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SEM PRECONCEITO

SEM PRECONCEITO
                       
         Passeava solitário, numa tarde de verão, pelos caminhos de uma praça, não lembro qual e nem onde, apenas fugindo do intenso calor. Ao passar por um dos bancos existentes na praça, chamou-me a atenção um casal de idosos, sentado e olhando perdidamente para o nada. Ele muito louro, de olhos claros e ela, que tinha suas mãos sempre afagadas pelas dele, bastante negra, mas de feições finas.
o casal, quase que numa só voz e o senhor louro, completou: ao menos o calor, a dor e o amor podem ser sentidos igualmente por nós, apesar de nossas diferentes origens, não é? - Com um leve sorriso nos lábios o nissei confirma: Tens razão senhor. - Essas palavras se tornariam apenas a introdução de um bate-papo mais prolongado.
      Coloquei-me, a uma pequena distância, para escutar aquela conversa que começava a me atrair, ainda mais.
      Em resumo, foi esse o bate-papo: - O senhor continuou: Há muitos anos eu conheci minha esposa, naquela época, um pouco receosa, ela se chegou, insegura, temendo a diferença de nossas cores e fez-me uma pergunta qualquer... Não lembro mais! Como sempre fui atencioso com as pessoas, mantive minha conduta e lhe prestei as informações desejadas. Ela agradeceu-me e retirou-se em direção idêntica à que eu ia, rumo ao meu trabalho. Essa coincidência prolongou nossa conversa e outros assuntos vieram à pauta.

     Ela interfere e diz ao nissei: Olha, realmente não formávamos um par como aqueles dos contos de fadas, destoávamos bastante em nossas aparências. – O nissei interrompe e adiciona uma impressão de momento: Parece-me que vocês se dão muito bem! – O senhor volta à conversa e diz: Nossa vida em comum tem sido sempre com muita união e compreensão. Chegamos mesmo a ser referência na comunidade em que vivemos e hoje, onde quer que estejamos, muitos vêem em nós a solução para alguns de seus problemas.
    Ela soma: Também passaram a exteriorizar seus complexos, temores e sentimentos, sem muitas reservas. Enfim, usam-nos, como espelho, em muitas das suas decisões.
      O nissei pergunta: Mas até hoje ainda é assim? – Bem, com o passar dos tempos muitas barreiras já foram vencidas pela sociedade. - O senhor continua: Também na política, na literatura e até mesmo no seio das famílias, que gradativamente aderiram aos novos hábitos e costumes, impulsionados pelo desenvolvimento da própria tecnologia e a marcha incontida do progresso, vão sendo amainados - Diz ela: Dessa forma, a grande importância que era dada à nossa união e aparência heterogênea, deixou de ser tratada como uma simples aberração, tornando-se em verdade, um fato histórico. - Segue o senhor: Olhe, sem intenções de promover a mim ou à minha companheira, mas por tudo que já passamos, como incompreensões, críticas e até uso indevido, foi tão contundente que pelo pouco que somos lembrados, apesar de estarmos sempre presentes, não podemos ficar plenamente felizes. - Ela completa: Tudo bem! Não faz mal, a certeza de nosso entendimento nos mantém inseparáveis e, seja qual for a situação em que nos encontremos, continuaremos suportando as pressões e transmitindo a quem interessar, os sentimentos demonstrados até por aqueles que nos tenham pressionado. - Continua o senhor: Hoje são poucos os porta-vozes da verdade porque, a ambição e os interesses, por vezes até escusos, não só venceram preconceitos como também, o que é lamentável, a própria razão. Posso afirmar que a força e a grandeza de nossa afinidade, união e intimidade são tão significativas que se separados, pouco significaríamos para a sociedade. - Ela expressa: Quebrar preconceitos é mudar o rumo da vida e isso, sem dúvida, muitas vezes conseguimos. - O senhor quase finalizando o diálogo diz: Se nesse momento eu lhe dissesse o meu nome, com certeza saberias o nome de minha companheira e talvez, pensasse que estamos nos promovendo. - Ela tenta finalizar: Porém não é isso que buscamos porque de nossa união surgiram vários filhos, brancos, negros, pardos... O nissei intervem: Mas isso não é um mal! Parece-me até honroso serem tão úteis à sociedade! – Ela completa: Até seria se eles pudessem sempre estampar a verdade e rejeitar as injúrias e os fatos desonestos que realizam utilizando-se de todos nós...   -   O senhor prossegue: Apesar dos nossos filhos serem tratados melhor, levarem uma vida mais agradável, como nós, não têm nenhum direito de expressão, são eternos escravos das vontades alheias... - Ela continua: Fica evidente por tudo que até aqui conversamos que as aparências jamais poderão ser previamente responsabilizadas por possíveis divergências. - Indaga o nissei: Agora me digam, depois desse diálogo tão interessante que acabamos de ter, quem são vocês? –Diz o senhor: Eu sou o papel... - Responde a mulher: Eu sou a grafite.
 
































Condorcet Aranha
Enviado por Condorcet Aranha em 23/04/2006
Código do texto: T143963

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Sobre o autor
Condorcet Aranha
Joinville - Santa Catarina - Brasil, 76 anos
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