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O pingente de coração

        Aquela história era de anos. Mais de vinte, para ser exato. Corria uma história que dentro de um urso de pelúcia da minha mãe, existia uma gargantilha de ouro. Teria sido deixada pela minha avó, para que não fosse cobiçada por pessoas estranhas. Lógico que ela, a minha progenitora, nunca deu importância para esta estória. Invenção, segundo ela, já que a gargantilha desapareceu quando a vó morreu e nunca mais foi vista por mortal algum.
Mas para nossas mentes infantis e depois adolescentes, aquilo era a mais pura verdade. Lembro que implorei tanto, mas tanto mesmo, que minha mãe esquartejasse aquele maldito urso de pelúcia branco para que a gente encontrasse a gargantilha de ouro, mas ela sempre foi inflexível. Não, não e não. Até que antes que eu fizesse vinte anos, minha mãe consumiu com o ursinho e nunca mais ninguém viu.
Fiquei desolada. Mesmo adulta, ainda tinha na mente a estória da minha avó, um pouco romantizada, é claro. Às vezes, algum primo meu vinha e comentava sobre o assunto e eu era obrigada a responder que não, eu não sabia de nada, que minha mãe num ato de loucura consumira com o urso e jamais ele fora visto. Isto causava uma decepção nos parentes e uma frustração em mim.
Não tanto pelo dinheiro que a gargantilha deveria valer, mas pelo valor sentimental, eu sempre sonhei – literalmente – em encontra-la. Contava todos os meus sonhos para minha mãe, que debochava da minha cara. Certa vez, ela fez uma revelação. A gargantilha que tanto causava comoção na família era aquela do retrato. Sim, minha mãe pintara um enorme retrato da minha avó, alguns meses depois da morte dela, e que estava pendurado na sala de estar. Como eu nunca imaginara nada parecido? Na verdade, nunca dei muita importância para o quadro. Porém, lá estava ela, a gargantilha. De ouro, com um pingente de coração flechado pelo cupido... Linda, linda. Fiquei extasiada. Era mais linda que eu pensava. Implorei para que minha mãe me desse o urso, mas ela confessou que o doara para um orfanato. Chorei a noite toda.
Então, como não poderia deixar de ser, larguei o assunto de mão. Não havia mais o que procurar agora. O urso estava perdido para sempre. Resignei-me e aconselhei quem me procurava querendo falar sobre a gargantilha que fizesse o mesmo.
 Poucos anos se passaram e um dia me descobri grávida. Como seria o primeiro neto da minha mãe, ela foi a primeira saber. Corri até a casa dela para contar a novidade. Como não poderia deixar de ser, ela ficou animadíssima. Tão animada, que me prometeu dar um presente. Saiu da sala e eu fiquei sozinha, sentada no sofá, curiosa. O que ela estaria aprontando?
Passaram-se uns bons dez minutos quando minha mãe reapareceu, trazendo uma caixa. Olhando para minha com uma cara marota, ela disse, misteriosa:
- Aqui está o presente que você sempre quis.
Não imaginei o que poderia estar dentro daquela caixa cor de rosa, com um laço de fita azul por cima. Segurei-a, delicadamente, com medo de quebrar alguma coisa lá dentro. Desamarrei a fita e a destampei. Então soltei um grito tão alto, que devo ter acordado a minha avó e sacudido meu filho na minha barriga. O ursinho branco de pelúcia estava deitado no fundo da caixa, fitando-me com seus doces olhos azuis. Antes que eu dissesse qualquer coisa, minha mãe falou:
- Ele é seu. Se tiver coragem de abri-lo, faça-o.
Mas quem teria coragem de esquartejar um urso tão bonitinho? Branco como a neve e tão macio, não pensei nesta hipótese, ainda mais grávida. Abracei e beijei minha mãe repetidas vezes e voltei para casa, com meu troféu.
Meu marido também ficou animado, mais com o urso do que com a minha gravidez. Naquela noite, quando saí do banho e voltei para o quarto, encontrei meu urso esquartejado em cima da nossa cama. Ele, com uma expressão de desapontamento no rosto, olhou para mim e declarou:
- Não tem gargantilha de ouro nenhuma dentro dele.
Quase matei o desgraçado. Atirei os pedaços do urso em cima do infeliz e fiquei três dias sem falar com ele. Minha mãe soube da história e até achou graça. E meu marido, para tentar me reconquistar, presenteou-me com uma gargantilha igual a do retrato quando nosso filho nasceu.
Se a história foi lenda, ninguém nunca soube. Mas quando nas raras vezes toco no assunto da gargantilha de ouro com a minha mãe, vejo em seus olhos um brilho diferente. Será que ela existe ainda?
Patrícia da Fonseca
Enviado por Patrícia da Fonseca em 04/06/2006
Reeditado em 05/06/2006
Código do texto: T169326
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Sobre a autora
Patrícia da Fonseca
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 46 anos
573 textos (37906 leituras)
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Patrícia da Fonseca