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OS FANTASMAS DA MEMÓRIA - 1

- A angústia de Sivério -
 

Para Marcial Salaverry


    Arrastava-se o ano de 1965. Em África, a guerra colonial impunha uma nacionalidade duvidosa e um regime sem alma. Portugal vai do Minho a Timor! Portugal não é um país pequeno! E sobre o mapa da Europa projectava-se toda a geografia colonial. A grandeza de um país media-se em quilómetros quadrados! As caravelas de antanho pretendiam-se ressuscitadas! O quinto império havia de se impor sob a vontade de um fantasma medieval! As trevas da inquirição dita santa! A impiedade sacrílega e profana dos senhores da vida e da morte! Os domesticadores do destino! E as asas privadas da sua sede de infinito! E um povo triste que sofria, em silêncio! Subversiva, uma resistência clandestina dizia não!
    Arrastava-se o ano de 1965...
    No quarto pobremente mobilado, a espera pesava. Sentado na cama, ausente de tudo e de todos e até de si mesmo, Silvério. Quem era? Mais um desenraizado, trazido à cidade grande, onde cabia todo o desespero do mundo. Aqui, Portugal era Lisboa... e o resto só paisagem! Nos campos desertos, o tempo parara. A guerra, nas Áfricas! As Franças e as Alemanhas, o destino, a salto, da fome!
    Na rua, erguia-se o palco e representava-se a farsa: Portugal não é um país pequeno!
    Cabisbaixos, os transeuntes tentavam vegetar.
    Autocarros, eléctricos, automóveis. O vaivém rotineiro da cidade grande.
    A chinfrineira de um eléctrico despertou-o. Circunvagou o olhar. Lá estava o monte de livros, empilhados a esmo. Lá estava o guarda-fato, com o seu espelho indiscreto, reflectindo a ausência de tudo.
    Tenho de decidir-me. Ou fico ou parto. Esta indecisão não me leva a nada. Leva-me ao Nada. Mas no Nada já eu estou. Mas se ficar, o que faço? E se partir, para onde irei? E partir não será fugir?. E fugir não será trair? E os outros, sempre os outros, que diriam? Não. Ficaria. Um homem é sempre um homem e deveria morrer como um cão vadio se ou quando começa a deixar de o ser. Sim, porque o cão vadio é a prova provada de que esqueceu a origem ancestral de livre e selvagem... e feroz quando for preciso. Iria até ao fim.
    Pressurosa, a senhora Mariana, sua compreensiva hospedeira e também mulher simples do povo sem voz, perguntou, timidamente, do corredor: O senhor Silvério chamou? Pediu alguma coisa?
    Não, não chamei, senhora Mariana. Estava pensando em voz alta, respondeu aborrecido por aquela fraqueza. Que diriam as pessoas ouvindo-o falar sozinho?
    Os passos da senhora Mariana, no corredor, de regresso à cozinha, esmoreceram-se e o silêncio pesado regressou ao quarto.
    Anoitecia. O movimento, na rua, era, agora, menor. A fraca iluminação semeava sombras e medos. Uma saudade vaga e nebulosa da infância e do tempo perdido doía-lhe no peito.
    A noite caíra. A senhora Mariana bateu discretamente na porta e perguntou: o senhor Silvério não acha que se faz tarde para jantar?
    Hoje não me apetece. Desculpe não lhe fazer companhia. Merendei tarde e dói-me a cabeça.
    Pesado, o silêncio impôs-se definitivamente.
    Lá fora, a brisa fresca do outonal Outubro levava para longe as folhas amarelecidas das árvores que assombravam a rua solitária.


 
José Augusto de Carvalho
Ano de 2001.
Viana do Alentejo*Évora*Portugal
José Augusto de Carvalho
Enviado por José Augusto de Carvalho em 25/06/2006
Código do texto: T182255
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
José Augusto de Carvalho
Portugal, 79 anos
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José Augusto de Carvalho