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SINAIS DE FUMO III (O sol põe-se numa reserva índia, algures nos Estados-Unidos há cento e poucos anos)

“No teu olhar via paixões contidas, mas também via ódios à beira de um abismo, nos teus olhos via sinais de fumo”

SINAIS DE FUMO III

O sol põe-se numa reserva índia, algures nos Estados-Unidos há cento e poucos anos.
Há já vários meses que a tribo foi obrigada a sair dos territórios dos seus ancestrais, onde os homens vindos do outro lado do mar descobriram riquezas irrelevantes aos seus proprietários, mas demasiado relevantes para eles. De início responderam à ordem de saída com a revolta que se impunha, mas depois, depois de terem vindos exércitos atrás de exércitos, e da tribo ter sido repetidamente massacrada, cederam e deixaram-se guiar pela cavalaria fortemente armada, até às suas novas terras, sem a memória dos antepassados, mas cheia de sofrimento, onde a fome e as doenças marcavam a passagem dos dias. Ainda pediram para voltar, para poderem morrer em solo conhecido, mas o pedido foi recusado, o que levou à recusa da paz imposta e á revolta dos guerreiros subalimentados e irrisoriamente armados, que facilmente foram derrotados pelo homem branco.
Depois, renderam-se por fim, renunciando aos seus direitos legítimos, e deixaram-se ficar na reserva, acossados, esfaimados, desonrados, mas na paz possível onde morreriam.
Até ao dia em que repararam que o homem branco instalava armas novas nas colinas que dominavam a reserva, armas estranhas de vários canos. Espantados contemplaram o espectáculo, olhando-o sem compreender. Não sabiam que anos antes um presidente branco tinha dito que “o único índio bom, é um índio morto”, dito que prevaleceu por muitos e maus anos, não sabiam que não bastava apenas saírem das terras caras para saírem da memória dos novos colonizadores, para isso era preciso mais, eram precisas as suas almas. Quando as armas começaram a disparar sobre as tendas, alguns talvez tenham percebido, tal como os bravos que se lançaram de facas e lanças nas mãos contra os assassinos, que os ceifaram a muitos metros de distância sem lhes darem a sombra de uma hipótese para vingar a tribo que se estava a transformar em sombras. Em demasiado pouco tempo o silêncio caiu sobre a reserva, não se ouvindo nem sequer o lamurio duma criança ou mulheres feridas, porque nem sequer houve feridos, porque no lugar da tribo ficou apenas a memória desta na mente dos assassinos.
O sol põe-se numa reserva índia, algures nos Estados-Unidos há cento e poucos anos

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Miguel Patrício Gomes
Enviado por Miguel Patrício Gomes em 11/04/2006
Código do texto: T137229
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Miguel Patrício Gomes
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