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Lisleia

Lisleia nasceu no interior do Rio Grande do Sul. Antes de

completar oito anos, sua família, pai, mãe e duas irmãs mais

velhas,resolveu mudar-se para a capital, onde já residiam os
 
familiares de ambos os lados. A mãe, costureira de mão cheia

achava que teria mais oportunidade em Porto Alegre, o pai,

mestre de obras tinha mais ou memos a mesma convicção. E en-

tão mudaram-se para a cidade grande.

Chegaram na capital, encontram logo, uma casa boa para mora-

rem em um bairro não muito afastado do centro da cidade. E a-

li foram vivendo a vida. Era uma família simples, mas com há-

bitos dignos. Viviam bem, dentro dos padrões que suas profis-

sões lhes permitiam. Obtiveram, realmente, mais sucesso do

que na cidade de origem. As filhas estudavam, as duas mais

velhas eram bastante extrovertidas, alegres, barulhentes  e

com muitos amigos. Lisleia não, era mais mais reservada e

sentia muita falta do carinhodos pais, que embora fossem

boas pessoas não eram de muitos agrados para com as filhas.

As outras pouco se importavam,pois já crescidas, com l3 e l4

anos,andavam de namoricos e não se incomodavam muito com os

carinhos dos pais, também por questão de temperamento. Não

eram tão sensíveis e emotivas quanto Lisleia.

Esta era, no entanto,a mais bonita das irmas era ruiva,cabe-

los encaracolados,olhos de um verde-mar que, em alguns dias,
 
dependendo do sol ou das nuvens que o encobriam, iam de um

azul intenso a um verde acinzentado, pele muito alva,

magra. Nas épocas de festividades como aniversário das irmãs

ou dos pais, páscoa, natal e outras comemorações, Lisleia

dava sempre um jeito de permanecer  um pouco entre os convida

dos e depois refugiava-se no seu quarto, seu cantinho favori-

to. Era ali que ela ouvia suas músicas, lia os livros que

mais gostava e escrevia seu diário desde que fora alfabeti-

zada.Nesse lugar só cabia a fantasia do seu mundo imaginário

e bem sucedido,tinha pais atenciosos que lhe contavam his-

torias e ficavam a segurar sua mão até que adormecesse.

E assim Lis foi crescendo, desenvolvendo e tornando-se uma a-

dolescente das mais vistosas de seu bairro. Era invejada até

por suas irmãs que também eram bonitas, mas Lis tinha algo

especial, cativava os rapazes que estavam sempre a convidá-

-la para festas, cinemas, baladas,enfim toda sorte de diver-

vertimento.

Algumas vezes ela aceitava os convite, outras não, pois so-

nhava encontrar seu par ideal e até então não conhecera nin-

guém que a interessasse de verdade. Sonhava com um grande a-

mor, parecido com aqueles que lia nos romances, embora fosse

muito apaixonada. Freqüentemente estava apaixoanda por um ou

por outro garoto. A família de repente começou a diminuir,

suas irmãs casaram-se e então Lis ficou só com seu pai e sua

mãe. Estava então com dezoito anos, já se formara, cursara

inglês e trabalhava numa empresa de exportação.À noite

matriculara-se no Curso de Comércio Exterior. Gostava do seu

trabalho e a vida ia passando. Nas férias viajava, gostava

muito de praia, mas não dispensava uma temporada na serra, ia

na companhia de uma ou outra amiga, das poucas que possuia ou

então acompanhada de algum eventual namorado.

Um dia, de repente a vida de Lis mudou por completo. Estava

no trabalho quando recebeu um telefonema de vizinhos que ha-

viam visto a notícia no jornal da tevê. Seus pais, acompanha-

dos das filhas haviam viajado para visitar uns parentes que

estavam morando em Curitiba. Na volta, numa ultrapassagem

perigosa o carro de sua família colidiu com um caminhão e ca-

potou matando todos seus ocupantes, Liz, estava agora,lite-

ralmente, sozinha no mundo com seus vinte sete anos de

idade, num mundo hostil e inseguro.

Sua vida desmoronou, seus valores se embaralharam em sua

cabeça. Revoltara-se com o criador, pois era uma pessoa que

buscava a paz interior em diversas filosofias, inclusive

orientais. Já praticara meditação, ioga, nadava muito bem e

gostava, por demais, de dançar.

Diante daquela tragédia sentiu tudo ao redor  desabar, conti-

nuou,no entanto, a trabalhar e a estudar muito, mergulhou

nesse para sobreviver, também porque seus pais não amealha-

ram grande fortuna. Sua dor era muito grande e então

conheceu, numa noite em que saira com alguns amigos, um ho-

mem que lhe despertou um imenso carinho. Sabia que não era o

homem de sua vida, pois por este deveria apaixonar-se perdi-

damente para que pudesse ser feliz. Pensou que encontrara o

amor, mesmo sem paixão, pois já havia sofrido muito com suas

paixões mal sucedidas, acreditara que este amor tranqüilo,

sem os arroubos da paixão, aquela coisa que a deixava

com o coração na boca e com as pernas bambas, sem saber nem

ao menos o que falar cada vez que encontrava com seu apaixo-

nado pudesse lhe trazer emoções mais calmas.

Foi se envolvendo com Rubens pois este lhe demonstrava  res-

peito e muito amor. Ela, pela primeira vez na vida, sentia-se

amada. Ele a levou para conhecer  seu pai, sua mãe, tios,

primos, enfim todos os parentes e amigos Ela sentia-se muito

acarinhada por toda aquela gente que lhe demonstrava

consideração, eram pessoas muito alegres gente solidária que

se reunia tanto para festas quanto para as tristezas da vida.

E assim foram se conhecendo, sentindo-se bem um ao lado do

outro, iam a praia,  freqüentavam cinemas e passeavam muito

nas festinhas de aniversário dos parentes dele,jantavam na

casa de amigos, enfim levavam uma vida social que agradava

muito a Lis. Sentir-se amada era o que mais lhe conquistara

o coração, sentia-se, finalmente, membro de uma família,

coisa que nunca tivera com seu pais, pessoas bem menos

afetivas àquelas que rodeavan Rubens e que a adotaram como

uma filha. Um dia, depois do trabalho, ele foi esperá-la na

saída e foram a um restaurante muito amplo, com uma bela

visão panorâmica da cidade. No meio do jantar ele tirou do

bolso uma caixinha verde como os olhos de Lis. Entregou-

lhe,ela abriu e era um lindo  anel de noivado. Lis ficou

surpresa,não esperava que ele tomasse essa iniciativa tão

rápido, embora já namorassem há dois anos.

Entre encantada, lisonjeada e desconcertada  Lis aceitou a

proposta de casamento, mas não marcaram qualquer data.

Continuaram com os mesmos programas de antes. Até que um dia

ele lhe perguntou se já não era hora de avançarem rumo ao

casamento. Novamente Lis ficou perplexa porque apesar de

gostar muito de Rubens não sentia aquela paixão que, para

ela, era fundamental para uma união bem sucedida. Pensou

bastante e decidiu aceitar, por acreditar firmemente que

havia encontrado o amor e este era mais sólido, com mais

probabilidade de dar certo do que as paixões que estava

acostumada a ter.

E então, dali a um ano casaram-se, Lis estava muito linda,

muitos lhe diziam ser  a noiva mais linda que já haviam vis-

to na vida. Ela ficava um pouco sem jeito com tantos elo-

gios, mas aceitava-os e agradecia às pessoas que a tratavam

com tanta dedicação.Rubens era um rapaz que estava com a

vida consolidada, trabalhava numa empresa de grande porte,

como consultor jurídico. Arrumaram seu apartartamento de for-

ma a garantirem-lhes conforto e também beleza na decoração.

Lis continuou também com seu trabalho e assim os dois tinham

uma vida muito boa. Podiam fazer tudo o que estavam acostuma-

dos a fazer antes do matrimônio.

Com a convivência, depois de um ano, veio a idéia de terem um

filho, Lis não se sentia realizada como mulher, mas todo o

mais era muito bom. Então embora os prolemas fossem surgindo

e o bebê tão desejado mais por Rubens que por Lis não chega-

va, viu-se ela na obrigação de submeter-se a uma série de exa

mes. Ficou constatado que seu organismo estava funcionando

com perfeição. Então Lis teve a idéia de sugerir a Rubens

que adotassem uma criança, visto haverem inúmeras abandona-

das pelos orfanatos. Ele recursou veementemente. Queria um

filho dele com ela. Ele não falou mais no assunto nem ela!

E foram levando a vida. Chegou um dia que Rubens foi encon-

trá-la no final de seu expediente. Naquele dia, Lis estava,

especialmente feliz. Havia recebido uma promoção, seria

supervisora de sua divisão, cargo bastante importante. Quando

saiu e encontrou Rubens, que estava cabisbaixo, casmuro. Ela

lhe perguntou o que houvera. Então ele falou, entre dentes,

que fora demitido. Pronto! Pensou Lis. Não posso dividir com

ele minha alegria. Foram para casa e o clima ficou  péssimo

entre eles. Depois de um tempo conversaram, ela lhe disse

que certamente em breve encontraria uma nova colocação, pois

tinha um vasto currículo e muita experiência no mercado, era

jovem ainda. Tinha todas as condições para ingressar nova-

mente no mercado de trabalho.

Rubens, no entanto, não se conformara com a crise que estava

enfrentando e embora Lis lhe dissesse que não haveriam de

passar necessidades, visto que, fora promovida e seu sa-

lário estava agora bastante aceitável para garantir as des-

pesas da casa pelo menos por um período, mas Rubens não se

conformava com aquela situação, pois trabalhara desde cedo e

essa era a primeira vez que via-se sem trabalho. Desesperado,

começou a beber. Saía à noite com amigos e voltava para casa

completamente embriagado. Nessa ocasião Lis começou a ques-

tionar sua vida, fez um balanço geral de toda sua existência

e concluiu que não conhecera até então a felicidade, nem mes-

mo se realizara como mulher.

Lis se sentia vazia, sozinha mais uma vez, já não conversa-

vam como antes,já não saiam com os amigos, não visitavam os

parentes, enfim a vida já não valia a pena. Pensou então em

voltar a estudar.

Resolveu fazer filosofia. Sempre pensara nessa possibilidade,

mas tivera que cursar outra faculdade para poder manter-se e

ajudar um pouco sua família. Agora, já não precisava disso e

podia dedicar-se ao estudo, coisa que sempre gostara de

fazer. Seu marido foi contra. Costumava ficar em casa,durante

o dia lendo algum jornal, uma revista ou fazendo nada em frente à televisão. Já não era o mesmo homem que Lis pensara ter amado.

Mais uma vez Lis foi à luta. Pediu reingresso e conseguiu uma

vaga na Universidade para o curso pretendido.E assim, começou

a se afastar de Rubens que amargava sua desventura em casa,

não saía, para encaminhar o currículo ou agendar alguma en-

trevista. Ela, no entanto,  entusiasmou-se com a filosofia.

Começou a comprar livros e estudar em grupos com seus cole-

gas. Foi num desses encontros que começou a conversar mais

com Marcelo um novo membro do grupo que se integrara ao mes-

mo um pouco mais tarde. Nasceu uma afinidade, quase que ime-

diata entre Lis e Marcelo, que já cursara o curso de ciên-

cias sociais e lecionava em dois colégios. A conversa entre

os dois fluia naturalmente. E eles foram se aproximando cada

vez mais. Começaram, junto com os outros colegas, a sair e

fazer outros programas afora o grupo de estudos, pois os

laços entre eles também haviam se estreitado.

Lis pegou-se de repente pensando todo momento em,Marcelo ad-

mirava-o muito como pessoa culta, via nele outras qualidades

e começou a se dar conta que estava se apaixonando por ele.

Percebeu também que ele a tratava de uma forma diferente, era

atencioso, sempre  perguntando sua opinião sobre os aconte-

cimentos do grupo ou sobre questões do curso.

Lis se sentia valorizada, reconhecida e foi se aproximando

cada vez mais de Marcelo.Apaixonou-se então,perdidamente,por

ele. E o seu marido? como resolveria a situação com ele. Pen-

sou muito bem e resolveu conversar com ele e pediu que se se-

parassem. Rubens reagiu da pior forma possível. Ameaçou sui-

cidar-se, chorou, exclamou-se, enfim chantegeou Lisleia de to

das as formas, mas ela estava decidida a viver o amor-paixão

com Marcelo. Sabia agora que estes dois sentimentos, para e-

la era imprescindível que andassem juntinhos. E agora aconte-

cera. Lis quase não acreditava.

Arrumou  suas coisas e foi para a casa de sua melhor amiga,

depois providenciou o divórcio. Ele, até a última hora pro-

curou sensibilizá-la, mas Lis era assim: quando tomava uma

decisão a seguia até o fim, custava é certo, mas não voltava

atrás. Uma união desfeita dói, dói muito, mesmo para quem a

provocou ou quer a separação. E com Lis não foi diferente,

sofreu muito, sentiu-se culpada, sentiu desumana, mas,enfim,

resolveu enfrentar a vida mesmo com dor iria ter sua relação

afetiva com Marcelo.

O tempo foi passando e a dor também, afinal estava enamorada

e sabia ser correspondida, Marcelo muitas vezes declarara-se

apaixonado e no dia a dia demonstrava esse sentimento. Foram

morar juntos enquanto o divórcio não saí para então poderem

se casar. Moravam num apartamento decorado pelos dois com to-

do amor e cuidando para que cada cantinho fosse acolhedor pa-

ra eles e para receber os amigos. Estavam muito felizes! Pas-

sados cinco anos de muita alegria e contentamento Lis sofreu

um severo revés, começou a sentir-se muito cansada sem causa

aparente, desanimada, com muitas dores pelo corpo, recorreu

ao médico e depois de uma via sacra entre hospitais e labo-

ratórios descobriu que  estava com uma doença raríssima, sua

vida corria risco ou melhor não havia solução para esta doen-

ça.A medicina nesta área encontravse-se muito atrasada. Ator-

doada pelo que ficara sabendo Lis não encorajou-se a revelar

a Marcelo sobre o diagnóstico que ouvira no consultório do

especialista. Seriam anos de sofrimento e afinal a morte

chegaria senhora de seu destino e a levaria sem considerar

qualquer apelo. Não queria fazer sofrer o homem que lhe des-

pertava paixão e muito, muito amor. Estava, mais uma vez,

numa encrizilhada. Tinha poucas amigas. A maioria eram

colegas de trabalho e Lis não gostava de comentar com elas

sua situação. Restavam-lhe poucos meses de vida.

Então um dia Lis saiu do trabalho e não foi para casa. Pegou

o carro e resolveu arejar a cabeça. Tinha prazer em dirigir

ouvindo suas músicas que sempre guardava no carro.  Foi

andando, pensando no seu problema. Foi indo, indo e quando

viu estava na Serra, em Canela. Continuou andando, a noite já

dava seus primeiros sinais. Mas Lis não parou, foi

cantarolando pelas sinuosas estradas da Serra, num dado

momento sentiu uma vertigem, mas não deu importância

continuou com o som bem alto e cantando junto, quando, de

repente, a buzina do carro disparou, Lisleia havia desmaia-

do. Seu corpo pendera para a frente e sua cabeça caíra sobre

a direção............
 







Marla
Enviado por Marla em 14/04/2006
Código do texto: T138848

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Sobre a autora
Marla
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