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OS BRUTOS TAMBÉM SE AMAM

As árvores , os arvoredos, os cipós, caiam  aos golpes bem afiados dos machados, das foices e dos facões empunhados por picadeiros  –  homens fortes, ignorantes e afeitos àquele trabalho duro. Os topógrafos aparelhados com teodolitos, níveis e miras-falantes, lideravam as equipes e marcavam veredas e por elas adentravam-se, levados pela coragem e pelo dever de ofício, mais pelo dever de ofício, apesar de que sabemos, todo jovem tem a coragem no sangue novo e estuante.
A caminhada era longa e o retorno aos lares  –  imprevisível.
Depois de cada dia de trabalho árduo, fazendo todas as peripécias, usando todos os recursos: desde a inteligência, para arquitetar saídas, muitas vezes, aparentemente herméticas, até a força e destreza próprias da juventude, para, ao defrontarem-se  obstáculos, escalar escarpas, as mais ásperas, atravessar riachos sobre pinguelas improvisadas, tentar desvencilhar-se, sem sucesso, das moscas e dos pernilongos e, às vezes, completamente amedrontados com a presença próxima de onças, cobras venenosas e jacarés, a noite vinha chegando e quase  à  exaustão,  aqueles heróis reuniam ainda forças para abrirem  clareiras em plena mata, acender fogueiras para  afugentar animais e atrair mosquitos, fogareiros para preparar a xepa, que era degustada com o tempero da fome e armar barracas e redes para um repouso sobressaltado até às quatro horas da madrugada, quando recomeçavam os preparativos para o novo dia de refrega.
E, assim, aqueles dias repetiam-se por meses e meses. Os picadeiros que compunham as equipes topográficas, aqueles homens brutos que abririam frestas pela mata a dentro e que não se conheciam quando os trabalhos começaram, já eram, pela convivência, íntimos, e cada um tinha um nome de guerra  -  os mais esdrúxulos: Focinho de Porco, Cara de Bunda, Bigode de Arame, Bufa de Jegue, etc., etc. Assim eles se tratavam, normalmente, e o faziam, de certa forma, com carinho e afeto. O convívio fizera deles amigos e companheiros – um por todos e todos por um – e aqueles apelidos já eram nomes, nomes próprios, até porque dos próprios nomes, nem se lembravam mais - é o que parecia.
Aqueles bravos companheiros estavam dispostos a tudo, na luta desbravadora, para abrir caminhos novos para a prospecção do ouro negro. Enfrentavam aspérrimas jornadas e transpunham obstáculos os mais difíceis; não mediam  o  trabalho  pelo  tempo, pelas horas, mediam-no pelos quilômetros, pelas léguas, pelas milhas, porque as caminhadas percorridas, as picadas abertas, eram elas que lhes davam esperanças de um retorno feliz aos lares e a sensação plena do dever cumprido.
Nas  poucas  oras  de  descanso,  às  vezes,  batia  profundamente ,  a  tristeza ,  no  coração  daqueles, aparentemente, brutos: era a saudade carpindo... sorrateira... “a nega véia... os inchadinhos... o chão natal...”.
Porém, chegada a hora do retorno à faina, o bruto espanava os seus cismares, empunhava a ferramenta e lançava-se ao trabalho com toda força de um Hércules. As veredas abertas eram, no seu entender, o caminho de casa. E os paus gemiam aos golpes da ferramenta e tombavam, para sempre, no solo virgem.
– Vamos lá, Cara de Bunda! Daqui a um mês nós vai sair deste inferno.
– Se Deus quiser, Focinho de Porco, nós chega lá. A nega véia tá com o olho no caminho. Bigode de Arame encharcou aquele bigode onte de lágrima – chorou escondido.
– Quem não chora? Às vezes me bate uma saudade desgraçada dos meus bacorinhos - disse Tripé.
– Véio, tô doido pra chegar em casa, não agüento mais – disse Bufa de Jegue.
A conversa ia junto com a faina – era a última picada. A vontade de concluir aquela tarefa, a ânsia de chegar em casa, parecia que dava mais fôlego àqueles brutos e o trabalho, mais do que nunca, rendia. No entanto, naquele instante ouviu-se um jequitibá que tombava;  ouviu-se,  quase  que  concomitantemente,  um  grito; todos acorreram para o local; era Cara de Bunda com  as  pernas  presas  sob  o  gigante  que  tombou. Todo trabalho foi suspenso – todos por um; e a duras penas, conseguiram tirar o homem com as pernas esmagadas debaixo do jequitibá.
Padiola improvisada, alguns voluntários e Cara de Bunda foi levado para o povoado mais próximo e daí para um hospital, que depois de socorrê-lo devidamente o transportou, numa ambulância da Petrobrás, para o seu lar modesto numa cidadezinha do interior do Maranhão.
Os trabalhos de abertura de picada e conseqüentes levantamentos plani-altimétricos daquelas gigantescas áreas, já estavam sendo concluídos; já se via no brilho dos olhos daqueles heróis, a luz que vinha do fim do túnel. Literalmente falando - da picada.
Focinho de Porco tirou um papel do bolso e leu, quase que soletrando, o endereço que Cara de Bunda lhe dera ainda no hospital:
Cara de Bunda
Rua...
Vou visitar aquele filho da mãe, assim que sair de folga. Bom companheiro! Foi pena que não ficou com a gente até o fim.
Poucos dias mais e os levantamentos já estavam concluídos e à saída da picada estavam lá, à espera, caminhões, caminhonetes  e  jeeps  da  Petrobrás  para  o transporte dos equipamentos e do pessoal.  Rumaram, como de praxe, ao bar mais próximo, da cidadezinha mais próxima, para as “bebemorações” de mais uma etapa árdua concluída. E daí partiram, cada um em busca de matar sua saudade.
Focinho de Porco, como prometera, logo depois de botar a escrita em dia com sua nêga véia e matar a saudade com os seus inchadinhos, pegou um pau-de-arara e, de endereço em punho, foi visitar o seu amigo de fé e companheiro, Cara de Bunda.
Localizada a casa, Focinho de Porco bateu à porta. Viera lhe atender, uma senhora que parecia ser a dona da casa:
– Bom dia, meu senhor, o que o senhor deseja?
– Aqui é a casa de Cara de Bunda?
É, meu senhor – respondera-lhe a mulher com enfado – e o senhor deve ser Focinho de Porco. – Sou. Como a senhora  sabe?  –  É  que  Júlio,  meu  marido,  desna  que chegou, só atende por Cara de Bunda e só fala em Focinho de Porco, Bigode de Arame, Tripé, Bufa de Jegue... e o senhor, pela cara, deve ser Focinho de Porco.
      – Cara de Bunda! – gritou a mulher – Focinho de Porco está aqui!
   – Mande esse filho da mãe entrar! E ao se defrontarem, abraçaram-se convulsivamente e  comoveram-se  até  às lágrimas, numa demonstração inequívoca de que os brutos também se amam.

Raymundo de Salles Brasil
Enviado por Raymundo de Salles Brasil em 09/05/2006
Código do texto: T153258
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Sobre o autor
Raymundo de Salles Brasil
Salvador - Bahia - Brasil, 83 anos
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Raymundo de Salles Brasil