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Segredos na Praia

Tudo aquilo que ela mais desejava era que ele jamais a esquecesse e já mais deixasse um dia passar sem uma palavra, sem um carinho, sem uma mensagem. Com a sua ausência ela sofria, porque ele era a sua alegria, a sua magia e ela sorria mais feliz quando o via, os olhos brilhavam quando ele a amava. E nada lhe saberia tão bem quanto ouvir a sua voz proferir as palavras Gosto Muito de Ti e quero-te sempre ao pé de mim.

ESTE CANTINHO É NOSSO E POR ISSO NELE EU CONTINUAREI A ESCREVER.

Ela foi sentir a brisa do mar, o cheiro das algas e da areia molhada e absorver todas as sensações que isso provocava no seu ser. Estava num muro junto à praia já era de noite, mas o céu ainda tinha luz e ela via a espuma branca que aquietava o seu coração e ouvia o marulhar do mar e a melodia que ele fazia ao bater na areia. Tinha os olhos fixos no horizonte já cinzento do nevoeiro e sentiu uma imensa paz. Ao longe as luzes da cidade tremeluziam e os esboços das estruturas metálicas e civis balançavam com as sombras da noite. Completamente só, sentia o peso da solidão dentro de si, apenas a acompanhavam os seus pensamentos e a folha branca de papel que lentamente preenchia de rabiscos naquilo que pretendia ser a descrição fotográfica de um momento. Rodopiou em seu redor e viu a imensidão de areia que se perdia de vista, a mesma por onde um dia tinha caminhado numa  tarde de fim de semana na companhia de um anjo. E ao relembrar esses tempos sentiu uma profunda e angustiante saudade bem como o medo de nunca mais ver aquele anjo, de nunca mais ter o prazer da sua companhia, de privar com ele de perto de sonhar o sonho que queria viver e viver tudo aquilo que tinha sonhado. Ela temia que ele a tivesse esquecido na imensidão do tempo quando ela o tinha na eternidade. Ao contemplar a areia é como se ainda visse o rasto das pegadas nos imensos desenhos que ela comporta, fruto de outras pegadas banhadas por outras histórias. Nesses instantes de alucinação o vento frio que lhe batia nas costas e na face extinguia-se e ela apenas sentia o calor de uma boca, de uma mão e da chama de um amor que lhe incendiava o peito mesmo tendo o anjo se afastado sem razão.
Sentia no seu corpo a sua boca como marca que o tempo não apaga, via a imagem eterna de alguém que lhe afagava os cabelos, que suspirava depois do seu beijo. Recordou os tempos em que o ninho de amor era um parque vazio junto ao rio e como nessa escuridão era capaz de ler nos olhos o amor que desejava encontrar, onde o silêncio se partilhava com as batidas descompassadas dos corações, onde as despedidas eram sempre longas, mas ainda assim tão breves porque logo a seguir ela ouviria o som que lhe dizia que o anjo estava ali.
O tempo passou e ela nunca passeou com ele de mão dada nem abraçada, nem tão pouco algum dia pode dizer a alguém o quanto o amava. Guardou em segredo esse Amor e viveu com ele acorrentado como uma flor perfumada que o tempo jamais faz morrer ou perder o odor. Talvez por isso às vezes uma insana sensação lhe invadisse o peito e ela agisse de forma irracional, ela tão simplesmente viveu a dimensão de um grande amor dentro de uma caixa de fósforos. Queria dar-lhe ar para alimentar essa combustão, mas a caixa era demasiado pequena para libertar o fogo que ela tinha dentro de si. Assim existiam apenas fragmentos simples de uma explosão que seria como um fogo de artifício de beleza sem igual se o anjo abrisse as asas que teimava em deixar fechadas. Impotente e incapaz de mudar o destino que ele teimosamente escolheu ela era obrigada a seguir ao lado do seu mutismo, da sua ausência, sem ter uma explicação ela preferia acreditar no seu coração enquanto olhava o mar como quem espera noticias de um ente querido que embarcou para a guerra.
Durante todo o tempo as suas asas de borboleta ansiaram pelo abraço do anjo e mesmo hoje sem noticias ela continua a ir até ao muro onde o mar banha a areia para escrever para ele, porque esta é a única forma de acalmar o seu coração e libertar um pouco do fogo de artifício que tinha para rebentar dentro de si e para oferecer a ele.
E enquanto olha o mar em silêncio e absorve a energia da Natureza deseja com fervor que ele de mansinho apareça e a abrace até à eternidade...
Sonya
Enviado por Sonya em 21/06/2006
Reeditado em 04/08/2006
Código do texto: T179765
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Sobre a autora
Sonya
Portugal, 35 anos
170 textos (17297 leituras)
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Sonya