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Sempre olhe para trás

       Era assim. Onde ele estava, eu estava também. Meus olhos sempre procuravam os dele e a recíproca era verdadeira. A gente se cruzava no corredor, na sala de reuniões, às vezes descíamos as escadas juntos, mas nunca sozinhos, os ombros se encostando. Nunca conseguíamos ficar somente nós dois. Trocávamos algumas palavras formais e inúmeros olhares comprometedores. Acho que a aliança no meu dedo anular esquerdo o inibia. E a recíproca era verdadeira também neste caso. Lembro que em dezembro passado, na festa de final de ano da empresa, apresentamos um ao outro nossos respectivos cônjuges. Foi uma apresentação cheia de cerimônia, palavras escolhidas, mal o olhei no rosto. Só sei que ele estava lindo; a esposa, bem, acho que a apaguei da minha mente. Não me perguntem se era bela ou brega, rechonchuda ou anoréxica. Não quero e nem preciso saber. Mas tive vontade, naquela noite, de largar tudo e desaparecer da festa com ele. Não o fiz. Talvez me arrependa mais tarde. Acho que já me arrependi.
Os olhos dele são como imãs e mesmo através do reflexo de algum espelho, nossos olhares conseguiam se encontrar. Em meio ao estresse do trabalho, a presença dele era um bálsamo, meu lindo amor platônico, a paixão que me deixava com quinze anos de idade. Ah, meu louco amor, que pulsava tão forte em meu coração, que fazia com que eu me levantasse tão animada nas segundas-feiras chuvosas e me deixava deprimida nos finais de semana ensolarados. Longe dele, que graça tinha a vida? Um dia me perguntei, em um lapso de racionalidade, se eu não me decepcionaria se o conhecesse melhor. Na minha mente, ele era o homem ideal, lindo, bem sucedido, amante maravilhoso, estável na vida. E na vida real como seria?
Com certeza seria lindo, bem sucedido, amante maravilhoso e estável na vida. Eu queria um amor verdadeiro, paixão, movimento. Por que casei tão jovem? Por que não escutei os conselhos dos meus pais? E naquela tarde, eu estava parada na calçada, esperando meu marido, numa tarde muito quente, em frente à empresa. Passei o dia todo a buscar meu amor, secretamente, meus olhos vasculharam cada sala, não o enxerguei em lugar nenhum. Os piores pesadelos passaram pela minha cabeça. Ele estava doente, havia sido despedido ou transferido para Belém do Pará. Não, por favor. Fica comigo.
Senti quando alguém passou por trás de mim, um leve roçar nas minhas costas, nos meus cabelos. Um arrepio me subiu pela espinha antes mesmo que eu olhasse para confirmar quem era. Mas eu já sabia quanto voltei meu rosto para o lado e o divisei caminhando, tranqüilamente pela rua, ao lado de outro colega, como se a vida não tivesse pressa nenhuma para ele. Eu tinha pressa.
Quase o chamei, mas meu marido poderia chegar a qualquer momento. Porém, com todas minhas forças, disse para mim mesma que se ele olhasse para trás antes que eu contasse até 10, era porque meu amor também gostava de mim e que ele iria se separar da esposa, casar comigo e me fazer feliz. E eu comecei a contagem, trêmula e esperançosa, abraçando minha pasta com tanta força que machuquei meus dedos.
E antes que eu chegasse ao cinco, ele casualmente olhou para trás, piscou discretamente um olho azul para mim e seguiu o rumo dele e eu segui o meu.
Patrícia da Fonseca
Enviado por Patrícia da Fonseca em 21/05/2006
Código do texto: T160123
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Sobre a autora
Patrícia da Fonseca
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 46 anos
572 textos (37865 leituras)
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Patrícia da Fonseca