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Ele era sinistro

Desde sempre, desde muito pequeno, talvez demasiado pequeno.
Desde criança, que numa altura em que as outras brincavam e passeavam na inocência da idade, Ele também brincava, mas brincava ao poder, não como mais um exercício de uma personalidade em formação, mas sim como uma personalidade formada, cujo sonho era dominar quem quer que o rodeasse. Mas Ele não queria ser o típico líder que apaixonasse as massas com a sua oratória ou com a firmeza de decisões em momentos difíceis, ou o populismo das alturas das vacas gordas. Não, Ele sonhava em ser o homem da sombra por detrás do líder, o homem que manobrava sem que ninguém desse por isso, o homem que condicionava destinos consoante os seus dúbios princípios, que obedeciam apenas à vontade de uma personalidade voraz, voraz pelo poder, não um poder que lhe trouxesse benefícios económicos ou ideológicos, apenas o poder pelo simples exercício do poder, por saber que todos o temeriam, que ao pronunciar-se o seu nome em surdina todos se calariam e não se pronunciariam sobre Ele, pois temiam que Ele soubesse e os penalizasse, pois Ele deveria ser intocável, Ele deveria estar em todo o lado, sabendo tudo de todos.
Em casa, cedo se apercebeu das divergências dos pais, explorando estas de tal maneira que conseguia sempre o que queria. Mestre da intriga emocional e não tendo absolutamente nenhuns escrúpulos em aproveitar as debilidades de um casamento em eterna crise, explorava emocionalmente o papel de filho único que cada um dos pais queria agradar para não o perder…
Durante os jogos típicos da infância Ele criou algumas derivações pouco comuns e algo tortuosas para alguém da sua idade : nos jogos de Cow Boys Ele ficava em cima de uma árvore a vigiar e a ajudar os diferentes campos com os quais simpatizava; claro que os perdedores queriam bater-lhe, mas como se escondia sempre nos ramos mais inacessíveis e só de lá saia quando a fúria desaparecesse, Ele era intocável, e tendo um sexto sentido da desgraça bastante activo, se adivinhava que a raiva ia prolongar-se para o dia seguinte na escola, ficava oportunamente doente uma semana, de tal ordem que quando voltasse ela saudado como o “doentinho” e não como uma eminência parda em gestação. Nos jogos de futebol, novamente num local inacessível aos perdedores, criou a figura do conselheiro das equipas mais fortes, e sabedor das regras do jogo, num jogo que naquela idade tinha poucas regras, Ele conseguia que a sua equipa ganhasse sempre. Por estranho que pareça, nata também tinha uma enorme capacidade de ser ouvido pelas pessoas certas. Na escola, e mais tarde no Liceu, bom aluno e metido para si próprio, nunca queria ser o melhor aluno, nunca queria as atenções centradas em si, queria ser o segundo, o segundo que era temido pelos professores pelos seus extraordinários dotes de oratória, com o qual impunha a sua vontade se achasse que uma matéria não era dada consoante a sua vontade, dado que estudava com cautelosa antecedência as lições que se iriam seguir e fazia a triagem sobre aquilo que gostava e aquilo que pensava dever ser dito nas aulas. Novamente o magnetismo pessoal fazia estragos, e as matérias eram dadas consoante Ele achava, e de certa maneira doutrinava os seus colegas: Um dia houve um professor que farto dele o quis chumbar a uma cadeira…Os resultados foram os piores para si, dado que Ele argumentou perante o director da escola com tal brilhantismo, misturando as piores mentiras com as mais pungentes verdades, emoção com razão, que o professor foi obrigado a retratar-se e em público lhe pedir desculpa, ganhando Ele tal fama que o precedeu por onde quer que fosse: na medida do possível Ele deveria ser deixado em paz e conservado a boa distância…
Na universidade, novamente optou pela sombra, tirando as notas suficientes para lhe dar um bom futuro, mas não para que reparassem Nele mais do que achava aceitável. Não conseguindo resistir ao apelo das praxes e das Associações de Estudantes, era Ele que gizava as praxes, que adaptava o código consoante a sua vontade e que a transformou num instrumento de vingança pessoal para aqueles de quem não gostava, mas na prática não mexia uma palha para isso: havia sempre um fanfarrão que ouvisse as suas palavras sibilas que incitavam à acção, a acção dos outros…Quando achou indicado, escolheu a lista que à priori iria ganhar a presidência, escolhendo um cargo secundário e um líder de boa aparência mas vazio como um balão, fez o que quis deste durante o tempo que entendeu, até que quando acabou o curso, deixou a Associação cheia de bom projectos teóricos, mas pouco mais do que isso…os cofres também iam de mal a pior por se ter metido em projectos megalómanos, mas que serviam apenas para encher o seu ego, safou-se de boa pois todos os tesoureiros tinham sido escolhidos por si a dedo e caído na tremenda asneira de possuir alguns bem pessoais absurdos (quem os terá aconselhado a comprar tal…?) que desviavam a verdade Dele, para os outros, pobres coitados que sempre viram nele um conselheiro amigo e não alguém perigoso…
Quando chegou a altura de trabalhar, achou que tal não o motivava, não que não gostasse de trabalhar, mas achava tal demasiado rotineiro…entediante…Por isso foi para a política fazer carreira, respondendo a quem o interpelava por começar tão tarde, quando os outros “carreiristas” começavam bem cedo, que andara demasiado ocupado a estudar, mas afiançando que desde cedo que simpatizara com aquele partido, só não se manifestando por os pais e a família serem da facção diferente e que lhe poderiam causar problemas se ele assumisse o seu partidarismo (o que era uma rematada e deslavada mentira), sendo que só quando adquiriu a independência económica é que finalmente deu a cara…(outra mentira, recebera uma herança ainda nos tempos da faculdade que lhe permitiam ser perfeitamente autónomo), e depois duma longa conversa com o líder local, conseguiu seduzir este a atribuir-lhe um bom e decisivo cargo, que ninguém contestou, pois foi o próprio presidente (que era adorado por todos) a colocar a sua palavra de honra em como aquele homem era o indicado para o lugar certo.
Como entretanto parecia mal estar solteiro (o partido era muito conservador) e querendo ter os afectos físicos em intimidade sem dar nas vistas, escolheu uma mulher que lhe daria isso e não o questionaria sobre a sua ausência afectiva permanente, os seus silêncios eternos, nos quais gizava as linhas com que cozia a teia do poder. Quando os filhos apareceram, escolheu um como sucessor, encarregou-se da educação e civilidade deste e devotou os restantes dois ao mais gritante ostracismo, colmatados pelo amor duma mãe submissa e por consultas em psiquiatras quase desde o berço.
Enquanto isso, e como Ele pensara, a sua carreira prosperava, passando de personalidade local, a regional, e depois nacional, sempre com a mesma estratégia e tendo já a fama de escolher e derrubar superiores, o que o tornou temível, facto reforçado por nada poderem utilizar contra Ele, dado manter dados comprometedores (que eram poucos, pois ele era muito cuidadoso) em locais inacessíveis. Com o tempo Ele tornou-se perfeitamente indispensável a quem quer que aspirasse a o que quer que fosse no partido, e mais tarde no próprio país. A partir dos trinta anos o cabelo ficara totalmente branco, e a voz grave ainda mais grave e cava, com um timbre perturbante nas raras vezes que falava, e os olhos brilhantes de cor indefinida pouco salientes ficaram ainda mais fundos, ainda mais perturbadores.
Quando finalmente chegou a um cargo suficientemente influenciável para as suas desmesuradas ambições, as políticas da nação e de parte do mundo passaram a sair da sua cabeça. Por uma altura chegou a ponderar em tomar o lugar do Presidente, tinha prestigio e poder para tal, mas não, tinha mais gozo em manobrar consciências, em permanecer na sombra em seu redor, que ficara mais negra com o passar dos tempos. Dono de uma frieza e falta de escrúpulos a tocar na mais pura desumanidade, não hesitava quando em causa estavam o destino de meia dúzia de pessoas ou de milhões.
Finalmente surgiu uma crise à altura de todo o seu poder, chegara a crise de sonho em que tudo aquilo que angariara se iria revelar na total plenitude dos seus sinistros desígnios. A Nação fora atacada, fruto das constantes ingerências pelo planeta fora, parte significativa das quais era Ele o responsável, alguém se fartou e atacou…Havia que reagir, de maneira brutal e inequívoca. O presidente fraco e cheio de escrúpulos e medos hesitava se deveria usar a Bomba, pois o que quer que decidisse iria alterar a história do mundo, milhões iriam viver ou morrer, e era Ele a decidir.
Chegara por fim o momento pelo qual esperara uma vida inteira…
Ele era sinistro

Conto protegido pelos Direitos do Autor
Miguel Patrício Gomes
Enviado por Miguel Patrício Gomes em 12/05/2006
Reeditado em 12/05/2006
Código do texto: T154669
Classificação de conteúdo: seguro

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Miguel Patrício Gomes
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