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Linha Cruzada

      Acordara determinado a contá-la! Esbravejaria a intensidade, quase doída, dos sentimentos acorrentados no peito. Desmentiria qualquer intriga repleta de maléficas intenções. Contaria, com detalhes, todos os arrepios sentidos na espinha no mais leve toque de seus lábios. Ah, sim, mostraria a importância de cada abrir de olhos ao seu lado. Lembraria situações hilárias que, na cabeça dela, ele julgaria descartáveis. Mas não! Recordava-se de tudo com invejável realismo. O disfarce frio, por mais espontâneo que surgisse, não fazia justiça a sua personalidade. Hoje ela saberia de tudo! Abriria o carinho da alma e esquentaria sua face em seu peito, deixando-a sentir a pressão avassaladora dos batimentos.

      Mostraria as fotos que moldaram a felicidade dos passos, apontando o sorriso cheio de esperança no futuro a dois. Leria, aos berros, as cartas de amor trocadas, intercalando trechos sublimes com sorrisos de canto de boca. Sentia-se forte, motivado, imponente, bonito, apaixonado. Planejariam as próximas viagens, preservando segundos de silêncio entre as trocas de olhares a cada pesquisa feita. Praia ou serra? Diriam ao mesmo tempo, com absoluta convicção, que qualquer lugar seria ideal quando estivessem juntos.

      Mentiriam aos amigos o real destino de suas aventuras, permitindo que o exílio evitasse interrupções indesejáveis. Arrancariam as baterias de seus celulares e as arremessariam, com evidente desprezo, sobre as peças de roupas espalhadas pelo quarto. Ele confessaria a ela que todos os seus defeitos acabavam por seduzi-lo, talvez pela espontaneidade dos gestos ou simplesmente pelo fato de desejá-la a todo instante. Ela pediria a ele que se calasse e a beijasse sem pensar. Ambos aceitariam a condução de seus destinos de mãos entrelaçadas. Havia chegado o momento de serem felizes e ele precisava dizer isso a ela!


      Puxou o telefone, quase arrancando o fio da parede, e discou. Esmagava os números enquanto respirava ofegante. A cada chamada seu suor mostrava-se mais evidente e sua boca insistia em tremer. Muitos toques depois percebeu a insignificância de seu gesto quando não correspondido. Desligou desolado e voltou para a cama. Tentou, sem sucesso, controlar a gota salgada que falecia por sua face. Sentiu-se miserável por apaixonar-se por uma estória com personagens sem rostos, criada por ele mesmo para compartilhar o vazio que sentia.

      Guardou a lista telefônica repleta de nomes riscados embaixo da cama e cobriu-se, torcendo pelo sucesso do próximo número.

      Desta vez, a cobrar.
Felipe Valério
Enviado por Felipe Valério em 10/07/2006
Reeditado em 07/03/2007
Código do texto: T191290

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Sobre o autor
Felipe Valério
São Paulo - São Paulo - Brasil, 37 anos
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Felipe Valério