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Dom Caramujo - 5 parte

Mas o coração não se deixa levar assim tão fácil, pela razão.
Na escola, perguntando ao Luís vim a saber que ela era filha de um rico lojista da cidade. Minhas suspeitas se confirmavam.
Mas o amigo, notando o quanto essa notícia me abalou, disse que conhecia o irmão da menina e que podia fazer com que nos encontrássemos no Sábado que viria.

Namorei com a menina, primeiro escondido depois a descoberto. Aproveitei aqueles doces momentos como se fossem únicos. Foi comigo que ela teve o primeiro beijo, a primeira transa e também a primeira decepção. Se sentia frígida, levava o sexo como uma culpa, um pecado como diziam os pais. Raramente transávamos. Mas para mim o sexo não era o principal. O que mais valia era tê-la ao meu lado. Saber que ela gostava de mim como eu dela. Não, não falávamos "Eu te amo!", pois essa frase para mim, sempre pareceu algo comercial, banal demais.
Após uns cinco meses de namoro eu cometi uma burrice tamanha que até hoje me penitencio.
Havia naquela época, hoje ainda deve haver,  muitos bailes no interior do município. Naquelas comunidades de colonos, gente que sua o dia todo no arado e cabo de enxada. E sempre o pessoal da firma se reunia para ir até esses bailes. Ás vezes o pessoal que organizava o baile arrumava um baile para levar o pessoal. Durante dias corria o anúncio na rádio. Havia um rapaz  na firma com quem travei uma amizade tão forte como a que havia entre eu e o Luís. O nome desse novo amigo era Bonato. Ele era alto, loiro, um rapaz muito bonito, por quem as meninas se derretiam. Formávamos um par de fazer as meninas ficarem de pernas bambas.

Antes de começar o meu namoro com a loira da cidade nós íamos sempre nesses bailes, eu e Bonato. Apesar de dançar muito mal, a maioria das vezes ficava sentado em uma mesa tomando cerveja, eu gostava do ambiente, e me divertia a valer. Depois do começo do meu namoro Bonato começou a reclamar da minha ausência nesses bailes. Então, certo Sábado, que a loira disse não poder vir para a cidade, resolvi fazer a vontade do meu amigo. Iríamos ao baile juntos. No entanto garanti a ele que não beberia pois não queria agarrar nenhuma menina, já que tinha a minha princesa, e sempre fui um cara de principios. Se não quero que ela me traia eu não devo traí-la, disse a ele.
Mas...baile é baile.

Quando dei por mim já havia tomado muita cerveja, então resolvi sair para fora do salão e pegar um ar mais fresco. Arejar a cabeça. Na porta fui barrado pelo segurança que disse não poder sair de dentro enquanto não desse três horas da manhã. Achei aquilo um absurdo e começamos a discutir em voz alta. Uma moça, morena e bonita , de cabelos pretos compridos me puxou por um braço, dizendo aos seguranças que eu havia bebido demais e que era seu namorado.  Me abraçou e levou-me para um canto, dentro do salão. Eu, já sem forças, totalmente alcoolizado aceitei a sua ajuda. Começamos a conversar e tomamos algumas cervejas mais.

Só me lembro de ter acordado em uma cama macia e cheirosa. Ao meu lado ronronava gostoso a morena que me acudira. Me desesperei. Não queria fazer aquilo. Não devia ter feito. Olhei pela janela e conclui que estávamos em um sítio, sozinhos. O carro dela estava estacionado embaixo de uma jaqueira.  Mesmo estando em uma situação complicada, sorri comigo mesmo, imaginando uma jaca caindo em cima do Scort XR-3, que na época era o veículo considerado de primeira linha.
            Saí dali de fininho, a deixei dormindo e fui para casa.

Alguns dias depois morena começou a ligar para o meu serviço. Não lhe dei o telefone, mas provavelmente alguém o deu. Como eu não lhe dava atenção ela resolveu estragar minha vida de uma vez por todas.

Não sei como, soube do meu romance com a loira e quando esta veio, no fim de semana seguinte, a morena lhe disse que eu havia dormido com ela. A loira, ficou horrorizada, mas mesmo assim confiou em mim quando lhe expliquei que estava bêbado. O Bonato confirmou toda história. Mas a morena, vingativa e rancorosa, três meses depois apareceu em nossa vida novamente dizendo que estava grávida. Mostrou o exame médico. Ah, se naquela época já houvesse esse negócio de exame de DNA. ( Mas como eu não podia pagar, de nada adiantaria!)
O caso é que os pais da loira a proibiram de me ver e os da morena queriam que eu casasse com ela á força, como acontecia com muitos na época dos meus pais.

Fugi! De um dia para outro!
Assim, sem mais nem menos.
 Fugir parece um termo muito forte, no entanto, hoje observando melhor, posso dizer que realmente é a palavra que melhor descreve meu ato.
Peguei minhas economias no banco e me mandei daquele lugar. Afinal a loira eu não podia então a morena não me teria.

Eu carregava então um pouco de rancor comigo mesmo e também o sentimento de frustração. A vida parecia de repente perder todo o significado. Eu mesmo, me lembro bem daqueles dias, estava vazio, sem nenhum pensamento claro e também nenhum escuro.


Nas rodoviárias por onde passei, eu me sentia um marginal procurado pela polícia. Quando policiais faziam ronda e passavam perto de mim eu procurava de todos os modos esconder o rosto. Não sabia que atitude os pais da morena podiam ter tomado. Mas me precavia.

Mais uma vez o amor não dava certo. Parecia que eu estava condenado a ermitar pelo mundo. Minhas tristezas se amontoavam umas sobre as outras.  Sequer pensei na possibilidade da criança ter outro pai. O que depois de muito tempo ela confirmou a algumas pessoas. Mas aí já era tarde demais. O passado não podia ser modificado.
Ivair Antonio Gomes
Enviado por Ivair Antonio Gomes em 09/04/2006
Código do texto: T136246

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Sobre o autor
Ivair Antonio Gomes
Palhoça - Santa Catarina - Brasil, 47 anos
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Ivair Antonio Gomes