de pé, ao meu lado, falando com alguém.
  Fiquei até meio assustado com a proximidade dela. Não, o leitor  já sabe que não era mais virgem, tampouco era novidade para mim o amor. No entanto, carregava dentro de mim a carga das recordações dos amores passados. E depois havia perdido o jeito da conquista, pois ultimamente, vivia quase que exclusivamente para o trabalho e os estudos. E temia fazer mais uma vez papel do tolo apaixonado.
Sim, por que sabe o leitor que todo apaixonado é tolo. Fica tolo. Coisas importantes perdem a importância quando o cupido lepidamente nos faz de alvos. Sim, o amor nos deixa fracos, doentes, suspirando e sonhando. Isso não é novidade, basta termos amado uma vez na vida para sabermos disso.
  A moça loira devia ser uns cinco anos mais nova que este que vos relata. Eu tinha na época uns 20 ou vinte um, e ela não devia passar dos dezesseis. Era como uma flor desabrochando.
Admirei-a dos pés a cabeça. E por vez acho que ela me olhava com o canto dos olhos.

  Caro leitor, não querendo ensoberbecer-me, mas naquela época eu era realmente bonito. Meu corpo estava em desenvolvimento. Eu tinha os músculos do corpo bem desenvolvidos e meu tórax era bem firme. Fazia muitos exercícios com as revistas de artes marciais que eu colecionava e também com os dois nunchako que possuía. Minhas pernas sempre chamavam a atenção pois eram grossas e cheia de pêlos. Meus cabelos, negros como os de índios, eram sempre bem penteados e cuidadosamente lavados todos os dias.
Sim, eu era vaidoso. Mas quem não é nessa idade?

  Eu então tomei coragem e em um instante de arroubo e ousadia  me cheguei junto a ela e seus amigos, que eu conhecia só de vista.
--- Oi! Tudo bem?
Ela olhou para mim, como não acreditando que eu tomara a coragem.
---- Oi! Como é seu nome?
Eu o disse e logo estávamos conversando alegremente, sentados no cimento da arquibancada. Eram momentos de pura magia e isolamento do mundo. As palavras dela eram como bálsamo, aliviando meu espírito.
---- Eu te procurei durante toda a semana? Aonde moras?
---- Ah, eu moro aqui mesmo, é que estudo em.... – disse ela falando que estudava fora da cidade, se preparando para o vestibular. Não me disse o lugar exato onde morava, apenas que seus pais moravam no centro da  nossa cidade.
  Aos poucos eu tomei coragem e peguei em sua mão. Ela tremia. Eu podia sentir as veias macias por onde o sangue passava, podia mesmo ouvir palpitações do seu coração. Estávamos em êxtase, não notamos quando o jogo da quadra acabou e só o percebemos quando os amigos dela se aproximaram e a chamaram para ir embora.
Nos despedimos, sem beijos nem abraços, apenas como conhecidos, com um aperto de mão e olhos umedecidos de alegria e satisfação. Prometemos de nos encontrar no próximo final de semana.

Bem, ilusões a parte, eu sabia que ela devia ser filha de alguém bem de vida na cidade. Se vestia bem, era educada e acima de tudo, seus pais pagavam sua estadia em outra cidade, maior, mais desenvolvida. Eu me sentia como um idiota tentando manter um romance com ela. Como podia? Eu era apenas um peão. Meu pai não tinha nada.
 Eu não tinha nada!!

Ivair Antonio Gomes
Enviado por Ivair Antonio Gomes em 08/04/2006
Código do texto: T135658

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Sobre o autor
Ivair Antonio Gomes
Palhoça - Santa Catarina - Brasil, 47 anos
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