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Inofensiva Omissão

      Imóvel. Colados ao chão estavam os pés e, desobedientes aos comandos, assim permaneciam até que o viscoso sangue escuro contornasse a sola. Confuso se a demência cotidiana transformava a cena em tragédia ou em reprovação passageira, acompanhei o sinuoso deslize de vida. Ouvia a música cada vez mais alta, em alternados acordes crus e agudos latejantes, repetindo o refrão com olhos inundados. Não havia carros ou pedestres testemunhando a imundície que vertia da situação. Nem mesmo os indigentes filósofos, acompanhados de cães sarnentos, porém fiéis, nasciam dos esconderijos sombrios.

      Solitário na ocasião imaginei se a chuva torrencial limparia a alma pálida. Decidi não pedir muito já que nem mesmo o asfalto sujo merecia cuidado. Mas a ilusão que a liberdade momentânea alimentava, me fazia rezar pelo fim da fraqueza. Ajoelhado nas poças confusas mordi o lábio inferior, maquiando a face assustada. Seria o começo de algo sem fim ou o fim de algo que nem começara?

      Analisava o cenário com visão minuciosa na tentativa de organizar o acontecimento. Imaginava seqüências cinematográficas filmadas em quarteirões hostis, desespero dos civis rastreando abrigos para seus corpos cansados, pneus rasgando o chão e libertando o fétido aroma das borrachas negras. Percebi um sorriso tímido manifestado pelos meus lábios e escolhi o silêncio. Adorava interromper pensamentos e deixar que a mente esvaziasse as últimas opiniões em forma de falas mudas. Do contrário, acreditava que a confusão mental nos guiaria para ações escatológicas, abarrotadas de frieza e temperadas com raiva. Tarde demais.

      Coloquei-me ereto e encarei os raios luminosos que dançavam desordenados a minha volta. Cada vez mais distante do beco azedo aceitei a paz empurrada contra o peito. Não precisei caminhar ou correr em direção às luzes, nem mesmo proteger os olhos para a claridade pontiaguda. O evidente conforto, sustentado pelo sentimento alvedrio, agarrava meu pulso e rabiscava os passos.

      Poderia finalmente caminhar sem olhar pra trás. Mas precisava, uma última vez, fotografar nas pupilas estreitas o que ficaria esquecido. Aceitei a imagem de meu corpo ensopado perto do latão de lixo e dei o último passo...

      ... Torcendo para que nunca perguntassem como havia me matado.
 




Felipe Valério
Enviado por Felipe Valério em 11/05/2006
Reeditado em 12/04/2007
Código do texto: T154286

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Sobre o autor
Felipe Valério
São Paulo - São Paulo - Brasil, 37 anos
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Felipe Valério