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Galeria de Sonhos Esvoaçantes

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Era uma vez...
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Num país muito distante...uma menina que tinha uma galeria de sonhos. Em cada quadro que pintava com as cores do coração deixava uma mensagem de esperança, perpetuava uma ilusão, um desejo...Era uma menina triste, vivia sózinha num castelo imenso; era um sitio frio e escuro e ela às vezes tinha tanto medo, chamavam-lhe Mundo.

Era tudo tão sombrio nesse grande palácio que ela decidiu colori-lo à sua maneira, foi desenhando e traçando esboços, foi arquitectando novos espaços e novas mentalidades, foi criando bolsas de ar puro numa atmosfera poluída e corrompida pelo progresso. Todos os dias a menina se iludia com mais um sonho esvoaçante, acordava e sorria cada vez que pensava no bom que tudo seria se aquela pequena conjuntura se tornasse real.

Nesses momentos efémeros a pequena prisioneira era feliz.

O seu ser ganhava asas, o coração deixava de chorar baixinho uma solidão cruel e infernal, e ela libertava a sua agonia e a sua frustração.Assim foi vivendo e de menina foi-se transformando em mulher, lenta e naturalmente o corpo foi mudando, ela foi crescendo, mas na sua cabeça nunca perdeu os sonhos de infância, nunca esqueceu como os seus pensamentos cor de rosa eram bem mais perfeitos que a realidade cinzenta.

Continuou sempre a pintar e a sua galeria já era imensa, repleta de cores parecia o arco iris, cada quadro parecia emitir o som das palavras que continha em segredo, cada moldura encerrava uma bela e ambiciosa ilusão, em cada pincél existia a esperança na concretização, em cada guache e em cada pedaço de tinta estava a convicção de que nunca deixaria de pintar os seus sonhos esvoaçantes.

Um dia a menina voltou ao seu recanto e olhou as suas obras, uma por uma, relembrou cada momento, cada quimera, cada sensação e percebeu que ali tinha uma colecção de desencantos porque na verdade poucos tinham sido os sonhos tornados realidade, algo sempre a tinha impedido, apesar de toda a sua persistência e crença, apesar de toda a determinação e espirito de sacrificio.

Chegou à janela do seu castelo ancestral e gritou áquilo que chamavam de Mundo, disse tudo aquilo que sentia...estava revoltada, angustiada e perdida, não conseguia viver sem os seus sonhos.

Olhou em redor e interrogou-se porque seria que todas as pessoas que por ali circulavam tinham uma capa que parecia uma armadura e um escudo. Reflectiu naquilo e só mais tarde compreendeu a razão pela qual sentia uma profunda dor quando era atacada pela Vida.
Ela era diferente, não tinha uma capa que a protegia da crueldade, não tinha um escudo para a defender dos golpes inimigos, não tinha uma armadura para proteger o seu coração. Essa era a razão pela qual era sempre atingida como se fosse uma seta de cupido só que com gosto a fel e com direito a sofrimento. Percebeu que teria de criar uma protecção, mas nunca seria de ferro, de aço ou de chumbo, seria de um outro metal muito mais raro e precioso. Ela tinha uma capa, só que a dela era feita de doces emoções, e era assim que ela iria destruir tudo aquilo que a magoava.

Ela desarmaria e se defenderia utilizando como armas o Amor, a Amizade, a Confiança, a Honestidade, a Sinceridade, o Diálogo. Sabia que seria sempre uma árdua e dura batalha, que sangraria sempre mais do que os demais e mais profundamente. Tinha consciência que tinha de ter mais forte do que todos os outros, tinha de ser uma grande guerreira para defender os valores morais e sociais em que acreditava.

Ela finalmente tinha descoberto que a sua capa era feita de doces recordações, de suaves sonhos que ela tinha tecido e bordado durante toda a sua vida, com a sua ingenuidade, com a sua ambição, com o seu coração, com a sua mente, com a sua não menos cruel VIDA.

E ela seguiu no seu castelo envolvido naquilo a que as pessoas chamavam de mundo, algo que ela não conseguia entender bem, e continuou somando na sua galeria de desencantos, outrora encantos, cada batalha que tinha perdido. Foi-se desgastando em cada ferida que as armas alheias foram deixando, foi morrendo a cada dia com a dor que o desamor lhe provocava, mas foi sobrevivendo...

Sabia que não podia oferecer a felicidade aos outros se eles não a queriam receber, percebeu que a palavra amizade
encerra em si mais do que a maioria das pessoas consegue entender ou é capaz de dar, que o Amor só nasce em alguns corações e que na vida se não forem os sonhos esvoaçantes para nos alegrarem não encontraremos a paz...

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                               FIM
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Sonya
Enviado por Sonya em 01/05/2006
Reeditado em 04/08/2006
Código do texto: T148299
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Sobre a autora
Sonya
Portugal, 34 anos
170 textos (17297 leituras)
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Sonya