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Floreios e Devaneios

A paisagem passa rápido em frenesi pelo vidro sujo, revelando maravilhosas formas e matizes que corriam de mãos dadas. Catedrais e prostíbulos, uns juntos dos outros; velhos cortiços e novos cinemas, antigos teatros e templos de consumo. Preto e branco, índio e amarelo, cafuzo e caboclo, homem e cachorro, às vezes tudo misturado numa raça só sem face, sem nome e sem cor.

Canso de ver a paisagem se desenrolar e torno o olhar para dentro do móvel, vejo um cenário não muito diferente - talvez até mais caótico pela proximidade de faces.

Pessoas – alguns cães, é verdade - se amontoando e fedendo em corrimões acima das cabeças. Vejo em cada elemento dessa matilha algo diferente. Recrio para cada cão uma história fascinante de sua própria vida; apenas conversando com seu corpo, observando o que seus braços dizem ou o que seus sobrolhos estão reclamando. Jamais me importei em saber do que realmente se tratava a vida de cada uma daquelas pessoas – cães? É apenas delicioso imaginar o que aquela mulher de cabelos crespos e mal ajeitados, trajando um vestido roto e rosa, com uma pequena bolsa branca sorrindo para o vazio está pensando, ou para onde está indo. Parece se vestir de maneira elegante para o seu cotidiano sujo; imagino, então, como seria ela em sua própria casa suja junto ao marido gordo, se tivesse um.

Os cabelos, arrumados e bem ajeitados de alguma forma, eram horríveis; o rosto carregava uma maquilagem pesada que tingia seu rosto de tons pastéis estranhos, e a tinta – pó ou seja lá a química derramada naqueles sulcos de idade – lhe dava um estranho olhar circense. O sorriso rasgava-lhe a boca de forma cômica de modo que suas rugas, pois já não era nova, se ajeitassem nos cantos de um jeito tristemente acidentado; e, por fim, seus olhos quase fechados, que por debaixo das pestanas olhavam o oxigênio do ar e desejavam algo perdido na sua própria mente, carregavam uma sobrancelha pesada e mal feita. Pensei logo em um encontro romântico, mas imagino que para uma mulher daquela idade e naquelas condições de vida, não ter um marido não seria ideal para a sua inserção na sociedade casamenteira; e ter um e trair o tal partido, seria pior ainda. Seu porte físico revelava o peso acima do normal, logo pensei em filhos. Sim, devia tê-los. Tão logo a pergunta de onde ela estaria indo se formulou em minha mente, a Vida me respondeu fazendo passar uma enorme igreja na minha frente. O cabelo longo e parcamente penteado revelava sua religião devota e devassa, mas, pois sim, que era um encontro, e ela arrumara-se para deitar-se com Deus na sacristia – fosse o divino ou o pároco. Ela desceu.

Acompanhei-a entrar na igreja, dobrei o pescoço desejoso de ver o sinal da cruz, mas o ônibus partiu. Desapontado, desci meus olhos para o assoalho e, por debaixo dos assentos, percebi um pé tão branco como o leite matinal, destoando dos pés descalços de unhas gigantes e amarelas dum velho negro ancião e o pé de unhas coloridas duma faxineira sacoleira. Delicadamente em tamancos, o pé parecia incomodado pelo odor forte daquele pé roto e trabalhador do pobre zumbi. Vi nos olhos do homem a dureza da vida; o globo ocular, amarelado pela sujeira e principalmente pela força do trabalho, era carimbado com uma mancha negra no centro que lhe servia de íris. Rubras veias finas salpicavam aquele olhar ambarino. Uma barba grisalha estava muito mal feita e a boca era toda rachada como se tivesse comido pedra, ou então não comido nada, tampouco bebido algo. Escondia o cabelo crespo com um boné dum vereador qualquer, reconheci logo o aroma apedrejado dum pedreiro. Cheirava azedo e tinha a aparência por demasiada cansada, não falava nada com ninguém como se tivesse idéia do odor fétido que deveria estar incutido na sua bocarra podre.

Mas voltei aos belos pés que, passado o momento em que analisei o milagroso pedreiro, eles agora se jogavam para fora do tamanco negro e pousavam delicadamente acima destes. Uma curiosidade incrível correu do meu estômado para arder-me na testa. Que tipo de mulher teria aqueles belos pés? Veio-me logo um pessimismo da parte da mente imaginando que, muito embora o pé fosse maravilhoso, a mulher podia ser a coisa mais bruxúlea que eu viria. Mas donde eu estava seria impossível ver qualquer coisa além daquelas falanges perfeitas. Imaginei seu belo rosto de cabelos ondulados e louros, os olhos azuis feito o próprio mar – como dizem nos poemas do fundamental. Ou talvez não, tivesse os olhos de ametista e os cabelos lisos e negros, mas tinha que ser linda e bela – tinha que ser de cinema. A simples imagem daqueles calcanhares carregando uma bruxa me afugentava o desejo podólatra.

Incapaz de ver o rosto ou o corpo, dei uma olhadela por cima do ombro direito como por inconsciente descaso para descansar os olhos nalgum vazio. Mas fui pego, olho a olho com uma senhora já de idade, sentada ereta alguns assentos atrás de mim. Olhava-me com seus olhos castanhos e senti-me inibido contra aqueles olhos idosos. Curioso de natureza, corri novamente o olhar para trás disfarçadamente para ver o que carregava de ossos aquela velha. Olhei direto ao chão e vi seus pés calçados numa sapatilha vermelha muito macia, o vestido era de flores e a bolsinha de couro verde estava pousada no seu colo. Foi quando os olhos dela novamente dispararam contra os meus e, sem disfarce algum, desviei rapidamente, atingido.

O ônibus parava em alguns trancos em que o motorista, acerca dum fechamento, desatava a discorrer palavrões contra motoristas e motoqueiros e pedestres e governadores. As portas abriam e se fechavam e em cada ponto desciam pares de pés e entravam outros milhares de cabeças. O velho negro ancião desceu trôpego e sem eixo, imaginei se já não tinha tomado das suas águas daninhas. Dois pontos a mais e a bruxa velhaca que me espionava pelas costas descer-se-ia num ponto na Nove de Julho; apontei meus olhos como se fosse uma espada e finquei nas suas costas arqueadas. Se olhasse para trás teria meu florete erguido no ar e finalmente ela deveria recuar e fugir aflita, deixando aquele embate em minhas mãos. Ela de fato se virou, mas sorriu, e aquele golpe era inesperado de forma que quem fugiu acuado da batalha fora eu e meu olho espadachim. Ri-me daquela estranha batalha, a velhaca havia me vencido, sem espada nem machado, mas aquele sorriso me veio como uma flecha inesperada.

Meus olhos caíram em si por um desejo quase esquecido: nos pés brancos e perfeitos que jaziam alguns assentos à minha frente. Um homem corpulento e de faces tristonhas barrava qualquer menção ao rosto da dona dos pés. Para este homem, pelo qual fiz nascer qualquer tipo de ódio tolo, dei a mais trágica das histórias. Suado na fronte da camisa de linho bege, carregava nos braços fortes e trabalhadores uma sacola de plástico reforçada com três mais; no seu interior, compras como pães e batatas e saladas e carnes para o repasto minguado. Imaginei pelo seu olhar perdido e sem alegria nenhuma que aquele era mais um brasileiro filho da sociedade, mal-casado, de mão calejada de tanto bater na mulher, de costas avermelhadas de tanta borrachada em dia de jogo e o olhar continuamente perdido, sem saber de quem era filho; se do pai traficante, ou se da madame do Higienópolis. Se do governador, ou do presidente. Não tinha pai, simplesmente. Não tinha identidade, mas era corintiano.

A mulher ao meu lado, chamou minha atenção para o ponto de ônibus que precisava descer, deixei o espaço para que passasse e tomei o assento da janela, olhando rápido para a paisagem externa que não diferia muito daquela descrita no primeiro parágrafo. Senta-se alguém do meu lado, mas o meu esmeraldino olho já estava servindo alimento para que a mente birncasse de tramóias sobre a vida de outro personagem que viaja ali de pé.

Uma bela moçoila, os cabelos eram bastante ondulados e negros, o nariz fino e o olhar, de todo modo, interessante; carregava na face um meio sorriso enigmático e suas maçãs do rosto lhe saltavam na face dando a estranha expressão de ironia e sarcasmo – era, de qualquer forma, muito bonita. O corpo, de menina adolescente dezenoventina de belo busto e quadris rodados carregava ainda pernas brancas e lisas, brilhantes – e isso eu pude observar bem por estar ao nível de. Ainda na face, via-se grande vida nos olhos pretos e cheios de esperança. Imaginei que ela mesma se imaginasse num campus qualquer duma faculdade como muitas outras. Assim que visualizei aquela imagem de universitária bichete, ela soltou um sorriso sincero quase completo pela boca e percebi logo que poderia se tratar de paixão, afinal os adolescentes passam a sua adolescência toda se apaixonando. Enquanto os velhos passam a velhacidade toda se queixando de não terem se apaixonado mais.

A mulher ao meu lado chamou minha atenção perguntando se estávamos perto da Ipiranga. Dei uma olhadela ao redor e percebi as lamparinas do centro se anuviarem enquanto a noite ia caindo, breve estaríamos passando em frente ao Sujinho e de fato estávamos perto da Ipiranga. Virei-me e disse que sim, ela assentiu com um sorriso muito bonito e notei finalmente que estava ao meu lado uma jovem muito bela, para a qual não tinha prestado nenhuma atenção e que história nenhuma eu teria tecido melhor que um conto de fada comum aos irmãos Grimm. Tentei voltar à apoteótica ascensão acadêmica da jovem apaixonada, mas beleza por beleza, lembrei-me das falanges brancas e perfeitas e corri os olhos para onde elas estavam.

Tristeza minha ao ver que lá estava apenas uma fronte dum sapato de couro verde dum empresário qualquer. Talvez jamais pudesse ver dona daqueles pés perfeitos novamente, deitei o olhar ao chão para pegar minha mochila e ler um exemplar dum folhetim literário, mas percebi que os pés perfeitos estavam ao meu lado, quase me convidando a tocá-los e lambê-los – um estranho desejo desperto naquele momento fatídico. Só então percebi que a garota sentava ao meu lado.

Um frio correu todo meu corpo até os pés – os meus pés. Inclinado, virei para ver o rosto quase como os pés dela a viam. Ela percebeu rapidamente como uma gazela jovem percebe mais rápido do que uma já velha a vinda dum leão. Desviei rapidamente o olhar para algo atrás dela, ela logo olhou também e foi o tempo suficiente para voltar ao assento como alguém normal. Uma tensão percorria aqueles dois assentos de forma que já não consegui formular história nenhuma para personagem nenhum naquele ônibus, embora mais e mais fossem embora e mais e mais entrassem. Mas ela continuava lá, firme e forte, cheguei a imaginar se o ponto dela já não teria passado e ela estaria ali para travar uma inútil batalha: quem falaria, ela ou eu? A vitória nesta batalha era interessante, o vitorioso tanto poderia ser aquele que falasse como aquele que não falasse. Ela novamente falou, e então eu perdi e saí vitorioso. Perguntou se aquela era a Ipiranga, olhei pela janela e vi a placa da rua cruzando com a Rio Branco, olhei fundo nos olhos dela e assenti.

Ela levantou, deu o sinal, olhou de volta agradecendo e saiu do ônibus. Voltei a me perder no cenário corrente do lugar. O trânsito estava parado em farol vermelho, e lá fora corria a vida solta enquanto eu estava enjaulado num ônibus, vi crianças de rua parando pessoas e mendigando ao lado de homens e mulheres vestidos socialmente aproveitando a hora proveitosa da sexta feira. Foi quando vi, atravessando a rua quase abaixo de mim, a bela moça dos maravilhosos pés. Nasceu ali uma paixão incrível. A paixão é algo realmente arrematadora, desejei estar com ela e quase por um ato corajoso duma mente idiota, pulei do ônibus, mas que iria eu falar com ela? De fato, muito bonita, os cabelos presos num rabo único que lhe caíam até um pouco mais do ombro, a expressão era tão jovem que cheguei a imaginar que ela teria a mesma idade que eu, embora no ônibus parecesse mais velha.

Dediquei meus olhos a acompanhá-la se perder na solidez de uma multidão formada de pessoas sem faces e sem cheiro. Uma pérola no meio da lama, ela se destacava como se uma luz estivesse colocada em cima de sua cabeça. A calça preta colada ao corpo delineava seu belo rebolado que terminava em tais pés incríveis. Finalmente se perdeu numa ruela escura e o ônibus tornou a andar pelas ruas apinhadas de gente de São Paulo. Que maravilha é o mundo dentro de uma viagem de ônibus. Sei bem que aquela paixão, que morrerá tão repentina e friamente como surgiu, repetir-se-á em qualquer ou em todos os dias naquele ônibus. Talvez nem pelo fato dela estar, provavelmente, nele, mas sim pela fascinação por outras pessoas. Posso me apaixonar novamente por ela por seus cabelos sedosos e não mais por seus pés, assim como posso cair em amores falsos por outra garota por motivos ainda mais estranhos. A simpatia da Vida nos faz sorrir com flores de paixão calcadas em mármore de fascinação. Disso se tem tudo, apaixonar-se por nada e por tudo, é viver. Mas não acredito no amor à primeira vista.
Bruno Portella
Enviado por Bruno Portella em 14/05/2006
Reeditado em 05/01/2009
Código do texto: T155722

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Sobre o autor
Bruno Portella
São Paulo - São Paulo - Brasil, 30 anos
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