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A Encantadora de Peixes

Fora outrora uma menina ávida de mil experiência, de viver centenas de histórias e momentos que agora ao lado do rio recorda. O tempo passou e a pele enrugou, não tem a beleza de outrora, nem o mesmo estímulo e vivacidade, não transborda a alegria esfuziante, mas tem o dom de todos maravilhar. Chamam-lhe A Encantadora de Peixes! Todos os dias ela caminha em passo indolente até ao rio, como se fosse uma promessa que cumpre até ao fim dos seus dias; senta-se no rebate de um degrau que serve de caminho aos pescadores e fixa o olhar no horizonte. Dizem que ela espera por alguém, talvez o marido perdido no mar, ou um filho...ninguém sabe ao certo. Eu digo que ela espera pelo sonho, talvez porque os olhos cansados e tristes sejam o espelho do seu coração, talvez por isso eu veja no fundo deles aquilo que lhe marca a alma.
Com o passar dos anos dizem os antigos foi-se enclausurando nos seus submundos e não é a pessoa cheia de amor e felicidade que era, que vivia a vida sorrindo e que tenta agora encontrar a paz e o descanso junto às águas calmas. Com o rio partilha as suas histórias.Dizem os Homens que nada percebem de sentimentos que ela fala com os peixes, mas ela não fala só para eles, ela declara-se todos os dias ao sonho, partilha os seus desejos e confidências e é desta forma que todas as tarde as águas se unem. As lágrimas e as ondas de um rio que corre mansamente até ao mesmo porto de destino. Algumas crianças vão até ela ouvir as suas histórias e ela sorri quando as vê, tem jeito a velha senhora talvez por ter aprendido a inventá-las durante toda a sua existência para se ensinar a si própria a não sofrer. Quando o sol se começa a pôr ela levanta-se e todos os dias lhe tira uma fotografia, diz que é a prova de que até o fim pode ser belo.
Da minha varanda todos os dias vejo aquela velhota de ar simpático de que aprendi a gostar, que desfaz pedacinhos de pão para alimentar as pombas, que conta histórias aos peixes, que faz as delicias dos meninos e que gosta do pôr-do-sol. Todos os dias eu vejo Aquela Encantadora de Peixes, que o povo julga ser inadaptada, perturbada e que eu acho simplesmente deliciosa.
Um dia decidi ir até lá só para falar com ela, só para lhe dizer como admirava o seu sacrifício, o seu esforço e a sua coragem. E fui. De perto ainda era mais notório o rosto sereno que os anos foram enrugando e a vida maltratando. Disse-lhe que achava que ela esperava por um sonho e ela disse-me:

“Eu esperei toda a minha vida pelos sonhos, acreditei neles com fé e determinação, vivi às vezes incompreendida, outras tantas vezes perdida, mas ainda assim rendida à paixão que é imaginar”.

Sorri animada e ela continuou dizendo-me:

 “Com esta idade aprendi que os sonhos não dependem de nós, dependem da vida e das suas oportunidades, dependem dos outros que fazem parte da nossa vida. Os sonhos só moram em nós na sua concepção porque quando crescem e voam precisam das asas dos que nos rodeiam”.

Fiquei pensativa e aí foi ela quem sorriu e prosseguiu:

“Tu és jovem e tens o direito e o dever de sonhar, só não deixes que os teus sonhos te ceguem e te façam sofrer. Não esperes nada das pessoas mesmo que queiras ser o mundo para elas, não dês esperando algo mesmo que tu aquilo que queiras seja essa pessoa, não chores quando estiveres triste tenta antes combater a tristeza de alguém, e não vivas pensando que consegues ser feliz como nos sonhos porque senão ficarás sempre aquém do que poderias ter. Vive com a consciência de que nem todos sonham como nós, nem todos têm capacidade de amar e se entregar”.

Ponderei na suas sabias palavras, repletas de conteúdo e experiência e desanimei. Ela era A Encantadora de Peixes pelo menos ela tinha de acreditar.
Entretanto olhei o seu rosto e ela estava a chorar, perguntei-lhe o que se passava e ela permaneceu em silêncio. Lentamente levantou-se firmou os olhos no horizonte para ver a beleza do pôr-do-sol e depois fechou-os docemente, como um código ou ritual secreto foi aí que a ouvi sussurrar:

“GOSTO DE GOSTAR DE TI!“

Embalada pela beleza do momento também eu fechei os olhos e só mais tarde percebi que ela já tinha partido. Tinha ido encantar outros peixes, outros destinos, partilhar outras águas, outros caminhos.
Eu...Eu fui até à minha varanda...Durante o meu percurso percebi que afinal não estava enganada ela ainda esperava algo, o que buscou toda a vida e nunca achou, eu diria que ela esperava pelo AMOR.
Sonya
Enviado por Sonya em 07/06/2006
Reeditado em 04/08/2006
Código do texto: T171018
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Sobre a autora
Sonya
Portugal, 34 anos
170 textos (17297 leituras)
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Sonya