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Quando ele se foi


     Algumas pessoas passeiam pelos cemitérios e acham a experiência relaxante. Outros não suportam nem passar perto. A mim, particularmente, não é agradável, só isso. Mas como as crianças insistiram que eu viesse, aqui estou neste enterro. Mas esta história começa mesmo há um dia atrás.
     Foi numa manhã de segunda-feira quando se deu o imprevisto fato. As crianças voltavam da escola e iam atravessar a avenida quando o pequeno Willian as viu lá da pracinha. Não sei quem deixou ele sair de casa sozinho, e ao vê-las, saiu desatinado ao encontro delas, tão empolgado, e não viu o ônibus que tão somente cumpria seu itinerário - e que infortunada coincidência -, quando os dois se encontraram no meio da via. O motorista freou mais pelo grito dos dois irmãos do que pela vida em seu caminho. Mas não teve jeito mesmo, e Willian não resistiu ao choque, caindo ali mesmo. A multidão cercava o corpo e alguns vizinhos tentavam acalmar as crianças. Willian era quase um irmão. Elas o viram nascer, o pegaram no colo, mas agora seus valores de vida, sofrimento, solidão e dor os atingiram súbita e confusamente. Era a primeira vez que viam um amigo morrer.
     Chegaram em casa aos prantos. A mãe, assustada, lhes corre ao encontro. Ouvi o choro, do quarto, e desci para saber da notícia infeliz: o cachorro morrera.
     Tentamos consolá-los de todas as formas, mas era a primeira vez que os pais enfrentavam essa situação, que os adultos também não sabiam lidar – a morte. Não quiseram comer, nem foram à aula no dia seguinte. Até que a filha teve a ideia de fazer um enterro, com velório e tudo.
     Conseguimos por cortesia um cantinho tranquilo no cemitério do bairro, e foi lá que, família reunida e alguns amigos das crianças, realizamos o enterro. Pensei que algum deles fosse chorar e contagiar por fim os demais, mas todos permaneceram corajosamente firmes. Terminado o rito, saímos em silêncio. As crianças davam a mão à mãe, e eu acompanhava a uns metros atrás, até que o menino virou-se e quebrou o silêncio:
     - Nada dura para sempre, não é, pai?
     Confirmei com um sorriso sério que ele estava certo. A menina olhou para o lado e teve outra ideia:
     - Vamos comprar um outro cachorro, mãe? – e combinamos que, no dia seguinte, depois da aula, iríamos comprar um cachorro.
     Acho que as crianças superam alguns problemas melhor do que muitos adultos – e quando foi que eu perdi minha simplicidade pela vida?
     Notei depois que as crianças aceitaram bem o novo amigo, e nunca mais tocamos no assunto do acidente. E também notei que elas estavam crescendo, mas, toda vez que voltavam da escola, não passavam mais pela pracinha, não.
Vitor Junior
Enviado por Vitor Junior em 12/04/2006
Reeditado em 10/04/2014
Código do texto: T137650
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Vitor Junior
Maringá - Paraná - Brasil, 36 anos
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5 e-livros (131 leituras)
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Vitor Junior