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SINAIS DE FUMO IV (A manhã nasce na faixa de Gaza)

“No teu olhar via paixões contidas, mas também via ódios à beira de um abismo, nos teus olhos via sinais de fumo”

SINAIS DE FUMO IV


A manhã nasce na faixa de Gaza.
Ibrain e a sua família acordaram sobressaltados pela notícia da morte dum primo de onze anos, vitimado pelas balas judaicas da recente guerra. Apesar da raiva de Ibrain o empurrar para as ruas e vingar o sangue, foi toldado pela frieza racional do pai, farto de guerras e de mortos, veterano aposentado da guerrilha palestiniana. A resistência da família seria passiva, indo ao máximo de participar no funeral que entretanto se transformou numa manifestação que gerou novos confrontos, novos mortos. No entanto as más notícias não ficarão por ai, obrigando o patriarca a rever a sua posição: desconfiados que do prédio partiram algumas balas que alvejaram um colonato, o governo ordenou a saída dos moradores, e só não os despejou porque a zona se transformou em palco de confrontos intensos, a impedir a entrada de tropas no terreno. Mesmo que o fizessem o pai do jovem nunca sairia daquele terceiro andar que lhe custaram a poupanças duma vida, nem mesmo à força. Já não se tratava dum gesto insano dum político radical ter empurrado os judeus para a guerra que naturalmente ganhariam porque os tanques e aviões ganham sempre às pedras dos resolutos palestinianos, tão sedentos por uma pátria como os judeus quase sessenta anos mais cedo, a questão era já pessoal, e por isso a família resistiria sempre, apesar de desaconselhados pelos outros moradores que abandonaram o edifício, temendo a poderosa e previsível reacção do estado mais poderoso do médio oriente.
Prepararam no entanto a casa contra a investida, estando naquele momento a acabar de empurrar a mobília contra a janela, que serviriam assim como uma espécie de coletes à prova das balas que viriam sem dúvida. Aproveitando a escuridão da noite, passaram-na nessa tarefa de resistência, encontrando-os os primeiros raios de sol nessa tentativa de evitar as trevas que se adivinhavam.
O sol nascente da manhã quente ilumina as enormes pás do Cobra que começam a girar lentamente, mas que num ápice giram como loucas, elevando-nos no ar. Ainda me lembro quando ficava excitado e motivado por este movimento, quando nos mandavam em missão secreta ao Líbano, detectar e destruir automóveis da guerrilha islâmica. Por cada alvo destruído sentia vingados os camaradas mortos, e as cidades bombardeadas a mando dos líderes que arderam no inferno das suas viaturas. Era guerra, justa apesar da desproporção dos meios, mas se esta gente agia na sombra e na sombra vertiam o nosso sangue, a retaliação aérea mas não assumida directamente era uma forma de justiça como outra qualquer.
Mas agora...pudores e políticas à parte, o alvo são civis, praticamente desarmados, mas duros, tão duros como os homens como o meu avô que lutaram e ganharam contra tudo e quase todos o nosso tão desejado estado judaico. Nunca questionei as ordens recebidas, cumpri sempre com o máximo fervor, mas agora... Treinaram-me para detectar e destruir carros quer fossem blindados ou civis, mas sempre terroristas, sempre cheios de gente que queria a morte da minha pátria, e por isso não pude deixar de franzir as sobrancelhas quando me informaram ir alvejar...um quase abstracto...locais onde hipoteticamente estariam snipers que alvejavam os colonatos. Invejei a sorte de outras tripulações que iriam destruir algumas sedes políticas e mentalizei-me para esta nova forma de matar.
Aproximação ao alvo.
Os sensores nada indicam, apesar de termos autorização de bombardearmos o bairro por debaixo de nós indiscriminadamente.
Como artilheiro do helicóptero de combate tenho a missão de despejar a morte, mas hesito. Nunca disparei contra nada sem um mínimo de certezas...Certezas que ganho quando reparo num ligeiro movimento por detrás duma janela. “A morte bíblica vem quase sempre dos céus”-Filosofo estúpida e inutilmente, tentando dar um cunho religioso a uma questão que se queria assim, mas que não passa de mais uma querela política entre tantas outras da zona mais perigosa do planeta...
Falo um pouco com o piloto, preparo os foguetes e disparo uma salva em direcção àquele terceiro andar. Em segundos fica pulverizado de lado a lado, fazendo o prédio assemelhar-se a um queijo suíço. Mesmo que se tivesse escondido nas divisões interiores o sniper não teria escapado
A manhã nasce na faixa de Gaza.

Conto(bem como todos os deste conjunto de "Sinais de fumo") escrito algures em 2001
Conto protegido pelos Direitos do Autor
Miguel Patrício Gomes
Enviado por Miguel Patrício Gomes em 11/04/2006
Reeditado em 11/04/2006
Código do texto: T137231
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Miguel Patrício Gomes
Portugal
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Miguel Patrício Gomes