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Verdades mágicas

        “Algo tão pequeno como o simples vôo de uma borboleta pode causar um tufão do outro lado do mundo.”
Tudo o que existe no Universo está, de certa forma, interligado. É como uma orquestra: para a melodia sair perfeita, é preciso que todos os instrumentos estejam em sintonia. Somos os músicos, buscando a verdadeira beleza e caminhando à perfeição da canção final.

Regina era uma daquelas pessoas que provocava admiração nas mulheres e certo medo nos homens. Os cabelos pretos iam até a altura do ombro, emoldurando um rosto, não muito delicado, mas surpreendentemente simétrico. Os olhos eram verde oliva, de uma sinceridade inquietante.
        Segundo o hábito, chegando ao seu apartamento no entardecer de uma segunda-feira, sua primeira ação ao abrir a porta foi descalçar os sapatos de salto agulha para pisar no tão estimado tapete marroquino.
Foi tomar banho, murmurando um mantra ensinado pelo professor de yôga. Era adepta de qualquer prática ou seita que lhe trouxesse o equilíbrio mental. Sabia agora, aos 36 anos, que a força vital vem da paz interior.
E nada, naquele dia em que fora promovida, conseguindo a gerência central do banco, cargo a que almejara por tanto tempo, iria tirá-la da satisfação de estar completa! Finalmente...  ela sabia que não estava sozinha, ninguém está, em momento algum! Mas a comemoração foi silenciosa, sem abraços, nem exclamações de parabéns.
Saiu do banho só de toalha, ainda se concentrando no mantra, e gritou, quebrando o estado de meditação em que mergulhava todo o apartamento:
- Socorro! Meu Deus do céu, o que é isso?... Droga, eu não grito há dois anos, fiz um juramento! Socorro...
- É você! É você! – disse um belo rapaz, com os olhos refletindo toda a emoção por encontrá-la.
- Olha, eu não sei se sou eu... mas sei que você está de sapatos em cima do meu tapete! E não olhe para mim! – disse, escondendo-se atrás das cortinas brancas.
- Oh, oh... ele é como imaginei! Que traçado delicado e firme ao mesmo tempo... você tem muito bom gosto, Verônica! – ele estava ajoelhado no chão, analisando artisticamente o tapete.
- Ele é realmente maravilhoso, veio de Marrocos... presente de casamen... bom, esqueça! Verônica? Oras... meu nome é Regina Nunes e acho que está na casa errada e, aliás, devia bater antes de entrar!
- Eu sei, desculpe-me. Eu a chamei, mas você estava no banho, não é?
- Tenho que perder o costume de acreditar no bom senso das pessoas e começar a trancar a porta! – dizendo isto, desenrolou-se do tecido da cortina e apanhou um caderninho de capa azul, anotando o que tinha acabado de dizer.
A essa atitude dela, o estranho agiu de maneira inesperada. Abriu a boca, num gesto de espanto, soltando um grunhido sufocado.
- Isto existe mesmo! Deixe-me ver... – e correu na direção dela, tomando o caderninho de suas mãos.
- Devolva, só eu leio isso! É inútil para você! – e, consciente do ridículo daquela situação, puxou-o das mãos dele, mas ele era persistente e não soltou.
- O que está acontecendo aqui, senhorita? – era o síndico, Dr. Marques, estranhando o comportamento de Regina, sempre tão contida.
Surpreendidos pelo homem, eles deixaram o caderninho cair, ao que ela logo reagiu, abaixando para pegar. Quando se levantou a toalha desprendeu-se de seu corpo, revelando uma nudez pálida.
- Estou decepcionado com a senhorita! – declamou o médico e militar, estando à frente de vários moradores do prédio, que tinham ouvido os gritos da luta pelo caderninho azul. – Vá se vestir e você, senhor, retire-se daqui!
A essas palavras, Regina despertou da paralisia que a vergonha lhe causara e correu para o quarto, com as lágrimas a rolarem pela face rubra.
- Quem é ele? Quem é ele para entrar na minha casa, sujar o meu tapete, quebrar meu juramento de falar baixo, manchar minha reputação com os vizinhos e ainda querer espionar meu caderninho? Será que ele ficou aqui o tempo todo em que estava tomando banho? Será que me seguiu o dia todo? Eu odeio isso, odeio estar em dúvida... a dúvida é inimiga da serenidade! Sou uma mulher bem-sucedida, forte, equilibrada... isso, equilíbrio é a chave da felicidade... sou feliz... sou? É claro que sim, sou gerente agora... a fonte de luz e energia está dentro de mim e posso viver assim, dentro da ordem sempre!
Tinha parado de chorar. Na verdade, não fora um choro, apenas algumas lágrimas tinham escapado daqueles olhos tranqüilos, que transpiravam a mágica da paz interior. Era assim que ela pensava, embora não conseguisse fitar os olhos de sua imagem no espelho.
Respirou fundo, vestiu o pijama de seda e preparou-se para dormir. Havia muitas almofadas em sua cama. Ela tinha verdadeira paixão por almofadas, talvez por questão de beleza ou decoração, talvez por preencherem espaço. Não estava com fome, não sentia fome... e julgava que esse fato estava ligado à prática da meditação.
Ligou a televisão, como raramente fazia. Preferia ler algo sobre teorias budistas, mas a família do apartamento do andar de cima resolvera fazer um karaokê e não conseguiria se concentrar.  Em plena segunda-feira? Mas naquele dia ela não estava em condições de reclamar...
Aumentou o volume e assistiu ao telejornal local. A última notícia era a respeito de uma escritora, Lia Guedes, que falava sobre seu primeiro livro, “Verdades absolutas”, que, segundo o repórter, estava fazendo o maior sucesso.
Regina sentou-se na cama à menção do título. O rosto da escritora não lhe era estranho, mas estava sem as lentes de contato que corrigiam a deficiência grave de visão e não deu ao trabalho de colocá-las. A escritora estava mostrando sua obra, de capa azul turquesa, com letras garrafais. Não era, no mínimo, incomum que aquele livro tivesse o mesmo título de seu caderninho de conselhos? E que ainda fosse azul? Coincidências... afinal de contas, o tom de azul do livro era berrante, enjoativo... não como o azul calmo e tranqüilizador do seu caderninho...
Deitou-se de novo. Amanhã tudo voltaria ao normal. Sem invasores e sujeira no tapete. Quando estava quase pegando no sono, ouviu a escritora dizer alguma coisa sobre sua personagem, Verônica.
- Já estou ouvindo demais, chega! – desligou a televisão e voltou para debaixo do cobertor, murmurando – Estou serena, em paz, o silêncio entra em minha alma...

Guilherme Silva, à primeira vista, era um rapaz comum. Cursava o último ano da faculdade de Letras e tinha verdadeira obsessão por literatura, de qualquer espécie e de todas as línguas. Falava, além de português, mais seis idiomas: inglês, espanhol, alemão, francês, italiano, japonês, sem falar no mandarim.
O mundo dele era o dos livros, o dos guerreiros medievais, o das personagens fantásticas. Enfim, vivia por isso e para isso. Não tinha muitos amigos e os que tinha, possuíam certa relação com a literatura.
A família não o apoiava na escolha da profissão. Os pais não queriam que ele fosse um professor, mestre ou mesmo doutor em literatura, mas um advogado renomado e conhecido pela carreira brilhante.
E essa era mais uma razão para se isolar na atmosfera mágica que encontrava nos livros. Quando não estava na república de estudantes ou na faculdade, encontra-se numa biblioteca ou em alguma noite de autógrafos de um dos tantos escritores que idolatrava.
Sua mais nova paixão era Lia Guedes. Ela tinha um estilo contagiante, personagens que encantavam, era o que ele achava. Guilherme também assistiu à entrevista da nova escritora no telejornal e consultou, no exemplar que, apesar de novo, já estava gasto devido às cinco vezes que fora lido, aquele endereço.
Tinha ido ao lugar certo, encontrara o tapete, o caderninho... mas por que Regina? Era Verônica! Tinha certeza... Verônica Dias! Será que Regina o enganara, era uma impostora? Não, não... ela estava assustada demais para fingir...  e outra coisa, o desfecho de “Verdades absolutas” era triste e melancólico, relatando a depressão e depois a loucura de Verônica e não era assim que Regina estava.
- Não, Guilherme, isso não é vida real! É só um endereço que a escritora escolheu aleatoriamente e, sem experiência (pois foi seu primeiro livro publicado), selecionou um apartamento que realmente existia, fazendo com que sua verdadeira moradora sofresse a infelicidade de ser visitada pelo leitor obcecado e louco!
- Não pode ser só isso. Tudo bem, mas e o caderninho azul, o tapete, o apartamento é idêntico à descrição da autora! Não é possível ser a minha imaginação... não sou tão maluco assim... já sei... e se Verônica for um pseudônimo, Lia decidiu ocultar a verdadeira identidade da personagem, que é real, para não causar problemas para ela, não é?
- Então por que revelou seu endereço?
- Oras... não me incomode! Lia Guedes é a minha deusa e vou idolatrá-la sempre porque consegui encontrar seu mundo encantada e sua personagem doida... sempre sonhei com que isso acontecesse!
Essa não foi uma conversa normal e sim, um monólogo pouco antes de Guilherme adormecer, concluindo que não adiantava lutar contra o ser que vivia no mundo paralelo das histórias, era mais forte que ele. E o ser que tentava puxá-lo à realidade era fraco e não muito convincente.
Guilherme acordou sobressaltado. Eram quatro horas da manhã. Seu colega de quarto estava dormindo, não podia acordá-lo, pois senão teria que explicar-lhe toda aquela história, na qual certamente ele não acreditaria.
Pegou algo no bolso da caça jeans que usara durante o dia e encaminhou-se ao banheiro. Sentou-se no chão, respirou fundo e abriu o pedaço de papel destacado do célebre caderninho azul. Como se esquecera? Estava tão eufórico com o que acontecera no dia, que nem lera o papel.
- “Eu tenho poder. Eu faço a minha história. Tenho, nas mãos, a mágica de mudar qualquer coisa pré-estabelecida”. – leu, dando a cada palavra uma ênfase especial, sorvendo o sentido de todos aqueles acontecimentos, não era ela, era ele, ele é quem estava predestinado a ajudá-la.
Lembrou-se da noite de autógrafos de Lia. Quando ela foi autografar seu livro, disse que via nos olhos dele a expressão de quem sabe que o mundo não é só isso, que existe muito mais e que as coincidências não existem.
Sua deusa sabia, estava preparando-o para a missão de salvar Verônica ou Regina e mostra-lhe a luz. Tinha que agir e rápido, Regina tinha que mudar a história e usar a sua mágica e ele tinha que devolver aquele papel, pois a vida dela dependia daquelas palavras.
“Verônica tinha dependência doentia por aquele caderno encapado de azul. Relia-o toda manhã e à noite acrescentava algo às suas páginas gastas. Ninguém, a não ser ela, o tocava”.
Guilherme se lembrou desse trecho do livro. Sua missão já começara, a vida de Regina estava agora em processo de transformação, porque ele já tocara no caderninho e poderia fazer muito mais.

Regina espreguiçou-se à entrada do sol pelas janelas. Saldou o dia e levantou-se para preparar o café da manhã. Não comeu metade do que colocara na mesa e, como de costume, voltou ao quarto para abrir o caderninho azul. Sempre fazia assim, abria-o em qualquer página e lia um pensamento.
- Eu não acredito! – exclamou, fitando somente a margem da página que antes estava ali, impecável. Era justamente a folha que fora rasgada.
- Tudo bem, outra página – e leu – “Quando algo desequilibrar meu espírito, é preciso ir a um lugar, caminhando, que me traga paz e agradecer pelos infortúnios serem passageiros”.
- Você nunca me desaponta não é? – disse, sorrindo ao precioso caderninho.
Faria isso. Depois do primeiro dia como gerente central do banco, iria ao jardim do qual mais gostava e respiraria aquele ar por alguns instantes silenciosos.

“Pouco horas depois de Eduardo sair de casa, ela foi encontrada no Jardim das Margaridas, fitando o céu imenso. Era assim que se livrava dos problemas, sempre, refugiando-se dentro de si mesma”.
Guilherme, com as verdades que lhe eram absolutas nas mãos, lia mais um trecho e se emocionou mais uma vez. Ele também gostava daquele jardim. Aliás, fora ali que tinha lido boa parte do livro de Lia Guedes. Seria difícil encontrar Verônica (Regina) em seu apartamento ou no trabalho. Não o deixariam entrar no prédio e nem ela aceitaria vê-lo no banco.
E foi com grande entusiasmo que assistiu à entrada dela no jardim. Vinha majestosa, com aquele andar firme relatado no inicio do livro. Sentou-se a meio metro dele, num banco de madeira.
Logo choveria e ele resolveu se apressar. Foi se levantando, mas o pedaço de papel pertencente ao caderninho azul, escapou de suas mãos levado pelo vento, como que conhecendo sua dona.
Ela apanhou aquela preciosidade no ar, espantada ao ler as palavras que o fiel amigo azul a negara de manhã. Era para ser esta a mensagem, por que me mandou a esse lugar?Tudo bem, estou sentindo minhas forças se renovarem, estou...
Era ele! O doido, o perturbador da sua paz, o elemento que a desestruturava naquele momento! Não, ela não podia gritar, tentou ser educada:
- Você? Aqui?
- Bem, eu queria te encontrar, sabe... te mostrar umas coisas... e te devolver isso, o papel, parece que já está com você. Desculpe-me por ontem, mas é que...
- Tudo bem, agora me deixe em paz. O que aconteceu não passou de um dia ruim. Agora você vai pra casa e nunca mais vamos nos ver, ok?
- Mas preciso te fazer algumas perguntas e te esclarecer algumas coisas, sou eu quem tem que fazer isso, você precisa me ouvir, Verônica!
- Meu Deus, não sou Verônica Dias! Já disse, sou Regina Guedes!
- Dias? Disse o sobrenome dela? Eu não disse... leu o livro por acaso?
- Que livro? Você está me irritando, preciso ir embora, antes que chova!
- Por favor... você disse Verônica Dias! Nem Lia revelou o sobrenome de sua personagem na entrevista ontem, e eu gravei! Se você não leu o livro... como sabe?
- Oras, me veio esse nome na cabeça...
- Mas por quê?
- Se a personagem chama Verônica Dias é porque a escritora gosta desse nome, oras... e eu apenas pensei nele! Coincidências banais...
- Não existem coincidências, Regina Nunes! Muito menos, coincidências banais... você precisa ler esse livro e ver o que está fazendo com a sua vida e as conseqüências que essa conduta  lhe trará, está tudo aqui! – falou, quase gritando, estendendo-lhe o exemplar de “Verdades absolutas”.
- Primeira coisa, não levante a voz diante de mim e segunda, minha vida não está relatada em livro algum. Quem sabe um dia publicarei uma autobiografia... Mas ainda não! Adeus...
Mas, ao girar de seus calcanhares para ir embora, caiu o temporal. Péssimo conselho o do caderninho, que pela primeira vez a traía, ir a um lugar, caminhando, que lhe trouxesse paz. E agora? Tomaria chuva, como há anos não fazia, desde que abandonara Verônica Dias. Verônica Dias!
- Ei, moço! – chamou, voltando até onde ele estava – Vamos nos molhar de qualquer jeito, não é? Eu vou... bem... vou ouvi-lo! E se dê por satisfeito, porque faz muito tempo que não sento para ouvir as palavras chorosas de alguém!
- Sente-se aqui, está bem? E deixe-me falar primeiro, senhorita! Não queria perturbar seu equilíbrio, nem roubar seu caderninho azul e muito menos, macular seu tão amado tapete marroquino! Desculpe-me por ter invadido sua privacidade. Sou apenas um fã apaixonado de Lia Guedes e acredito que sou seu salvador!
- Salvador? E você que fez chover também, para me prender aqui e ouvir suas histórias malucas?
- Ouça-me... nesse livro, a sua vida é contada... fala sobre sua infância, adolescência e como está hoje. Eu não sei que relação você tem com a Lia. Mas ela é incrivelmente verdadeira na descrição de sua casa, de sua personalidade e de como você é fisicamente.
- Vou te dar um minuto para me convencer... -  ela disse, cravando os olhos verde-oliva nos deles, castanhos penetrantes.
- Era isso que você dizia a qualquer criança que te pedisse algo... você esperava o Príncipe Encantado e, já moça, gostava de bonecas. A música era essencial em sua vida, o piano era seu amigo inseparável. Sempre derramava algumas lágrimas ao ver alguém partir ou o pôr-do-sol. E pinta o cabelo. Na verdade, você é ruiva! E sempre teve vergonha das sardas no rosto, disfarçando com maquiagem. Separou-se há três anos e, desprezando qualquer ajuda, isola-se no trabalho e nos livros, nas teorias sobre paz interior, cortou o contato afetuoso com qualquer outro ser humano, perdendo totalmente a fé na amizade e no amor sinceros...
Regina estava fazendo uma coisa que prometera nunca mais fazer, estava chorando e suas lágrimas misturavam-se com a chuva. Nesses três anos, nunca conseguira atingir tamanha paz, um sentimento de cumplicidade com o mundo, com Deus... com Verônica!
Guilherme quis envolvê-la num abraço, mas desistiu da tentativa ao ver que ela segurava o choro e que os olhos estavam novamente impassíveis.
- É tudo verdade, não é?
- Estou... impressionada, não sei o que dizer... tudo se encaixa, eu posso fazer a minha história, tenho a mágica de mudar... e você tinha que me mostrar isso, não é? Tantas vezes Caroline tentou fazer isso... e eu não deixei...
- Caroline! – perguntou ele, sentindo uma ponta de esperança de entender aquela fusão de vida real e imaginação, de personagens e pessoas que existiam de verdade.
- Minha irmã! Ah, Meu Deus, Meu Deus, a Lia Guedes... moço, como se chama?
- Guilherme. Silva. – falou, perplexo, diante daquela confusão de nomes.
- Guilherme! – disse, com a voz embargada pela emoção – Lia Guedes e Verônica Dias são nomes artísticos. Quando Caroline e eu éramos adolescentes, sonhávamos com nossas carreiras: eu, com a de pianista e ela, com a de escritora.
- Ela é um gênio mesmo! – exclamou, maravilhado.
- Sabe, desisti do meu sonho por Eduardo! Ele não dava valor à arte da música e isso fazia com que brigássemos muito.
- Lia o menciona, várias vezes, como “o príncipe desencantado”.
- Pelo menos ela ocultou os verdadeiros nomes... mas como chegou até mim então? E por quê?
- Acho que Lia acreditava no destino, que alguém leitor obcecado fosse procurar pelo endereço que relata no livro. “Rua das Acácias, número 124, apartamento seis, segundo andar”. Era um jeito de chegar a você, eu acho.
- Verônica e Lia... Meu Deus! Há quanto tempo... e quanto tempo perdi, Guilherme! Obrigada por perturbar minha paz, sujar meu tapete e rasgar meu caderninho!
- É, você está mudando o fim da história. Aconselho que leia o livro e que não se zangue com Caroline... ela é uma boa pessoa!
- Eu sei, eu sei...
- Será que já cumpri minha missão? Será que satisfiz o desejo de minha deusa?
- Bom, eu não sei... mas com certeza serei outra pessoa daqui para gente... lógico que não vou mudar de uma hora para outra, mas posso começar... sabe como? Atirando esse caderninho azul naquela poça de lama, o que acha?
- Nãoooooo! Por favor, se vai se desfazer dele, me conceda a honra de guardá-lo, vou mostrar aos meus herdeiros a prova de que me encontrei com a personagem de Lia Guedes... ou Caroline Nunes!
- Tudo bem... – concordou – Acho que merece, mas não siga esses conselhos, tá? Você já é maluco o bastante – e gargalhou tão gostosamente que aquela cena fez com que se lembrasse da alegria vinda da primeira música que compusera, com aquele cheiro de chá de maçã que a avó lhe preparava e que Caroline odiava.
Ele também riu e ela sentiu a amizade que brotaria poucas horas mais tarde, quando, juntos, pisavam no tapete marroquino, dançando, com os pés enlameados. A paz que buscara nesse tempo vinha naturalmente, sem meditações e isolamento.
E ela sentia fome. Porque não estava sozinha. Foi à cozinha e preparou-lhes um jantar especial e redescobriu sua habilidade na cozinha e o prazer do paladar.
- Acho que estão faltando convidados para nosso jantar, Guilherme! A causadora de tudo isso! E seus filhos, meu sobrinhos queridos!
No mesmo instante, ligou para a irmã, que logo apareceu com um sorriso que mal lhe cabia no rosto. Abraçaram-se. Fazia três anos que Regina não demonstrava carinho alguém. Beijou as duas crianças, que a agarraram com saudades.
Depois, resolveram fazer um karaokê. Em plena terça-feira. Ela era feliz? Era, sim, porque simplesmente era feliz e tinha finalmente encontrado a sua paz.






Maria Flor
Enviado por Maria Flor em 13/07/2006
Código do texto: T193267
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Sobre a autora
Maria Flor
São João da Boa Vista - São Paulo - Brasil, 27 anos
30 textos (1143 leituras)
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