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UM DIA NO SUPERMERCADO

UM DIA NO SUPERMERCADO

Cristina era uma psicóloga conceituada em sua cidade, possuía dois empregos, um no hospital de doentes mentais, que trabalhava no período da manhã até 14:00 horas e outro em seu consultório que começava geralmente as 16:00 horas até 20:00 horas, todos os dias. Desde de criança sabia que seguiria esta profissão, fora criada num sítio perto de um hospital de doentes mentais as suas tardes eram passadas neste local. Adorava ver os doentes e conversar com eles, todos a admiravam porque ela dava atenção a todos. Quando cresceu prestou vestibular para psicologia, advocacia e letras, passou em todos. Começou a cursar todos, na manhã estava na faculdade de advocacia, a tarde ia correndo para assistir ao curso de psicologia fazia um lanche e se dirigia rapidamente para o curso de letras, aos poucos foi abandonando os curso, afinal isto era coisa de doido e ela não seria um, queria apenas cuidar de um. Então abandonou primeiro advocacia e mais tarde letras, cursou apenas psicologia. Na sua formatura foi uma festa, todos estavam orgulhados de vê-la formando.

O tempo foi passando e Cristina tornou-se a referencia em tratamento psicológico hospitalar, estava trabalhando a mais de 15 anos no mesmo hospital desde a sua formatura, o tempo foi passando, sua vida continuava a ser casa, hospital, consultório e casa novamente. Nunca tinha tempo pra nada, o stress começou a atacá-la, a sua memória começou a falhar e o medo do surto começou a instalar na sua cabeça. As pessoas que convivem na linha da loucura estão mais sujeitas a surtos psicológicos do que nós simples normais. Como era uma mulher muito bonita casou-se, mas não teve filhos porque como iria arrumar tempo para dar a atenção desejada a uma criança, isto era praticamente impossível.

A idade da loba chegou, e nada mudava na sua vida que era sempre a mesma rotina, a única coisa que acontecia de diferente eram os surtos que continuavam e ficavam mais constantes a todo momento. Começou com surtos de memória, esquecia o carro no estacionamento e voltava para casa de ônibus, esquecia de comer durante o dia, esquecia seu nome às vezes, até que era casada. Mas nunca deixou transparecer no seu dia-a-dia de serviço, pensava: “Como pode uma psicóloga que vive atendendo e escutando pessoas cheias de problemas ter mais problemas que elas, estou aqui para ajudar não para complicar”.

Um dia ao sair do seu consultório, procurou o seu carro por todos os lugares, nas ruas próximas de seu consultório, nos estacionamentos, nas garagens e não havia vestígio do seu veículo, ficou apavorada achando que havia sido roubada, ligou no 190 e chamou a polícia, ao chegar à viatura explicou chorando o que havia acontecido, os policiais colocaram-na dentro da viatura e resolveram dar uma volta pelo quarteirão para poder ver se achavam alguma pista do suposto roubo, eis que ao passar por uma rua perto de seu consultório viram um carro com as características descritas pela sua proprietária, ao chegar mais perto do veículo conferiram a placa com o documento do veículo e viram que se tratava do mesmo veículo, ela imediatamente pediu desculpas aos policias, entrou no carro e foi embora, morta de vergonha.

Mas o acontecimento mais inusitado ainda aconteceria com esta psicóloga. Foi numa tarde de quarta-feira, o supermercado do bairro estava com promoção, isto acontecia sempre neste dia da semana, ela estacionou seu veículo que era um corsa wind, preto de duas portas, enfim um carro popular, trancou e se dirigiu ao supermercado, estava exausta de um dia inteiro de serviço e atendimentos a casais complicados. Esperou que desocupasse um carrinho de supermercado, isto demorou aproximadamente 30 minutos, ao desocupar pegou imediatamente o carrinho e adentrou ao supermercado, o seu carrinho não estava rodando direito estava agarrando e toda hora, ela tinha que dar arranque para que o mesmo continua-se a rolar. Seus braços estavam doendo de tanta força que estava fazendo com o carrinho, trombava com uma pessoa, desviava de outras, isto era constante. Encheu o carrinho com as compras que estavam programadas para serem feitas e dirigiu-se ao caixa, ai foi outra espera todos os caixas estavam lotados esperou com toda calma do mundo, nisto o sono e o cansaço começou a perturbá-la, houve momentos que cochilou de pé, esperando a sua vez, chegou até a babar (coisa terrível). Mas finalmente chegou a sua vez, passou toda a compra, quando foi pagar no cartão, a atendente não conseguia passar o seu cartão, então pode ver porque a fila estava demorando, a atendente estava em treinamento. Então pediu ao fiscal para que passasse seu cartão no balcão de atendimento, nisto teve que enfrentar outra fila de espera, seu corpo já estava entrando em fase de colapso, seu cérebro não mais conseguia pensar, o cansaço instalou de vez em seu corpo. Foi nesta hora quando estava quase desmaiando que o fiscal pegou seu cartão, e perguntou:
- É débito ou crédito?
Normalmente esta pergunta sempre foi difícil dela responder ainda mais no estado em que se encontrava, então disse:
- Não sei, estou morta de cansada e a única coisa que quero é pagar esta maldita conta à vista e ir embora.

Então o fiscal passou o cartão debitou na sua conta e despediu daquela mulher. Ela pegou seu carrinho enguiçado e dirigiu-se ao seu veículo. Colocou toda a compra no porta mala, fechou a porta e levou o carrinho até a entrada do supermercado. Quando voltou para seu carro, quase desmaiando de cansada abriu a porta sem que fosse preciso colocar a chave, olhou para a ignição e percebeu que a chave se encontrava nela, não estava em condições de questionar este fato, ligou o carro e começou a sair do estacionamento do supermercado, foi neste momento que olhou ao retrovisor e viu uma mulher correndo atrás do seu carro abanando a mão, olhou ao redor e viu o guarda também abanando a mão, então num gesto de agradecimento começou a abanar a mão para estas pessoas, pensando: “De onde conheço estas pessoas?”. “Será que o meu carro está pegando fogo?” Olhou ao retrovisor e não viu nenhuma fumaça, então começou a diminuir a velocidade, porque de fato estava acontecendo alguma coisa, agora não mais tinha a mulher e o guarda correndo atrás do seu veículo, havia aproximadamente umas dez pessoas correndo em sua direção. Nisto olhou no banco de passageiro ao seu lado e viu uma bolsa estampada de rosa, que não era sua, olhou a chave e viu um chaveiro de cavalo manga-larga, olhou no banco de trás e viu uma poltrona de bebê, então pensou: “Como posso ter uma poltrona desta se não tenho filhos”, “Caramba, este não é meu carro”. Parou o carro, nisto chegaram às pessoas a mulher estava chorando e gritando:
- Sua doida este é meu carro, o seu carro estava ao lado do meu.
Ela pediu desculpas, falou que estava quase desmaiando quando entrou no carro e não identificou que havia enganado de veículo. Não falou que era uma psicóloga, afinal isto poderia comprometê-la. Voltou com o veículo para o seu lugar, entrou no seu carro, que estava as suas compras e foi embora.

Ao chegar na sua casa, deixou as compras no porta mala, abriu a porta do seu apartamento e desmaiou na cama.
No outro dia, ao ligar a Tv viu que o jornal estava descrevendo o fato, mas nada apareceu dela, então pensou: “Virei celebridade por um dia, mas graças a Deus só eu sei”.

Ricardo Muzafir ..................................27/10/05
Ricardo Muzafir
Enviado por Ricardo Muzafir em 23/04/2006
Código do texto: T144173
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Sobre o autor
Ricardo Muzafir
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil, 48 anos
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