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COISAS DE MULHER



       Quando eu o conheci, ele pareceu ser tudo de bom. Simpático, bonito, extrovertido. Como eu havia terminado um relacionamento há menos de um mês, eu via o Claudinho como a salvação da lavoura para curar minhas tristezas e meu cotovelo ferido. Comecei a ir na academia só por causa dele. E o Claudinho me dava bola! Entre um exercício e outro na musculação, ele conversava comigo, contava alguma coisa do seu dia a dia e eu escutava a tudo, encantada. Claro, como toda mulher que se preze, comecei a criar expectativas. Doces expectativas.
Só que o tempo foi passando. E eu cada vez mais empolgada. Gastei um dinheirão em roupas de aeróbica para ficar mais gostosa para o Claudinho. Numa destas eu achava que ele poderia me convidar para um cineminha, um happy hour, qualquer coisa do gênero. Nada. O Claudinho não se mexia. Comecei a me cansar daquela história. Ora, eu queria uma investida mais forte, um convite, um toque no meu braço, qualquer coisa que demonstrasse um interesse maior. Mas não. Era sempre a mesma coisa. Ele chegava na academia, me piscava o olho, eu abanava com o sorriso indo de uma orelha a outra e mais tarde, uma conversinha que eu já considerava babaca. E deu. Acabou. Era só isto. O que antes me bastava, começou a me perturbar. Minhas amigas não me suportavam mais falando do Claudinho. Se ele não tomava uma atitude de macho, eu que o fizesse, diziam elas. Eu? Tomando atitude de macho?! Mas isto cabia a ele. Ele que tinha que me convidar para qualquer coisa, nem que fosse para irmos direto ao motel. E os dias passavam e o Claudinho não fazia nada. Às vezes eu tinha vontade de atirar um halter de 5 quilos na cabeça dele para ver se pegava no tranco.
De qualquer forma, apesar da minha irritação crescente, também crescia o meu tesão a cada dia que passava. Vê-lo desfilando na academia todo o seu charme e simpatia, causava-me um nervoso que fazia com que eu suasse mais, quase caísse da esteira ou fizesse uma série inteira de abdominais só de olho no Claudinho. Era quase uma doença. Eu me perguntava porque ele não me convidava nem para beber água. Teria alguma namorada? Nas nossas conversas, Claudinho dava a impressão de ser solteiro. Ou seria ele gay? Não, tudo menos isto. E sem que eu quisesse, as minhas expectativas em relação ao Claudinho aumentaram além do normal e eu já me pegava imaginando entrando na igreja, de branco, véu e grinalda e ele no altar, esperando-me, emocionado.
Um dia o Claudinho não foi à academia. Estranhei, mas fiquei quieta. O que teria acontecido a ele? Claudinho era presença certa e confirmada, todos os dias – assim como eu. Ele batia ponto na academia, mesmo horário, tudo igual. Mas naquela quarta-feira ele não foi.
Além de fazer meus exercícios muito triste, minhas cabeça não parava de pensar mil coisas. Teria morrido em algum acidente? Trocara de academia? Ah, já sei! Foi o trânsito, claro. Com este pensamento, fui para casa, tendo certeza de que no outro dia Claudinho estaria lá. Até comprei outra roupa de ginástica, mais sexy ainda para que ele se empolgasse de vez comigo. No dia seguinte, lá estava eu na academia, perfumada e de roupa nova. Não havia ninguém mais cheirosa do que eu lá. Mas pena que o Claudinho não soube disto. Porque ele não foi. Nem naquela quinta-feira e nem no resto da semana. Aquilo foi o fim para mim.
A outra semana entrou e nada do Claudinho. Eu estava extremamente preocupada. Todas as minhas amigas já sabiam do sumiço dele, porque eu só falava nisto. Bem, se ele estivesse morto, eu já teria sabido. Notícia ruim voa. Então, uma semana depois do desaparecimento dele, ouvi um colega de academia comentar que o Claudinho havia sido transferido para Manaus. Quase caí da esteira. Manaus? Mas tão longe? Meu mundo caiu. Minhas expectativas de casamento, amor eterno e filhos se evaporaram. Não suportei ouvir a notícia. Peguei minha toalhinha, saltei da esteira e abandonei a academia para nunca mais voltar.
Mas não pensem que desisti. Já tenho hotel reservado para Manaus onde vou passar dez dias de férias. Vou atrás dele. Minhas amigas disseram que estou tomando uma atitude de macho. Bem, não sei. Só sei que é uma atitude de uma mulher determinada, em busca do homem que acredita que seja seu amor verdadeiro. E se não for o Claudinho, pelo menos já tenho uma aventura no currículo para contar aos meus netinhos.

Patrícia da Fonseca
Enviado por Patrícia da Fonseca em 25/06/2006
Código do texto: T182210
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Sobre a autora
Patrícia da Fonseca
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 46 anos
572 textos (37900 leituras)
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Patrícia da Fonseca