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Dom Caramujo - parte 08 de 10

Antes de sair do serviço na Caixa, eu havia conseguido publicar meu primeiro livro depois de várias tentativas infrutíferas. Consegui editar cinco mil exemplares com a contribuição da Associação dos Profissionais da C.E.F., mas não deu o resultado esperado. Não consegui mais que oitocentos reais livres para mim. Fiquei um pouco decepcionado. Tinha outros projetos iniciados, e aquilo funcionou como um entrave para a sequencia dos novos projetos.
Fiz um acordo com uma péquena editora e relancei "O Quinto Homem". Um jornalista do Rio de Janeiro, não sei como, o leu e gostou. Mauricio Santoro comprou-me os direitos do nome e também os autorais. Na época foi uma boa grana. Mas, imbecil que era, muita festa e ajudas aos amigos me fizeram consumir tudo em menos de seis meses.
Com o pouco que me restou comprei uma passagem e rumei para o norte do País.
Levei quatro dias e três noites para chegar ao meu Destino. Nova Xavantina. Quase divisa com o Pará. Nova Xavantina, terra de índios xavantes. Era um local ermo, desabitado, não totalmente devido a uma dezenas de casebres.
O que eu fui fazer por aqueles lados?
Bom, na verdade acho que resumi as coisas muito rapidamente nos parágrafos acima. Eu não saí da firma juntos com meus amigos. Na verdade quando a firma perdeu a licitação eu já  era supervisor dos digitadores, e continuei com a firma subsequente. No entanto a pressão era gigante para o cargo e eu vivia tendo que tomar atitudes que não condiziam com o que sentia. Era demais para mim. A nova firma exigia tudo e não dava nada. Era como se os digitadores só tivessem deveres e nenhum direito. Agüentei por dois anos o cargo depois caí fora. Nesse meio tempo procurei manter a amizade dos amigos do tempo em que eu era digitador. Mas com a pressão  veio o stress e a concha e o casulo voltaram a se fechar ao meu redor... não suportei e joguei tudo para os ares. Sabia do que precisava. Ares novos, pessoas novas. O livro fora apenas um momento. Não tinha grande esperança de tornar-me um grande escritor.
Ah, reparei agora, relendo o que tinha escrito até aqui, que não tenho mais falado de minha família.
Bom, minha mãe faleceu quando eu consegui o estágio no Banco do Brasil e meu pai em seguida não suportando a solidão caiu na bebida e apenas oito meses depois faleceu também.
Soube por carta que meu irmão Caçula havia passado na faculdade e que o segundo, o jogador de futebol, havia constituído família no norte da Bahia, quando fora jogar em um time da região.
Todas minhas irmãs estavam casadas.
A mais nova casara quando eu ainda estava trabalhando como digitador.
Eu nunca mais os vira. Não queria lhes incomodar com minhas agruras. Sequer havia lhes escrito uma carta. Soubera disso tudo por intermédio de um motorista de ônibus que era do local onde eles moravam, e que eu encontrara casualmente um dia.
Em Nova Xavantina eu fiquei arrependido do passo que dera. Sentia falta das risadas gostosas dos meus amigos e das festas que fazíamos. Na verdade eu fora até lá por acaso. Depois de pegar o dinheiro da minha rescisão, e o que restara dos direitos do livro resolvera andar até acabar meu dinheiro. Conhecer um pouco mais do Brasil que eu não conhecia. Fui até o Paraná, cheguei mesmo a bater no portão onde sabia morar uma tia, mas mal a campainha soou me escondi. Não queria aquilo. Queria liberdade para meus movimentos. Lia nos jornais que o desemprego assolava o país.
Onde eu ficava por alguns meses trabalhava como garçom ou atendente de posto de gasolina. Só para pagar a estadia e a alimentação. Gastava o mínimo possível. Junto a mim carregava uma bíblia e um caderno de anotações além de uma velha mochila com roupas velhas e gastas e dois pares de calçados; uma botina e um tênis encardido.
Várias vezes tinha medo dos homens nos volantes dos caminhões que me davam carona, no entanto depois de dizer algumas piadas logo estávamos conversando sem grilo nenhum.
Mas sempre me lembrava, nessas caronas, do motorista de RK que quase me matara uma vez.
Nova Xavantina; Terra da índia pequena, dos índios de cabelos azuis e cheiro forte. Terra abençoada por me receber e maldita por me expulsar.
Na pequena cidade conseguira a amizade de algumas pessoas e a essas disse que era escritor.
Um dia, depois de quase duas semanas na cidade, resolvi visitar uma aldeia. Foi a coisa mais idiota que já tinha feito até então. Tomei a trilha que já era uma estrada visto que havia largura suficiente para a passagem de um ou mais carros. No meio do caminho dois índios enormes apareceram. Ambos traziam arco e flecha nas costas. Usavam um calção de jogador e chinelos nos pés.
---- Aonde moço vai? – me perguntou um deles.
Ivair Antonio Gomes
Enviado por Ivair Antonio Gomes em 14/04/2006
Código do texto: T138858

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Sobre o autor
Ivair Antonio Gomes
Palhoça - Santa Catarina - Brasil, 47 anos
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Ivair Antonio Gomes