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PROSTITUTA DE LUXO

   
     Quando as turbinas pararam, respirei aliviado. Embora não fosse medroso, o pouso do avião sempre me causava certa apreensão. Já fazia cinco anos que eu não vinha a Goiânia, onde havia morado por algum tempo.
    Após a costumeira demora em retirar a bagagem, logo ao sair pela porta  de entrada, dirigi-me ao estacionamento onde havia diversos carros de aluguel. Os táxis eram novos e como minha estada na cidade seria pequena, achei mais cômodo não alugar um carro. Os lugares aonde pretendia ir eram perto uns dos outros.
    Além disso, não precisava ficar dirigindo dentro de um trânsito meio caótico. E havia o meu amigo, a quem eu iria visitar e saber como ele estava. Da última vez em que nos comunicáramos ele me informara que estava para se casar.
    Quando entrei no táxi, o motorista que até parecia um cachorro buldogue, perguntou-me:
    - Para onde?
    Peguei um cartão que tinha no bolso da camisa e lhe entreguei, dizendo:
    - O endereço é esse aí.
    Ele olhou, ligou o carro e partiu.
    Enquanto o carro se deslocava, tentei imaginar como estaria a esposa do meu amigo. Se fosse aquela loira que eu conhecera quando estivera aqui da última vez, eu sentia até certa inveja. A moça era realmente uma máquina, além de ser linda.
    Por duas vezes tentei entabular conversa com o profissional do volante, porém, este se limitava a responder em monossílabos, demonstrando toda sua má vontade em conversar comigo. Vendo que ele não queria conversa, calei-me e voltei a tentar visualizar a esposa do  amigo. Como estaria agora ela depois de cinco anos?
    Depois de meia hora em um trânsito congestionado, o táxi parou em frente ao hotel em que eu sempre me hospedava. O prédio havia passado por uma reforma e estava bem diferente desde a última vez em que ali estivera.
    Paguei o taxista e dei ao buldogue o troco que me estava devolvendo e então o vi sorrir. É interessante como tão pouca coisa possa transformar o humor de uma pessoa. Retribuí o sorriso, entreguei a mala ao carregador do hotel que naquele momento estava ao meu lado e disse:
    -Obrigado, amigo.
    - De nada. Respondeu ele.
    O carregador arrastava a mala sobre as rodinhas, enquanto eu o seguia levando minha maleta, onde guardava documentos, papéis e pequenos objetos de uso geral. Depois das formalidades normais, com informações pessoais para o preenchimento da ficha de hóspede, dirigi-me  ao  apartamento.
    Após  sair do banho, liguei ao meu amigo para marcar um encontro com ele para matar a saudade e colocar nossas conversas em dia. Combinamos que iríamos nos encontrar no dia seguinte em sua casa. Ele passou-me o endereço e ficou acertado: íamos jantar em sua residência.
    Luiz, esse era o seu nome, era um empresário bem sucedido e gozava  de grande conceito na cidade. Conseguiu amealhar grande fortuna no ramo do comércio e exportação de grãos.
    Desci até o restaurante do hotel e dirigi-me a uma mesa que estava vaga. Queria comer alguma coisa. O que fora servido no avião apenas enganara o estômago.
    Quando ia sentar-me à mesa, uma moça que estava acompanhada de um japonês baixinho passou por mim e sentou-se à mesa que ficava bem perto da minha. Sentou-se de forma que ficava bem de frente.  O japonês que a acompanhava pareceu-me meio constrangido, quando ela olhou para mim e sorriu.
    Seria aquela loira mais uma garota de programa, muito comum na cidade e que atendia a clientes seletos, mediante um contrato prévio? Quando eu era jovem, as prostitutas ficavam radicadas em casas próprias, especialmente em dois bairros da cidade e atendiam à noite e sempre às escondidas. Com o passar do tempo, o modo de atender a clientes ficou sofisticado.
    Hoje elas assumem abertamente sua condição de prostitutas, porém com uma denominação diferente: são garotas de programa ou acompanhantes. Na internet veem-se milhares  de mulheres que se oferecem como um produto a ser consumido.
    O garçom que me atendeu chegou a insinuar que se eu quisesse poderia mandar vir igual ou ainda mais bonita que aquela.  Agradeci de forma delicada, pois preferia eu mesmo escolher as mulheres com quem eu me relacionaria.
    Durante o jantar, regado de um bom vinho, eu viajava e procurava imaginar a esposa do amigo Luiz. Ainda me lembrava quando ele me havia apresentado sua noiva. Ela chamava a atenção por onde passava e ele, coitado, morria de ciúme e muitas vezes ficara irritado com os olhares gulosos  daqueles que a olhavam .
    Depois do jantar fiquei algum tempo observando o movimento do restaurante, enquanto o pensamento ia e vinha  e sempre voltava à cabeça a figura da namorada do Luiz. Ela era realmente uma obra-prima.
    Após folhear uma revista, dirigi-me ao apartamento e depois de algum tempo adormeci.
    Ainda bem cedo, saí pelo centro da cidade, fiz um lanche no "Café Central" e fui resolver algumas pendências para depois  pegar um táxi e ir ao Tribunal.
    Em minha passagem por lá, encontrei alguns colegas que já não via há muito tempo.  Voltei ao hotel onde, após trocar de roupa, resolvi sair para almoçar. Só iria encontrar-me com o Luiz à noite. Ele tinha diversos compromissos que haviam sido agendados e não poderia receber-me antes. Se eu tivesse avisado antes,  ele não teria marcado tantos compromissos para aquele dia.
    Logo após o almoço saí novamente para resolver o restante do que  eu havia agendado para o dia, durante minha estada na cidade.
    Eu entendia, pois sabia que não podemos deixar passar uma boa oportunidade de negócio.  A hora do jantar seria o tempo ideal, pois após este, teríamos tempo para conversar, sem o inconveniente de sermos interrompido. O ambiente de um lar é bem mais agradável  do que o de um escritório.
    Às quatro horas, ele ligou-me para cobrar minha presença em sua casa às dezenove horas e, segundo ele eu não poderia atrasar-me. Depois de repassar  novamente o endereço, disse que  me estaria esperando.
    Mais tarde, quando saí do elevador, pensando em ir ao encontro marcado, já passava das  18 horas. Pedi ao porteiro que chamasse um táxi, avisando-o que só voltaria bem tarde, pois tinha um compromisso naquela noite. Ele sorriu com certo ar de malícia, talvez imaginando que eu pudesse estar saindo com alguma garota de programa.
    Não me importei e ignorei o fato e apenas esperei o táxi, que logo chegou. Entreguei ao motorista o endereço que desejava e ele partiu. Aquele motorista parecia ser mais solícito e inteligente que o outro, pois fazia questão de conversar. Ele era muito tagarela para  meu gosto e parecia querer mostrar que entendia de tudo.
    Naquele momento  eu estava para pouca conversa e apenas aquiescia com a cabeça e respondia:
    - É mesmo? Puxa!
    O táxi  parou, paguei e somente vi a casa aonde eu ia quando saí do carro.
    O sobrado que era localizado em bairro considerado nobre da cidade, tinha linhas arrojadas e demonstrava que o proprietário deveria ser uma pessoa de posses. Acionei o interfone e uma voz feminina atendeu:
    -Quem é?
    Identifiquei-me e disse  que queria falar com o Luiz.
    Ela, depois de ouvir-me, respondeu:
    -Um momento, por favor. Ele falou-me  que o senhor viria.
    Momentos depois uma mulher de mais ou menos quarenta anos, já um pouco obesa, cabelos curtos, de tez morena, abriu a porta e solicitou que eu entrasse ao mesmo tempo em que me indicava um lugar para sentar-me.  No instante em que entrava e dirigia-me à sala, meus olhos percorriam todo o ambiente e analisava  cada espaço e sua decoração, enquanto era guiado pela  mulher que deveria ser a governanta da casa.
    Sentei-me num sofá e ela se colocou a minha frente como se estivesse fazendo sala e iniciou um diálogo da seguinte maneira:
    - Meu marido pediu para esperar alguns minutos enquanto ele chega, pois surgiu um imprevisto no escritório.
    Quando ela se referiu ao Luiz como seu marido, meu pensamento foi longe e um pouco sem jeito, respondi:
 -Não se preocupe, tudo bem.
    Quando falei, queria apenas dizer que a maior preocupação era minha, embora não pudesse demonstrar.
    Olhei discretamente a mulher que se identificou como sendo a esposa do Luiz e disfarçadamente fui analisando aquela matrona, feia e sem graça. Isso eu fazia enquanto íamos conversando.
    Após algum tempo, a campainha tocou. Agora eu sabia que iria reencontrar o amigo de muito tempo.
    O Luiz não havia mudado muito. Apenas alguns cabelos grisalhos  começavam a aparecer .
    A alegria foi grande e ele, como sempre  muito atencioso, me apresentou à esposa e levou-me a cada canto da casa, para mostrar a residência em todos os seus detalhes.
    Após o jantar e um delicioso café, fomos à biblioteca, onde ele pretendia falar-me algo.
    Entramos, ele pediu-me que me sentasse e antes que eu falasse qualquer coisa, ele começou:
    - Achou estranho alguma coisa?
    -  Sim lhe respondi, eu  imaginava você casado com aquela loira.
    Antes que eu pudesse falar mais alguma coisa  ele começou a pôr para fora o que parecia estar dentro de si louco para sair.
    "Você sabe que eu sou muito ciumento, por isso eu vivia angustiado olhando para os lados para ver se alguém estava desejando minha noiva. Acordava e ia dormir preocupado, morrendo de ciúme, com medo de ser passado para traz.
    Um dia notei que ela correspondia aos galanteios de um engraçadinho, então resolvi de uma vez por todas mudar a minha vida e o meu modo de me relacionar com as mulheres. “Acabei o noivado e, um ano depois, estava casado com a mulher que você conheceu hoje”
    - Mas você sempre gostou de mulher bonita e sensual...Retruquei, preocupado em ele achar ruim por não ter achado sua mulher bonita.
    - Sim e ainda gosto.
    - Como? Perguntei. Naquele momento eu começava a conhecer um novo Luiz.
    "Como lhe disse, ainda continuo a gostar de mulher bonita e nunca dispenso uma. Eu apenas me casei com a Mariana porque eu precisava de uma esposa dedicada e em quem eu pudesse confiar sem ter que ficar com ciúmes. As mulheres lindas sejam loiras ou morenas, eu busco fora de casa. Não tenho ciúmes da minha mulher e ela cuida de tudo que preciso".
    Ele fez uma pausa  e foi neste momento que inquiri.
    -Ora, você deste modo não está agindo direito.
    Ele sorriu e continuou colocando  sua filosofia de vida.
    -O casamento hoje é igual à política.
    -Como? Não entendi.
    - Ora, eu tenho uma mulher em casa, que embora feia é fiel. Fora de casa eu tenho todas as gatas que quero, sem nenhuma preocupação, porque a  única coisa que elas desejam é o pagamento por um programa completo.
    - E que relação isto tem com a política? Perguntei.
    Então ele pediu que prestasse atenção e  recomeçou o relato.
    "O candidato a presidente procura um vice nos partidos fortes, porém estes se recusam a aceitar o convite, alegando independência. Então ele compõe com um partido pequeno enquanto corteja os grandes com agrados e afagos. Os partidos que não compõem com o governo legalmente, ainda assim continuam a apoiá-lo e se portam como prostitutas de luxo.
     Estarão sempre ao lado do governo enquanto lhe for conveniente, podendo ainda  criticar ou mesmo fingir se ofender tentando com isso mais privilégios".
    Ele parou novamente e então eu disse:
    -Agora estou entendendo aonde você quer chegar.  Estamos vendo no atual momento político nacional isso que você expõe, concluí.
    Ele, novamente, encheu o peito e satisfeito do jeito que estava com a situação arrematou:
    "Exatamente isso, sou casado com uma mulher que embora feia é fiel. Tenho uma família e, sempre que quero, tenho mulheres lindas a preços módicos. Existem milhares de prostitutas de luxo, dispostas a fazer aquilo que a minha mulher não faz. No atual momento político, o PMDB não se aliou legalmente com o governo, com medo de este perder e não fez aliança com  outros partidos,  ficando livre para  cooptar (copular) com quem vier a ser eleito. Ficam em cima do muro e se aproveitam  de governantes venais que queiram se aproveitar de seus votos no congresso".
    Quando ele concluiu seu raciocino, sorri e disse-lhe:
    - È, você tem razão,  hoje acontece exatamente isso.
    Continuamos a conversar por mais algum tempo e, quando passava das 11, despedi-me e peguei o táxi que ele havia chamado.
    Quando cheguei ao hotel, o atendente da portaria sorriu e perguntou-me:
    -Tem certeza de que não quer uma companhia para esta noite?Posso lhe arranjar uma.
    Eu, então, respondi-lhe:
    -Por que não?
    Tomei um banho demorado e quando me dirigi ao quarto lá estava ela, deitada sobre a cama, praticamente nua, linda, sorridente e disposta a satisfazer todos  meus desejos.
    Afinal era essa sua profissão: Uma prostituta de luxo.




24/06/06


Vanderleis Maia
Enviado por Vanderleis Maia em 26/06/2006
Reeditado em 26/09/2015
Código do texto: T182862
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Sobre o autor
Vanderleis Maia
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