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Amigo Fiel

A chuva pode ser vista pela janela da sala. Faz frio e a noite está escura e pesada. Como companheiros apenas um copo de whisky e o amigo Quincas Borba. Na tela do computador, Carlos termina o penúltimo capítulo de seu primeiro e único livro. Já tinha plantado uma árvore, ficaria faltando agora apenas ter um filho. Embora para ele, Quincas já ocupava o lugar de um filho, afinal fazia 8 anos que o encontrara, ainda filhote, abandonado pelas ruas da cidade. Levou para casa, deu banho e colocou-o na varanda para dormir. Ordenou que ficasse lá. Não ficou. Entrou, destruiu o chinelo, mijou no tapete, espalhou o rolo de papel higiênico pela casa e conquistou de vez o coração de Carlos. O nome fora dado em homenagem ao personagem de Machado de Assis e, durante os anos, o cãozinho tornou-se o único amigo sempre disponível para ouvir as lamúrias e confidências de Carlos.

O livro ainda não tinha nome. Era sobre um romance ocorrido durante a primavera entre Carlos e Ana. Fora concebido após uma gestação de quase 12 anos e saia da vida de Carlos para a tela do computador há 6 meses, durante as aulas de literatura e as viagens de ônibus no trajeto do trabalho para casa. Ainda não tinha nome. Nenhuma das doze sugestões de Carlos agradou Quincas. Carlos tinha dois nomes preferidos e, para tentar seduzir Quincas a escolher um deles, espalhava pelo chão os doze nomes escritos em pedaços de cartolina branca, colocando próximo dos preferidos alguns pedaços de biscoitos caninos. Quincas, no entanto, se mostrava incorruptível; olhava para os nomes, para os biscoitos, para Carlos, sacudia as orelhas peludas e saía em direção do sofá.

Na semana seguinte, Quincas é levado ao veterinário. Estava quieto demais e não brincava como antigamente. Estava doente disse o veterinário. Era um problema de saúde que já estava adiantado e que só apareceu agora devido seu agravamento. Agora Carlos se revezava  entre escrever o último capítulo do livro e cuidar de Quincas, que piorava cada  vez mais.

Terminado o capítulo, Carlos saí para comprar remédios para Quincas. Ao retornar, encontra Quincas deitado imóvel no sofá com um dos nomes preferidos de Carlos na boca: “Amor de Primavera”. Tinha descansado para sempre. Carlos chora durante algumas horas a perda do grande amigo; quase um filho. Seis dias depois, Carlos senta-se diante do computador, ainda entristecido, para finalizar o livro. Faltava somente o nome. Ele fixa durante alguns minutos o olhar no cursor que pisca na tela. Seleciona todo o livro e o deleta. Resolve agora começar o livro pelo título: Amigo Fiel.
Luís Oliveira
Enviado por Luís Oliveira em 21/06/2006
Reeditado em 21/06/2006
Código do texto: T179447
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Sobre o autor
Luís Oliveira
Curitiba - Paraná - Brasil, 42 anos
2 textos (153 leituras)
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Luís Oliveira