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A dama de vermelho

A dama de vermelho

Certa tarde ao chegar em casa, abri a caixa de correspondências e encontrei um envelope enorme com meu nome e endereço e sobrescritado com uma letra firme e muito desenhada. Abri e tive uma E NO R M E surpresa. Em um papel vermelho encorpado, estava lá o convite.

Tarsila se casaria dali a duas semanas em uma cerimônia íntima em uma das mais badaladas igrejas do centro do Rio. Fiquei meio confusa.  E até mesmo surpreendida.
Logo pensei em que roupa deveria usar. E comecei a fantasiar. Aquele pretinho básico,
ou o verde musgo. Desfilei toda a coleção que vivia dentro do meu modesto armário, esperando uma oportunidade para ser usada. De memória, repassei muitas vezes o filme, mas não encontrei nada que achasse conveniente.

Entrei na igreja com minha sobrinha e achei melhor procurar um lugar onde pudesse ver a noiva entrar e sorrir para todos. Eu estava muito emocianada. E observava, olhando curiosa para todos os lados. A igreja foi enchendo e antes que Tarsila chegasse estava quase super lotada.

No altar o noivo a esperava meio sorrindo. Não pude precisar-lhe a idade, talvez sessenta ou mais (o milagre das tinturas, é incrível). Logo, a marcha nupcial teve seus acordes penetrando em nossas almas e Tarsila entrou sozinha. Deslumbrante como sempre que se “apresentava” para o seu vasto círculo de amizades.  Seu vestido era todo de renda vermelha, longo colado até o meio do corpo, com decote nas costas encoberto pelo véu também todo vermelho e caudaloso. Usava discreto colar de pérolas (duvido se legítimas) minúsculas, caminhava, altaneira, sorrindo e esbanjando felicidade, em seu porte de rainha sexagenária a caminho do altar, do amado noivo e primeiro marido.

A cerimônia religiosa seguiu os trâmites normais. Os noivos após receberem os cumprimentos ofereceram uma linda recepção em uma casa de festas. Foi uma linda noite e muito surpreendente. Tarsila apresentou-me o agora seu marido, e não economizou palavras me contando. Ele é o meu primeiro amor, o único que realmente tive em toda a minha vida.  (risos e mais risos abafados e comedidos).

Você pode pensar que me envergonho de tudo o que vivi. Não eu amo e amarei para sempre Roberto. Quando o conheci era apenas uma sexagenária, deprimida, achando que tinha sido a maior pecadora, e que o meu futuro seria, triste, solitário e incerto.
Encontrei Roberto por detrás de um confessionário. Isto não foi o truque de sedução barato que sempre usei, quando ainda ganhava a vida na Lapa e depois em outros lugares que todos os meus amigos sempre souberam, nunca escondi nada de ninguém.
No confessionário abri minha alma para Roberto e com os tempos me tornei religiosa, fervorosa e conheci outro mundo. Do meu encontro com Deus, tive também meu encontro com Roberto e depois que já estávamos fartos de tanta hipocrisia. Ele padre e eu prostituta velha. Resolvemos assumir o caso. E fizemos desta forma inusitada que você está vendo. Foram três anos, até nos decidirmos, mas sempre é tempo.

Um de nossos padrinhos (escolhemos seis casais), também foi religioso. O Mário, aquele banqueiro ricaço que me deu muito trabalho, na juventude, hoje está de bem com a vida e aceitou com a esposa ser um dos padrinhos. Os outros, não poderiam deixar de ser o ginecologista (que sempre me aconselhou muito), uma das madrinhas a cartomante (que na verdade, era uma espécie de psicóloga, amiga, irmã).  Enfim, eis-me aqui sexagenária assumida, casada, matrona e universitária. Esqueci de te contar estou cursando o terceiro período de Comunicação, sempre tive vontade de estudar, mas achava que não daria.

Estou muito feliz, tenho recebido muitas bênçãos, do céu. Vendi o casarão do subúrbio. Estamos morando na Barra. È um pouco distante de alguns amigos, mas com a linha amarela, e a vermelha, é apenas um engarrafamento e outro.

E não sei se você se lembra, Marcos, meu único filho, agora é meu grande amigo e admirador. Ele está casado com uma advogada,têm uma filhinha e mora no Recreio.

Afinal depois de tanto trabalho, tenho direito a minha aposentadoria. Tenho alguns imóveis alugados, com a renda dos aluguéis posso viver com tranqüilidade com meu amor.

A festa acabou, voltei para casa e sorri feliz. Tarsila com seu encanto. Seu sorriso maravilhoso, sua alma corajosa. Ao jogar seu buquê de rosas vermelhas ela simbolizava a menina atrevida, que diz sim para a vida, para o hoje, o agora. Sem se importar com os pensamentos malvados, as línguas ferinas, a imaturidade dos preconceitos.

A lua-de-mel eles não revelaram para ninguém onde seria. Partiram deixando no ar a essência de uma chuva de pétalas de rosas.

Uma semana depois eu mais emocianada que no dia do casamento de Tarsila e Roberto, chorava copiosamente, na mesma igreja, junto com todos os amigos. Assistíamos em grupo a missa de sétimo dia para Tarsila e Roberto. Eles foram encontrados abraçados, como dois namoradinhos, deitados na cama.




Aradia Rhianon
Enviado por Aradia Rhianon em 23/06/2006
Código do texto: T181000

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Sobre a autora
Aradia Rhianon
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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