Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

O(A)ônus da prova - by-Caio Lucas




O(A)ônus da prova by-Caio Lucas
 

Acontece muito por aí... Sou um homem adulto e detesto qualquer tipo de violência, até porque não sei brigar, mas sempre tem um engraçadinho que nos tira do sério, então é aí que a maioria perde o controle.

Outro dia aconteceu comigo. Estava passeando com minha namorada, entrei no metrô e logo vi um lugar livre, fomos até lá para ela sentar e eu fiquei ali meio de lado. O vagão estava cheio, era um feriado, mas também dia de jogo, torcedores estavam voltando do estádio, alguns alegres outros nem tanto.



Sempre tem aquele que fica muito engraçadinho quando no meio de uma turma, quer aparecer mais que todos. Quando você está acompanhado então, o melhor é evitar até de olhar na direção deste tipo. Faz de conta que não está escutando nada e nem enxergando os gestos, coisas de moleques, pra não dizer de cafajestes.

Lá íamos sossegados quando o sujeitinho começou a me provocar, dizia ele:

-Cara olha aí mano, este homem feio kisó com esta mina linda... E aí mina, tirando uma com o coroa? Será que ele dá conta? É isso memo, põe a mão e toma tudo deste coroa, depois liga pra mim que a gente leva uma, vamos ficar numa boa.

-Vê aí mano, (falando agora aos amigos) o cara nem olha pra gente, não encara, sabe que não pode, não tá com nada.

Eu continuei ali quieto, sentia que o suor descia meu rosto até o peito. Estava nervoso, louco para dar umas porradas naquele fdp, mas não poderia, primeiro porque estava acompanhado e segundo porque eles eram cinco. Eu sou muito homem, mas impossível encarar cinco moleques, ainda que nem pêlos no saco tinham.

Desculpe, não queria escrever isso. Fico louco só de lembrar deste fato. Mas não é nada surpreendente, já havia assistido uma passagem quase igual um certo dia com outra pessoa.



Parecia que estava revivendo aquele dia, só que hoje o caso era comigo e eu não poderia e nem ia perder o controle, tinha que tomar alguma atitude, então fui arquitetando, mudando os pensamentos de cá pra lá e de lá pra fora do metrô.

A minha namorada não sabia onde esconder a vergonha, coitada, o rosto tinha as mais variadas cores, de repente o vermelho deu lugar a um branco esverdeado. Ela também não imaginava o que fazer e nem qual seria a minha reação, apertava minha mão com força, estava com medo e eu também, mais alguns segundos e lá vinha ele à carga.

Falava mais uma vez da minha idade, da garota que estava comigo e até do sapato que eu usava. Falou muito em brega, até acho que sou, na minha idade, que não é tanto assim, não posso e nem vou me vestir como um garotão, tenho cá meus recatos. Quando falou alguma coisa de não dar conta na cama eu esfriei, aí ele mexeu com meus vinte centímetros de brio.



Graças a Deus estávamos chegando à estação que íamos descer. Vi que minha namorada até respirou um pouco mais aliviada, era sair do metrô e esquecer aquele abuso.

Mas qual não foi minha surpresa, os rapazes também desceram na mesma estação. Vieram andando atrás de nós e o bonitinho continuava a dizer as mesmas barbaridades e ofendendo. Só que... eles agora estavam na minha área, conhecia tudo por ali e já sabia o que fazer. Minha acompanhante perguntava a todo instante o que ai fazer, que atitude tomar, pois precisávamos nos livrar deles.

Deixei que chegassem bem mais perto, diminui os passos. Ela não entendia nada, disse-lhe para não se incomodar que em cinco minutos íamos resolver tudo.



Para quem não conhece o metrô aqui de São Paulo, antes de você sair da catraca ficam ali alguns seguranças, a polícia do metrô, mas estes não iam fazer nada, o que eu precisava era que eles continuassem a me seguir até a saída para a rua.

Foi o que aconteceu, pensavam estar ainda donos da situação e queriam me insultar um pouco mais. Tudo bem, agora eu estava mais tranqüilo, sabia como agir e não reagir.

Saí do metrô e bem em frente tem uma cabine da polícia militar. Eu caminhei direto pra ela. Lá estava um senhor moreno de mais ou menos 1.90m de altura e o mesmo de largura, fui logo pedindo a este policial que detivesse aquele rapaz antes que fugisse. Ele foi e pediu para que os rapazes o acompanhassem, assim o fizeram, só que quando entraram na cabine eu disse:

-Não senhor policial, não todos eles, é só aquele gay, o mais bonitinho. - Disse apontando para o engraçadinho, mas o policial resolveu que todos iam permanecer até que tudo se esclarecesse, então perguntou:

-Senhor o que aconteceu?  - Eu então muito controlado comecei a contar:

-Entramos no metrô na estação Sé e logo depois, na estação Liberdade, este rapaz (apontando para o engraçadinho) entrou e começou a me assediar. Eu no começo não entendi nada, ele não deve ter reparado que eu estava acompanhando, pois minha namorada estava sentada e eu de pé. Tudo bem, não me abalou tanto, até que ele começou a falar no meu ouvido, chegando quase a passar a mão aqui na frente da minha perna. Não tenho nada contra homossexuais, cada um tem lá sua opção, eu até respeito, mas é que eu estava acompanhado e essa não é a minha opção, mas ele insistiu tanto que começou a me constranger. Continuou mesmo depois que disse a que estava ali com minha namorada. Ele até pediu para que eu a dispensasse, que ela não saberia me fazer tão feliz quanto ele...

 

Todos os rapazes pararam com olhares assustados, não sabiam o que fazer para defender o companheiro. Ele até tentou se defender, mas o policial mandou que ficasse em silêncio. Alguns deles desviavam o olhar, outros apenas olhavam fixo para o agora suposto amigo gay.

Para encerrar, fui logo dizendo que estava com um pouco de pressa e que não apresentaria queixa, que até entendia a atitude impensada do garoto que talvez estivesse se sentindo muito só e quisesse uma companhia masculina para um final de semana.

 Foi aí que dei o golpe final e pedi ao policial:

- Por favor, segure um pouco ele aqui, pelo menos até eu pegar o ônibus. É bom evitar novos constrangimentos, acho que duas horas basta. - E fui saindo rápido dali quando ainda ouvi o policial dizer:

-Deixa comigo, aqui tem horas que é muito solitário, ele vai me fazer companhia por algum tempo, ele sabe, ele sabe fazer...

Agradeci e fui embora...



O (a)ônus da prova não sei, apenas apontei onde estava...

17/04/2006



Caio Lucas
Enviado por Caio Lucas em 18/04/2006
Código do texto: T141096
Classificação de conteúdo: seguro
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Caio Lucas
São Paulo - São Paulo - Brasil, 68 anos
4429 textos (116253 leituras)
1 e-livros (166 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 10/12/16 20:29)
Caio Lucas