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3 segundos

Estava sentado enquanto conseguia finalmente acender meu cigarro. A pedra fundamental estava em minha mão e não parecia tão fundamental assim. O gás estava no final e sua vida útil tinha acabado. Olhei para aquele objeto com calma e visualizei o seu destino. Emporcalhar o mundo. Continuei olhando até conseguir visualizar o primeiro primata conseguindo uma suada fagulha atrás da fricção de duas pedras, das reais e por um minuto todos que ali estavam, devorando seus salgados gordurosos me pareceram extremamente primitivos, com uma ânsia enorme a ser aplacada.

Gente suja, fedida, oleosas, algumas com caspa. Gente de periferia, uma ligeira pausa para um lanche infernal para assim ter forças. É preciso ter forças para encarar um trem até onde moram, longe pra diabo. Aquela altura do dia, convenhamos que fim de expediente não é mole, é infernal. Assim continuei sentado observando aquela gente humilde ingerindo aquelas porcarias. Bebi o café daquele lugar e até que não era tão ruim, se eles não enfiassem açúcar pra compensar a qualidade até que ficaria melhor. Foi o café mais doce que já tomei.

Eu estava em uma mesinha no canto, ligeiramente afastado dos olhares compulsivos que já entravam na espelunca olhando para o balcão. Atrás do vidro sujo imundo os salgados se amontoavam com seu segredo. Sempre há um segredo infernal nos salgados de espeluncas. Nós nunca sabemos há quanto tempo eles foram feitos. Se você tirar o açúcar, o sal e a gordura todo alimento vira isopor, eles dão o gosto aos alimentos. E, amigo, se tem alguma coisa que esses salgados têm, com certeza são o sal e a gordura. Mas percebemos quando ele é velho, a gordura fica rançosa. E indiscutivelmente aqueles ali do balcão, atrás do vidro imundo, eram ranço puro.

Mesmo assim aqueles seres se empanturravam com a gordura. Isso porque a espelunca era a melhor lanchonete em um raio de alguns quarteirões. Sabe qual era o sabor a mais que diferenciava aquilo dos outros “aquilos”? O preço. Devia vender algumas centenas de salgados por dia. E todo dia ficava assim, todos os dias em que eu passava por ali, o que nesse caso eram todos os dias, mesmo! Pelo menos nos últimos cinco anos. Estava sentado ali porque esperava alguém chegar. Enquanto isso permanecia quase que em transe vendo aqueles seres imundos.

Dentre todos os imundos havia uma mulher na mesa da minha frente que não parava de fumar, compulsivamente. Concordava que a área era para fumantes... Haha! Como se aquela espelunca tivesse área para não fumantes. Qualquer um fazia o que quisesse por ali. Ela, por sua vez, exagerava da sua liberdade. Não muito o ambiente parecia nublado com sua contribuição massiva. Sem brincadeira, do momento que me sentei aqui até agora a gorda já dissecou dois maços de cigarro. Filtro amarelo. Não me espantaria se quisesse morrer. Nunca teria coragem para se matar de fato, apenas apertava o passo da caminhada a morte fumando daquele jeito.

Não reparei bem mas todas as mesas estavam cheias, menos a minha e da mulher que comia cigarros. Um rapaz veio e me perguntou “posso sentar aqui?”, não tinha como não deixar e com um movimento ligeiro de cabeça permiti que invadisse meu espaço com suas mãos sujas e negras. Para ver a sujeira em uma mão negra é porque ela tem que estar bem suja, e estava. Ele ingeria um caldo de cana meio sujo e um pastel de forno de queijo. Forno porra nenhuma, aquilo era frito, com certeza. Logo percebi pois o guardanapo que ele usava entre sua imunda mão e o salgado do inferno ficou transparente em dois tempos. Tão rápido que não pude falar “cuidado”, só tive o tempo de pensar.

Olhei descompromissadamente para fora do pardieiro. Não sei como posso explicar isso, mas tente imaginar você sentado dentro de uma caixa com uma das suas paredes abertas, então a caixa é o bar a parede é a porta escancarada deixando todos os imundos entrarem. O meu ângulo de visão ia da interseção da minha linha de visada com cada parede, duas, uma de cada lado. O que nos meus parcos cálculos dava um ângulo que ia dos cento e dez para os centro e trinta graus. Isso tudo para lhe explicar o quanto foi angustiante ver uma das mais belas mulheres que já vi, de relance, na minha vida. Passando em menos de três míseros segundos por toda a angulação que minha visão me permitia. Ela para caçoar de meu estado passou na parte mais breve em que podia. Para quem conseguiu visualizar a situação acima consegue também saber que quanto mais longe do meu olhar mais tempo consigo ver algo cruzando meu ângulo de visada. Ela conseguiu cruzá-lo no pedaço em que me permitia menos tempo de apreciação. Foi angustiante.

Ela saltou de dentro de uma das paredes e com determinados sete passos cruzou e sumiu dentro da parede oposta. Foi aquele tempo para atordoar qualquer um. Se fossem nove ou dez segundos poderia pensar em seguí-la, ou ainda me conscientizar de sua beleza. Ela caçoou de minha condição, com certeza, mesmo não sabendo dela. Ela é esse tipo de mulher que se souber da sua condição caçoa de você. Meu deus como ela era linda. Para os mais sensível eu escrevo deus com a minúscula mesmo, não por desrespeito, mas por total falta de crença nele. E é por esse mesmo motivo que minha consciência não pesa em prol da minha decisão. Não estou abalado com o que farei na próxima hora. De modo algum.

“Ela não vai vir”, de repente me vi olhando para o negro das mãos sujas que estava na minha frente comendo o salgado com gordura. Minha expressão deixava claro que eu não tinha entendido aquilo. “Ela, a que você está esperando, não vai vir” na metade da frase eu já me perguntava como que aquele negro poderia saber que eu esperava alguém, que esse alguém era do sexo feminino e como que ela não iria vir.

“E como que você seu negro estúpido sabe que eu EStou esPERANDO alguÉM e ESSE alguÉM É UMA MULHER E COMO VOCÊ PODE SABER QUE ELA NÃO VEM?”

Acho que ao terminar de vociferar toda a minha angústia interna naquele pobre ser algumas percepções eram visíveis. Ele estava completamente branco. Metade das pessoas da espelunca olhava para mim espantada, a outra me ignorava como se aquilo acontecesse diariamente, um mero trovejar em dia de nuvens negras. E eu tinha perdido completamente a compostura.

“Você está com um buquê de flores do seu lado, no cartão dele, que está esparramado na mesa diz Clarice e se você não percebeu sua carteira está aberta, esparramada também na mesa, tive que afastá para me sentar, e por acaso tem uma foto de uma moça nela. Acho que é a Clarice do buquê.”

Realmente se eu estivesse lendo isso acharia que aquilo tudo tinha sido obra da mente mais insólita do escritor mais voraz por surpreender leitores. Mas ele me surpreendia com a clareza de seu pensamento e raciocínio e tive automaticamente uma simpatia por ele. Mas nada disso realmente importava, acho que pelo fato da voz dele ter saído tão macia, depois da minha torrente de grosseria. Sim, tinha simpatizado com essa paciência dele. Quase que uma paciência com alguém que acaba de perder um ente querido. Aquela compreensão que temos da dor do próximo e passamos a ignorar toda a grosseria vindo dela.

“E como você pode sequer saber que ela não virá?” proferi com muito mais cuidado a pergunta já que ele tinha se mostrado centrado em sua colocação. “Eu a vi e ela, te garanto não tem condições de vir pra cá. Ela foi atropelada. Uma moto pegou ela e ela bateu com a cabeça no chão. Tava sendo mandada pro hospital. Só a reconheci porque fui eu que ajudei isolar a área. Aposto que ela ta atrasada”

O negão era sagaz mesmo, tenho que concordar. Meu estômago estava mais que gelado e tinha um peso extra de uns quarenta quilos. Não resisti muito tempo e pela cara do negão eu fiquei mais branco do que já era antes de me virar para o lixo e vomitar tudo que tinha bebido. Logicamente as pessoas que estava perto imediatamente se levantaram. Mandei mais umas duas golfadas na lata de alumínio revestida de plástico negro, como que botando pra fora tudo que tinha, tinha muito mais, mas ficara guardado. Ele veio amparar-me.

Levantei cambaleando me senti bem outra vez, ouvi vozes reclamando, ouvi vozes de ajuda, o negão tentando me pegar, eu fui saindo da loja consegui pronunciar “ar fresco” para enganar os idiotas, o negão não era tão sagaz assim. Assim que dei um passo para fora da espelunca maldita duas coisas se passaram pela minha mente, instantaneamente 1) olha a mulher mais linda do mundo ali no ponto de ônibus! 2) corre maldito!

Quando dei por mim estava muito longe da merda da lanchonete mais merda do universo. Ouvia ao longe algumas coisas “sua carteira!”, “ele vai cair”, “coitado”, “me da um salgado com um caldo”.

Metade dos meus problemas estavam resolvidos com a não vinda dela.

Corri até cansar e resolvi andar até o meu destino. Lógico que não valia a pena correr, tinha todo o tempo do mundo, para quem não está querendo aquilo nada significa. Minha mente vagava no acidente. Como ela estaria, em qual hospital, alguém avisara a família? Parei a primeira pessoa na rua e pedi um celular emprestado, ela recusou, a décima segunda me emprestou, disquei um numero a cobrar pro atendente. Atenderam “alo? Não importa quem ta falando gostaria de avisar que a Clarice foi atropelada... ... .... não, isso não é um trote. ELA REALMENTE FOI ATROPELADA” desliguei a droga do celular. “obrigado” e continuei andando. Faltava pouco e a passarela que cortava aquela mega avenida estava entulhada de vendedores, só lamentei que minha essência desapareceria ali no meio de canivetes, canetas, guarda chuvas, descascadores de legumes, pilhas, lentes de aumento, coisas sem nenhum sentido milimetricamente agrupadas, só lamentei que a última visão que teria seria da avenida, dos carros. Subi calmamente no corrimão de proteção. Vi pela ultima vez as nuvens, a fumaça dos carros naquela hora era a mesma coisa. Fiz certa força para frente e deixei que para a gravidade seu trabalho, lindo esse som da buzina.
leandroDiniz
Enviado por leandroDiniz em 04/05/2006
Código do texto: T150382
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Sobre o autor
leandroDiniz
Niterói - Rio de Janeiro - Brasil, 34 anos
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