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Ele desenhava cidades.


Era um amor louco, de muito longe, longo, apaixonante a tal ponto que constituía a sua obsessão, era uma atracção que vinha do fundo dos tempos, dos seus tempos e desde que se conhecia que o fazia, de certa forma para tentar extravasar o impulso por si sentido, a força que o empurrava nesse sentido.
Para ele as urbes eram um sonho impossível, um hino a tudo quanto era belo, grandioso ou o deveria ser, o máximo exemplo das notáveis realizações humanos, muito mais do que a Muralha da China (a única construção humana que se via do espaço) ou então das tentativas dos humanos dominarem ou beliscarem esse espaço, tentativas na forma de naves, telescópios ou da incipiente estação orbital.
E no entanto, no entanto ele vivia numa cidade pequena, algo subdesenvolvida, algo limitada pelos políticos, empresários e próprios habitantes, uma cidade com prédios de estatura mediana, que ele olhava e imaginava muito mais altos; aliás, um dos seus passatempos era passar pelas poucas avenidas da sua terra e olhar para as construções mais altas imaginando-as muito, imensas vezes maiores, tão que até o próprio sol não se veria dos passeios, tornando-os mais escuros, provavelmente mais perigosas, mas devolvendo uma beleza esmagadora a essas avenidas, ou pelo menos era isso que ele pensava e sentia…
Mas a partir de uma determinada altura já não lhe bastava imaginar, era preciso mais, muito mais. Chegou a equacionar a hipótese de viajar até à América e aos seus grandes prédios e cidades a perder de vista…Mas ele não gostava desse país, preferia a calma e tranquilidade do seu canto e, além do mais achava esses prédios algo limitados, algo ainda pequenos para a sua enorme ambição visual, e por isso decidiu agir na medida das suas parcas capacidades: começou a desenhar grandes cidades com prédios dum tamanho absurdo que ele sabia um dia irem existir, num futuro sempre demasiado longe de si, mas nunca no seu tempo, inundando a sua casa com essas imagens fantásticas, imagens impossíveis, e desenhou como um possesso, para dar vazão à sua vontade indomável de imaginar a utopia; mas…ao fim de algum tempo deu consigo insatisfeito: ele não era muito dado ao desenho manual e por isso ficou desiludido com aquilo que fazia, pois achava que tal estava demasiado aquém do efeito pretendido e por isso decidiu novamente agir, tirando um desses cursos de desenho computorizado descobrindo então ter um pequeno dom nessa área. Foi o início de uma longa saga que ainda hoje existe, uma saga de cidades e edifícios algo tecnicamente impossíveis mas possíveis nessa sua ambição pelas dimensões abissais que tinham; e quanto mais desenhava, maiores e mais altos ficavam as cidades e os prédios, finalmente atingindo a amplitude fantástica que tanto sonhava.
Ele desenhava cidades

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Miguel Patrício Gomes
Enviado por Miguel Patrício Gomes em 08/05/2006
Código do texto: T152627
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Miguel Patrício Gomes
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