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Bendito seja aquele que tem um amor ao seu lado

        Depois de tantos anos, a imagem do rosto dele meio que fugiu da minha mente. Meus olhos já não enxergam tão bem e as raras fotos que eu ainda guardo no meu baú mal aliviam a minha saudade.
Ele partiu da minha vida demasiado cedo. Tão cedo e tão rápido que levei anos para assimilar o golpe da perda. Vi-me sozinha, há 60 anos atrás, numa casa grande e, de repente, vazia. Eu tinha apenas 23 anos. Meu primeiro e único homem morreu sem ter tido tempo de me dar filhos. E nunca mais tive homem algum.
Mas de alguma forma eu fui vivendo – ou sobrevivendo – da maneira que eu podia. O meu coração permaneceu fechado durante todos estes anos. Enquanto eu ainda enxergava direito, era só a noite chegar para que eu me sentasse na varanda e pegasse as fotos do meu amor, agora amareladas, outras se rasgando. Então eu conversava com ele, contava como havia sido meu dia, meus temores, minhas alegrias. Quando preparava a mesa para jantar, colocava uma das fotos na cabeceira e eu fazia minha refeição como se estivesse com ele ao meu lado. Fiz isto por anos a fio, até que uma das minhas sobrinhas adolescentes descobriu e disse que aquilo não era coisa de gente normal. Dali para frente, nunca mais jantei com a foto, até porque talvez tivesse concordado com o que ela havia dito.
Quando a idade foi chegando trazendo todos os seus dissabores, vi-me obrigada pelos meus parentes a deixar a casa grande. Juntei meu poucos pertences e fui morar num apartamento, perto da casa de uma sobrinha, sozinha, como sempre. Temi que ele ficasse preso a nossa antiga casa, como se fosse uma alma errante. Mas não. Já na primeira noite senti sua presença ao meu lado, no meu sono mal dormido. Eu já não enxergava direito, mas deixei o baú das fotos na mesinha de cabeceira.
E nesta noite que passou, sonhei com meu amado. Foi um sonho tão doce, tão bonito, que acordei chorando. Pude ver o rosto dele, sentí-lo, até mesmo tocá-lo. Era tudo tão perfeito, que acordei achando que fosse verdade. Então, dei-me conta que eu não era mais a jovem do sonho e que meu marido estava morto há 60 anos. Mergulhei num pesadelo de lágrimas. Chorei por horas a fio, até que me recompus, finalmente. Uma doce melancolia tomou conta do meu peito, a dor da saudade, a dor do coração partido. Na televisão, fazia-se anúncios do dia dos namorados, algo que nunca comemorei na vida. Bendito seja aquele que tem um amor ao seu lado. Eu não tenho, por enquanto. Mas tenho certeza de que meu anjo um dia irá me buscar. E eu espero que ele não demore tanto tempo assim.

Patrícia da Fonseca
Enviado por Patrícia da Fonseca em 11/06/2006
Código do texto: T173503
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Sobre a autora
Patrícia da Fonseca
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 46 anos
573 textos (37908 leituras)
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Patrícia da Fonseca