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MANECA SURDO E MUDO

As pessoas que ouvem os casos ocorridos em Santo Amaro, sempre exclamam ao ouvirem-nos: – Coisas de Santo Amaro!
Será que casos como este que eu pretendo relatar agora, para os meus prezados leitores só acontecem em Santo Amaro? Claro que não. Eu acredito que o povo é mais ou menos igual em todos os lugares do Brasil ou do mundo; naturalmente que cada um com as suas peculiaridades e tipos característicos, que configuram a tendência de sua gente, a inclinação, a vocação.
“O santo amarense é antes de tudo um artista”. Quer tenha nascido em berço de ouro, ou na mais humilde choupana; quer tenha as faculdades mentais perfeitas quer não, mais tarde ou mais cedo ele vai revelar tendência para uma das artes: cantando, compondo, escrevendo, pintando, esculpindo ou representando. Desde os que atingem as raias da genialidade aos medíocres ou abaixo deles e até os débeis mentais, todos no entanto, mostrando a vocação de seu povo. Se eu quisesse dar exemplos, ou se devesse, certamente que os teria - diversos  -  mas não quero e não devo. Os geniais  que tiveram alguma chance,o mundo os conhece, os demais, nós provincianos os conhecemos.
Eu tenho assistido a alguns filmes ou representações teatrais ,  em  que  artistas  consagrados interpretam  –  alguns com genialidade  –  o surdo-mudo. Um personagem deveras muito difícil, porque o intérprete tem que passar para o público, a indiferença de quem nada ouve e a ânsia e aflição de quem quer se comunicar e não pode falar. E fico a pensar com os meus botões: – Que artista, aquele Maneca, que eu conheci na minha infância! Ele era bem jovem naquela época – paupérrimo e preguiçoso  –  e tinha o desejo de ser funcionário da Prefeitura Municipal, mas não tinha escolaridade  –  lia mal e escrevia ainda pior. Uma pretensão, portanto, sem nenhuma perspectiva.
Maneca andava pensativo... preocupado... Trabalho braçal, nem pensar. Não tinha físico, nem disposição para trabalhos pesados. Na realidade ele não queria trabalhar, ele queria ganhar algum dinheiro, sem trabalhar e sem roubar; ele não era um ladrão, ele era simplesmente um preguiçoso que precisava sobreviver.
Jovem ainda, sadio, bem afeiçoado, Maneca  não tinha as ferramentas  indispensáveis a quem deseja viver de esmolas  –  idéia que já vinha nascendo sorrateira em sua  cachola.   Relutou, no  entanto,  por  algum   tempo, porque sem ferramentas o fracasso seria iminente. Mas depois de muito pensar, concluiu que este seria o único caminho para quem deseja sobreviver sem maiores esforços.  E em determinada hora de profundo ensimesmamento, aflorou-lhe, de chofre, o dom de representar, acordou naquele momento a alma do artista e com ela acendeu-se-lhe uma idéia:  –  De hoje em diante serei surdo e mudo e as ruas, as praças, as vielas, o céu  aberto, serão o meu anfiteatro e os transeuntes  – a minha platéia.
E assim foi: Cara-de-pau, fez antes alguns ensaios particulares e entrou, determinado, em cena, na luta pela sobrevivência. De sua veia artística dependeria o êxito de sua pretensão.
Foi terrível o início de sua carreira: Aquele rapaz, conhecido de toda a cidade, que até então falava e ouvia normalmente, de uma hora para outra virar surdo e mudo, com completa indiferença aos ruídos e com todos os guinchos e gestos do mudo!  Ninguém acreditava. Em lugar de esmolas, lhe davam tapas e lhe faziam todo tipo de provocação, na esperança de vê-lo acabar com a farsa. Mas em vão todos os ataques da populaça, todos os tapas, todos os xingamentos, todos os desejos de conseguir um gesto ou uma palavra que traísse o aprendiz de surdo-mudo. Maneca estava decidido a ser surdo-mudo e a sobreviver pedindo esmolas.   Levou  tantos   meses,   em Santo Amaro, nessa representação diária, que muitos circunstantes já o acreditavam surdo e mudo e assim as esmolas começaram a render mais, o que o animara a fazer uma pequena tourné, começando por Oliveira dos Campinhos.
Naquele distrito de Pe. Acelino e de José Regadas, a experiência não foi das melhores. Os meninos surpreenderam-no falando sozinho, no recesso do seu cubículo, talvez exercitando a fala para não perdê-la por falta de uso, e não no deixaram mais.  Dizem que um menino é um santo, dois meninos são dois meninos e três meninos  são  três  diabos.  Vamos imaginar uma dúzia de meninos apoquentando a paciência do pobre Maneca , dia e noite!
 Maneca não falou, Maneca não ouviu, mas Maneca suspendeu a turnê e voltou com as trouxas para Santo Amaro, onde, pelo menos, estava tirando alguns trocados para o seu sustento e onde pretendia continuar a sua representação, não fora a oportunidade inesperada de ressuscitar um velho sonho quase morto  –  o de ser funcionário público municipal. É que o município estava arregimentando homens para completar o seu quadro de garis.
Maneca se viu diante de um grande dilema: continuar na sua peregrinação de surdo-mudo ou realizar o seu velho sonho? Como voltar a falar e ouvir, se todos – quase todos –   já o sabiam surdo-mudo? Entretanto, movido pelo bom senso, sentiu que era chegada a hora de descer o pano àquela cena, a mais longa, talvez, da história teatral. E, cara-de-pau convicto, vestiu-se do melhor farrapo e, à hora aprazada para a contratação, ali estava Maneca, falando e ouvindo como nunca.



Raymundo de Salles Brasil
Enviado por Raymundo de Salles Brasil em 22/04/2006
Código do texto: T143211
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Sobre o autor
Raymundo de Salles Brasil
Salvador - Bahia - Brasil, 83 anos
237 textos (6826 leituras)
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Raymundo de Salles Brasil