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MINHA POBRE RICA VIDA


        Aluguel em vias de atrasar. Meu chefe me enchendo o saco para cumprir prazos e metas. Minha melhor amiga me conta que o Cris foi visto numa festa de agarramento com uma loura. Para finalizar o quadro de tragédia e caos, minha menstruação estava atrasada em cinco dias. Cinco dias! E o pior que havia a possibilidade de o pai não ser o Cris. O que mais podia acontecer?
Foi por isto que num lance de desespero, joguei na Mega Sena com os últimos trocados que eu tinha na carteira. Só joguei seis números e fosse o que Deus quisesse. Misturei as idades com os dias de nascimento dos meus irmãos e pais e era isto. Se eu acertasse a quadra já estava bom. Qualquer miséria que entrasse na minha conta corrente já me encheria de alegria.
Acho que foi por isto que surtei quando fui conferir os números e vi que tinha acertado a Mega Sena. Os seis, na mosca. Tudo bem que fôra eu e mais cinco sortudos. Mas eu agora estava rica. Rica! Antes de desmaiar, já havia conferido trocentas vezes. Sim, eu havia acertado mesmo. Quando peguei o telefone para ligar para uma agência de viagens para reservar uma passagem só de ida para a Polinésia foi que desmaiei. Acho que acordei meia hora depois, toda dolorida e com um galo na cabeça. Nada que meu dinheiro não pagasse. Lipo na barriga, silicone nos seios, um cabelo decente... Não existe mulher feia, só existe mulher pobre. Por enquanto eu era uma rica feia. Mas imagine como eu não estaria dali a um mês? Hein?
Quando o interfone tocou, fui até a janela ver quem era. Ahá! O Cris! Nem abri a porta. Ele que ficasse com a loura, porque agora o meu negócio era outro. Estrelas de cinema, grandes executivos. Chega de homem pobre, que não te paga o cinema e nem o X-bacon no trailer da esquina. Adeus, Cris. Felizmente, com o susto, minha menstruação desceu. Fiquei sentada no sofá, fazendo listas do que eu iria comprar, do dinheiro que deixaria para minha mãe e planejando minha viagem de ida para a minha Polinésia paradisíaca. Adeus, mundo cruel. Adeus, aluguel. Adeus, Cris. Adeus, chefe idiota. Fui.

Voltei. Não fui para a Polinésia paradisíaca. Fui parar aqui perto, nas Bahamas. Passei dois meses torrando no sol, dançando na areia com homens que nunca vi, dormindo com estes mesmos homens que nunca mais vi. Pensei que me divertia, fiz força para me divertir, misturei-me com pessoas que achei que seriam boas para mim, mas cheguei a conclusão que dinheiro não compra tudo o que a gente pensa que compra. Pelo menos voltei loira e de cabelo liso. Acho que foi a única diferença em mim. No mais, quando pus os pés no aeroporto, já em terras brasileiras, dei-me conta que voltei a mesma mulher. Não conheci estrelas de cinema e nem altos executivos. Não era a felicidade em pessoa só porque fiquei dois meses bancando a vagabunda em um lugar que ninguém me conhecia e porque voltei loira e com o cabelo chapado. Aliás, nem fiquei bem assim... Com o cabelo crespo e castanho eu era bem melhor. Agora estava na hora de eu começar tudo de novo. Menos mal que eu não havia torrado tanto dinheiro. Meu pai me forçara a guardar quase tudo na poupança, já prevendo que eu iria enlouquecer nas Bahamas. Bem, cá estou eu. Rica e sozinha, sem ter por onde começar. Às vezes sinto falta da minha vida de antigamente. Mas ser pobre de novo... Ninguém merece.

Patrícia da Fonseca
Enviado por Patrícia da Fonseca em 09/07/2006
Código do texto: T190578
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Sobre a autora
Patrícia da Fonseca
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 46 anos
573 textos (37925 leituras)
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Patrícia da Fonseca