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Dialogo

 Dialogo

- Claro que entre nós existem diferenças. Isso é óbvio. Tão óbvio quanto? Tão óbvio que? - Não é isso que quis dizer? Não quero confusão, de forma alguma, quero fazer as pazes com você, quero te-lo do meu lado. - É exatamente esse o problema. O grande "x" da questão, estar ou não ao seu lado. Você é tão diferente de mim como eu já disse. - Mas diferente como? -Ah, hum, ah, quem sabe? - Vou saber? - Deveria! - Por que? - Oras, por que. Por que sim e pronto. Ainda pensando nas diferenças. Ainda pensando. Quais são os lados? Quem está cá? quem está lá? Um brilho ofuscante cobre meus olhos, que estavam acostumados já à penumbra eterna. A real irracionalidade humana, percorrendo os veios mais profundos de minha mente. Eu penso? existo? existo por pensar ou penso por existir? ou estou simplesmenye sonhando? não, isso seria um sonho. Utópico demais pra minha mediocridade pessoal. Pensar ser capaz de criar um mundo amplo quanto o que vivo, se isso fosse um sonho eu queria acordar, queria ser capaz de usar essa construção no mundo real. Mas eu penso? Em que? No dia que nada teve de especial, no dia que morri hoje. é morri, vinte quatro horas perdidas. Ou melhor, nem tanto, quem sabe alguns minutos foram aproveitáveis? Quem sabe minha inutilidade latente foi útil pra alguma pobre criatura, pobre mesmo para ver utilidade em algo como eu. Não tive sobre minhas mãos nem a eterna ampulheta, que grão por grão faz com que a vida corra, a cada momento mais veloz. A cada momento mais útil, ou seria inútil? - Pronto, encontrei a diferença basica entre nós. - e qual é ela? - Eu não sou assim. - Assim como? - Eu não sou inútil, eu sou na verdade muito importante, eu sou uma peça chave e tudo o que faço da certo. - É mesmo. Você vive, eu não, morro. - Morre? -É, morro. E você não é útil, você é um idiota. - Idiota? Por que idiota? - fora de si, buscando o pescoço - Por que se acho a última balinha do pacote. - eu não acho... - Perde. - Seu... - Idiota de marca maior. - Não tire as palavras da minha boca. - Sua boca? a boca é minha! - Minha! - Não minha. - Minha. - Seu desgraçado, a boca é minha. - então fala enquanto estou falando - o que? - fala enquanto estou falando! - a boca é minha (sua o caralho), eu sou o dono dela, eu vi primeiro. Viu o que? a boca! somos cegos seu idiota. idiota é você. realmente, muito prazer. Não você não é idiota. Você é quem disse! não, foi a sua boca quem disse. Não te falei? a boca é minha! Silêncio no quarto escuro, a luz, que sozinha acendeu-se na solidão da madrugada agora apaga-se. A criatura, que brigava consigo mesma, ou quem sabe, com uma personalidade alienigena, ou quem sabe, uma dupla, tripla, quadrupla, infinita personalidade está estática sobre a cama, os lençois cairam no chão, o sangue escorre, como o mar, vermelho sob a luz do poente. A verdade não foi aceita, e sua lamina, mais afiada que a mais afiada das mais afiadas facas, do mais profissional, do mais mais açougueiro, a faca. Que faca, a faca da verdade, cortou as veias inúteis de um inútil que pensava ser útil sendo inútil.
Julien Mayfair
Enviado por Julien Mayfair em 27/06/2006
Código do texto: T183406
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Sobre o autor
Julien Mayfair
Goiânia - Goiás - Brasil
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