Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Plano Perfeito

- Pôs os “bagulho” no porta-malas?
- Tudo certo, mano!
- Abasteceu a caranga?
- Tanque babando!
- Então tô saindo fora, mano.
- Tem certeza que vai sozinho numa boa?
- Tenho! Relaxa que eu já passei o plano na mente umas dez vezes!
- Tá na adrenalina?
- Quem não fica, mano?
- Fica na boa que o lance se desenrola na moral.
- Tô ligado. Fui.
- Se cuida.

      Tião empurra com vontade o pedal acelerador do opala preto, emprestado pelo primo, seu cúmplice. O tanque de gasolina é chupado a cada troca de marcha, mas o porta-malas precisava ser grande o suficiente pra alocar tudo. Além disso, nunca criticaria o favor feito pelo único parente que não riu de seu plano.

      Liga o rádio para acalmar os afiados batimentos cardíacos mas desvia a atenção das notas ao olhar suas unhas sujas. Por mais tentador que pareça decide não roê-las.

      A freada brusca no semáforo vermelho chama a atenção para o brilho de sua pele negra, encarado por um casal, com olhar de estranheza na pista ao lado. Tião sentia que já dirigia por ambientes hostis mas não voltaria atrás. Nunca foi disso.

- Se acalma, homem! – desabafava alto com as mãos suadas ao volante.

      Decide fechar a janela do opala e reservar apenas uma pequena fresta, suficiente para deixar os olhos desprotegidos pelo insulfime sombrio. Some por alguns segundos em pensamentos. Sabia que, se tudo corresse como planejado, sairia vencedor e pronto para seguir em frente. O que levaria naquela noite seria o bastante para desistir das aventuras que marcaram sua juventude e resgatar o juízo perdido tempos atrás. Poderia finalmente levantar as mãos e gritar:

- Hoje começo uma nova vida! – grita Tião espantando-se com o desvio realístico que seu pensamento tomou, pronunciado pela boca sorridente.

      Mas resolveu fechar o sorriso quando se aproximou do alvo, uma casa de dois andares, arquitetada por algum nome famoso e com jeito imponente. Não era a primeira vez que passava pelo alvo, mas os batimentos aceleravam de maneira a beirar o enfarte. Esperou por 25 minutos até que o segurança, distraído como de costume, deixasse o portão tempo demais aberto. O efeito surpresa fazia parte do sucesso do plano. Acelerou mais uma vez e freou bruscamente em frente à casa, abrupto o suficiente para que o ruído do freio chamasse a atenção dos que ali estavam. Abriu a porta com velocidade assustadora e correu para o porta-malas gritando:

- Ninguém se mexe!!! Ninguém se mexe!!! Agora quem fala sou eu!!!

      Antes que abrisse o porta-malas sentiu suas costas queimando e não controlou o arremesso do corpo à frente. Tocou a testa no chão sujo e permaneceu imóvel até que a alma encontrasse seu caminho. Todos os funcionários da casa atropelaram-se em direção à porta principal e ainda conseguiram ouvir o desabafo do segurança:

- Essa foi por pouco! Quando percebi o carro entrando vi que alguma coisa estava errada! Foi o tempo de tirar o cano e acabar com esse vagabundo...

      Antes que terminasse o discurso heróico, ouve-se o grito estridente da bela morena de uniforme que, atrasada, atravessa a porta curiosa:

- TIÃO!!!! TIÃO!!! O que fizeram com você???

      Da boca de Tião nada saía, além do lento sangue escuro. Sofia o agarrou pelo pescoço e debulhou-se em lágrimas salgadas cobrando, com feroz autoridade, alguma explicação para tudo aquilo.

- O que você fez com meu namorado seu filho da puta??? Por que você atirou no Tião??? NÃÃÃÃÃÃÃÕOOOO!!!

- Calma, Sofia!!! Aposto que ele tava com tudo planejado!! Entrou como um maníaco aqui e correu pro porta-malas!!! Até imagino a desgraça que ia ser se ele abrisse a tempo o arsenal!!! Estaríamos rendidos!!!

- NÃÃÃÃÃÃÃOOOOOOOOOOOOOOOO!!!

      Jorge, o segurança algoz, caminha até o porta-malas em busca da comprovação para seu astuto golpe de raciocínio. Pela primeira vez mostrara sua competência e sentia-se vangloriado por defender o patrimônio da família Pereira. Antes que abrisse por completo o porta-malas, evidenciou o rosto pálido.

- O que foi, Jorge???? – questionava Sofia.
- O porta-malas....
- O que tem nele???? Desembucha!!!!
- O...o....o porta-malas...
- Fala logo!!!!! O que você viu???? – completa impaciente o jardineiro.
- Um violão, uma caixa de som e uma placa....
- Que papo é esse, Jorge???? Placa do que????? Fala cacete!!!!! – gritava Sofia enquanto ainda segurava a cabeça de Tião com as mãos ensopadas de sangue.
- Uma placa com uma frase...
- Fala, Jorge!!! Que frase??? Pára com essa porra!!! – gritava, mais impaciente ainda, o jardineiro.
- Uma placa com a frase “EU TE AMO SOFIA. CASA COMIGO?”

      Os funcionários calaram o choro por alguns instantes e assimilaram o real sentido do desespero de Tião. Ninguém falou por alguns segundos, até que Sofia dissesse em voz baixa:

- Que lindo!

      Antes que alguém questionasse a sanidade mental da faxineira ela abraçou o corpo, ainda quente, de Tião e completou:

- Ele nunca disse que me amava...
Felipe Valério
Enviado por Felipe Valério em 20/05/2006
Reeditado em 14/06/2007
Código do texto: T159746

Copyright © 2006. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Felipe Valério
São Paulo - São Paulo - Brasil, 37 anos
232 textos (20872 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 04/12/16 16:30)
Felipe Valério