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INÍCIO E FIM

INÍCIO E FIM

       Casa simples, adequada às necessidades da família que nela morava, ao centro de um terreno, de área bastante confortável, fazia ao fundo divisa com o cemitério da cidade.
       A família, constituída por um casal de trinta e poucos anos e um menino de aproximadamente seis, era tranqüila e comum. O casal trabalhava fora enquanto que o menino, após as aulas no período matutino, ficava aos cuidados de Joana, a empregada, até que seus pais voltassem, por volta das sete e meia da noite.
      Hugo, o chefe da família, trabalhava numa pequena indústria de móveis, como torneiro.
      Rosa, sua esposa, era estoquista numa loja de confecções masculinas.
      Hugo não poupava esforços para agradar a esposa. Rosa por sua vez, vivia presenteando-o com camisas, meias e lenços. Eram apaixonados.
     A vida seguia sem muitas mudanças e, cada vez mais, o menino Felício ficava aos cuidados de Joana que, muito introvertida, raramente dirigia sua palavra aos patrões, exceto sobre assuntos estritos ao seu serviço.
      Quase dois anos se passaram, Felício começou a visitar diariamente, após o almoço, o terreno do cemitério. Era uma área bastante grande, com muitas novidades e brincadeiras, ainda inéditas para a sua imensa curiosidade infantil. Quando cansava de suas estripulias, deitava-se sobre a lápide de uma sepultura, à sombra de uma velha mangueira onde, por muitas vezes, lia os livros, indicados pela professora ou mesmo fazia seus deveres de casa.
       No início, Joana sofreu muito com as fugas do menino. Sem saber do seu paradeiro, demorava a encontrá-lo, devido as grandes dimensões do terreno do cemitério. Porém, com as repetidas fugas, acabou por entender que não havia perigo, isso porque, além dos coveiros, um senhor de setenta e poucos anos, morador e vigia do local, afeiçoados ao Felício, cuidavam dele por todo o tempo. Aliás, esse senhor, o seu Pacífico, ficava por horas conversando com o menino. Contava-lhe estórias e ensinava-o a executar pequenos trabalhos manuais, os quais, inevitavelmente terminavam por se transformar em imprevistos brinquedos.
       Os calendários foram perdendo suas folhas e algumas coisas mudaram na vida de Felício. Porém, não só a Joana como também o seu Pacífico, souberam acompanha-lo e orientá-lo.
      Próximo dos treze anos, o então adolescente, não tinha mais atração pelos trabalhos manuais, ainda mais pela dificuldade do seu Pacífico em executá-los, aos oitenta e um anos.
     Muito menos, deixava levar-se pelas guloseimas que Joana preparava.
     Um novo mundo abria-se na sua frente e queria desvendá-lo. Por isso, Felício conversava ainda mais com seu Pacífico, que não cansava de dar-lhe atenção. Os assuntos eram os mais diversos, desde as curiosidades da transformação física, até as possíveis atividades que lhe dariam a condição de uma vida independente. Naquele momento, dois fins estiveram muito próximos: o da infância de Felício e o da existência do seu Pacífico.
     Como tudo nesta vida, depois de os calendários perderem mais umas poucas folhas, aconteceu o inevitável. O último diálogo entre eles concretizou-se e trouxe muitas novidades para o íntimo de Felício. Mexeu com sua razão de vida e conscientizou-o de que também não era eterno. Mas, além disso, mostrou-lhe que era um homem independente e óbvio, capaz de dar rumos a sua própria existência.
       No enterro do seu Pacífico, ante a perplexidade de Hugo e Rosa, Joana e Felício choravam copiosamente. Seus soluços foram uma verdadeira novidade para aquele casal tão unido, carinhoso e que jamais deixou que o amor lhes faltasse. Por essa razão, em seus peitos palpitavam dois corações insensíveis ao sofrimento de quem quer que seja. Não por maldade ou irreverência, mas porque jamais haviam olhado em volta de si mesmos, tornando-se omissos às suas responsabilidades e ausentes para com seu próprio filho.
       Quando voltavam para casa, Hugo e Rosa estavam, pela primeira vez, discutindo. Um queria jogar sobre os ombros do outro, uma culpa que nenhum queria assumir.
       Chegando em casa, sentaram no sofá da sala e continuaram a discutir.
       Ao perceberem Joana sentada em uma das cadeiras junto à mesa de jantar,  com a cabeça apoiada nos braços cruzados
sobre a mesa, ainda chorando, questionaram-na: O que foi agora, Joana? - Já não chorou o suficiente pela morte do seu Pacífico? - Afinal de contas já era um homem bastante velho!
      Pela primeira vez, tanto o Hugo como a Rosa, estavam preocupados com um fato não relacionado, diretamente com eles.
      Muito emocionada e tremendo, Joana com um movimento lento estendeu o seu braço direito e passou às mãos de Rosa, uma folha de caderno mal tratada e até um pouco amarrotada. Depois de lê-la, também Rosa entrou em prantos, soluçando copiosamente.
      Hugo, num movimento instintivo e rápido, retirou o papel das mãos de sua esposa e pôs-se a lê-lo: - “Hugo e Rosa, desculpem se lhes chamo pelo nome, é um defeito que tenho desde criança. Nunca soube esconder  meus verdadeiros sentimentos e expressa-los na íntegra, tornou-se uma das minhas características. Vivi alguns anos de minha vida na casa de vocês, mas não me é possível negar que jamais estive com vocês. Quero agradecer-lhes por tudo que fizeram para que nada, de material, me faltasse...
       Estive durante todo esse tempo, muito próximo de dois grandes amigos: Um que conduziu minhas necessidades materiais, higiênicas, educacionais e manteve-se com suas mãos sempre estendidas e prontas para abraçar-me ou acariciar-me nas horas de solidão, carências e incertezas.
      O outro, foi quem com seu dedo em riste chamou-me a atenção nas horas em que precisei ou ainda indicou-me o caminho que deveria seguir. - Além disso, soube com maestria e experiência mostrar-me ser criança quando o era, depois adolescente e finalmente um homem preparado para enfrentar a incertezas da vida.
      A bem da verdade nada me faltou, sou uma pessoa feliz e que saberá buscar com consciência, honestidade e perseverança, a vitória nesse mundo tumultuado e imprevisível.
      Enfrentarei com galhardia os percalços e transporei todos os eventuais obstáculos, com a tranqüilidade daqueles que devidamente instruídos, sabem como supera-los.
      Assim, agradeço a vocês por colocarem à minha disposição, tudo que necessitei, principalmente a indispensável atenção.”
      “Mamãe Joana, jamais te deixarei sem notícias, sobre minhas andanças pelo mundo imprevisível”.
      “Peço-lhe o favor de colocar uma flor, todos os anos, na sepultura de meu pai. Jamais poderei agradece-lo ou recompensa-lo. Encheu-me de orgulho, confiança e ainda colocou em minhas costas, um par de asas com a medida certa, para que eu pudesse voar com as minhas imaginações. Por isso, tenho hoje a consciência de que sem vocês, não chegaria a lugar nenhum. Amo-os demais e seus nomes, já estão gravados no meu consciente e subconsciente, correm também pelo meu sangue e a cada poucos minutos, passam por dentro do meu coração, mostrando-me a verdade do verbo amar”.
       Hoje, eu, um Zé ninguém, coveiro aposentado, substituto do seu Pacífico, posso afirmar que: Tanto o início como o fim da vida, estiveram por alguns ricos anos, sobre a lápide de mármore daquela sepultura, sob a frondosa mangueira. O início representado pelo Felício e o fim pelo seu Pacífico, sempre juntos e acompanhados pela materna atenção de Joana, uma mulher meiga, educada e esmerada na forma de tratar o menino. Eles são os atores responsáveis por esse fato real. As provas concretas de que o amor não foi feito para guardar-se, muito menos entre duas pessoas apenas, mas certamente para oferecer-se, com dignidade, a tantos quantos dele necessite.
       Que num futuro próximo a humanidade possa encontrar seu caminho entre o amor, a paz e a dignidade, fazendo uso da dedicação, respeito e honestidade, sem restrições.
 
Condorcet Aranha
Enviado por Condorcet Aranha em 23/04/2006
Código do texto: T143933

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Sobre o autor
Condorcet Aranha
Joinville - Santa Catarina - Brasil, 76 anos
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