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QUEM VEM COMIGO?


        Um dia destes, igual como a qualquer outro, estava eu caminhando pela rua, sem compromisso. Voltava do meu trabalho, balançando a bolsa despreocupadamente, tudo tão simples, tudo tão dentro do seu espaço. Eu sabia que quando chegasse em minha casa, encontraria as coisas no seu devido lugar e ligaria a televisão e veria os mesmos programas, mais tarde comeria a mesma coisa na minha eterna dieta em que comer um chocolate significa pecado grave.
Talvez fosse uma vida algo vida monótona, mas eu não estava à beira de uma depressão pela minha rotina não alterar nunca. Seguia eu sempre os mesmos passos, os mesmos caminhos, os mesmos pensamentos. Nem amores em cada esquina eu procurava mais porque eles também sempre eram os mesmos, com as mesmas desculpas, as mesmas conversas e, por fim, as mesmas partidas. E também eu já abria a porta para que eles se fossem, sem que eu ficasse chorando com a cara enfiada no colchão, planejando uma vingança ou um assassinato. Tudo corria tão solto e tão calmo em minha vida que eu me peguei, de repente, sentindo falta de uma tensão nervosa.
Será que todos sentem falta disto alguma vez na vida? Movimento e crises? Vejo as pessoas desejando paz por viverem uma vida estressante, onde tempo para amigos e família não existe. E na minha própria vida, de repente comecei a sentir falta de algo que me movimente, que me faça reagir a uma existência ainda sem significado e sem objetivos. E me pego perguntando: destes que cruzam comigo aqui na rua, com seus semblantes tão fechados, quantos destes não gostariam, na verdade, de desaparecer e começar tudo em outro lugar? Tudo novo outra vez?
E eu fui caminhando para casa, já sentindo uma pressão no peito, minha bolsa ficou pesada de repente. O que estava eu fazendo da minha vida que não a transformava em algo novo a ser vivido? Por que não me atirava de cabeça novamente em alguma paixão, mesmo que algum tempo depois eu me acabasse chorando? Ou então, trocava de emprego e iria fazer alguma coisa que fosse interessante, que valesse a pena acordar às seis horas da manhã num inverno chuvoso, mas que fosse gratificante, não pelo salário no final do mês, mas pela minha própria vida? Por que? Por que? Por que era tão difícil tomar uma atitude quando tomar uma atitude poderia representar também a busca pelo que sempre se amou?
Acho que foi por isto que cheguei em casa quase chorando. Porque quando visualizei minha sala e vi aquelas cores neutras tomando conta de tudo, pensei que seria bem melhor pintar meu apartamento de verde limão ou atirar todos os móveis pela janela e comprar tudo novo. Eu só precisava recomeçar de algum ponto. O problema era de que ponto. Deve ser por isto que tantas pessoas sentem depressão, imaginei eu, andando pela casa, fazendo mentalmente a lista das coisas que iriam pro lixo. O recomeço, tentar repensar a própria vida é algo tão impactante que parece nos jogar de encontro a uma parede de aço inoxidável. Sair dos trilhos que criamos para nós mesmos e preparar mudanças deixa qualquer um zonzo. E isto deveria ser tão fácil e estimulante.
E antes que eu desejasse que um disco voador aterrissasse em cima do meu prédio e surgisse um extraterrestre de 1.90 cm de altura que me abduzisse e me levasse para planetas paradisíacos, resolvi deixar minha vida sem graça de lado e tomar outro rumo antes que eu sucumbisse em uma existência demasiado pacífica. E quem quiser viver, que venha junto comigo. Nunca é tarde demais.

Patrícia da Fonseca
Enviado por Patrícia da Fonseca em 04/07/2006
Código do texto: T187686
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Sobre a autora
Patrícia da Fonseca
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 46 anos
572 textos (37900 leituras)
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Patrícia da Fonseca