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A música das estrelas

Deitado na areia da praia há horas, nem se dera conta do céu extraordinariamente estrelado. Os pensamentos tão perdidos que nem se denominavam frutos de uma mente em atividade. Simplesmente, cortara relações com o mundo exterior.
No fim da tarde, crianças ainda de férias passeavam com suas mães, molhando os pezinhos na espuma branca. Cachorros, bicicletas, casais de namorados procurando uma Lua que, por algum motivo, resolvera se atrasar.
Ele, porém, fora indiferente para com tudo e todos desde que chegara ali, quando o sol já começava a se pôr. A diferença é que no momento em que se deitara na areia quente, sentia a cabeça latejar, um turbilhão de emoções o atingia. Se perguntassem, não saberia responder como chegara até ali, tal era seu estado.
Agora, porém, conseguira calar todas as vozes internas que antes gritavam ao mesmo tempo. As lembranças, tudo...
De repente, uma sensação de frio percorreu-lhe o corpo cansado de mais ou menos 25 anos. A maré subira. Despertando daquele sono voluntário e consciente, levantou-se como que assustado, olhando para todos os lados.
Teve uma leve tontura devido ao movimento brusco. Levou as mãos à cabeça, mas sentia-se estranhamente bem. Elevou os olhos a Lua, que agora sim aparecia, quando poucos espectadores desnorteados como ele a assistiam. Ou talvez nem tão poucos assim...
Hipnotizado pelo reflexo lunar na superfície da água, saiu caminhando depois de pegar a única coisa que o acompanhava, um antigo violão. Dava passos vagarosos, com a calma de quem não sabe para onde ir, mas com a certeza de que não seria mais fácil se soubesse.
Olhava para baixo, com o violão fazendo caminho pela areia molhada. Os pés afundavam e logo as pegadas se enchiam d’água, sendo apagadas, esquecidas como os pensamentos que outrora o inquietavam.
Via as luzes da cidade tremulando ao longe, pessoas saindo de festas, fazendo algazarra na rua. O som não chegava até ali, onde só a música das ondas se fazia ouvir.
Estatura acima da média, magro, cabelos metodicamente despenteados, roupas largas, pés descalços, olhos castanho-esverdeados inquietos, dedos e boca impacientes...
O vento, levantando a areia e salpicando-lhe gotas de água no rosto, impedia-o de avistar o outro lado da praia, as pedras onde terminava. Parou por alguns instantes, respirando aquela atmosfera de mistério.
Tinha necessidade de se cansar, de sentir-se vivo. Era como se a exaustão, com o vento, pudesse varrer de sua alma a angústia que ameaçava recomeçar. Tomado por um súbito impulso dado por uma rajada mais forte de vento, pôs-se a correr, com os olhos cerrados.
Uma sensação de liberdade inundou-lhe. Os pés mal tocavam na água. Seu peso não mais existia, as amarras que o prendiam a terra desapareciam. Os cabelos esvoaçavam, sentia o gosto salgado da maresia. Sorrindo, abriu os braços.
Não pararia por nada até que tivesse certeza do total esgotamento das forças físicas. O riso que estampava pareceria débil para aqueles que não compreendem a necessidade de buscar o ser humano na sensação de que se é nada.
Era impossível para ele precisar há quanto tempo corria. O tempo não existia, simplesmente fazia parte de uma existência tão longínqua quanto as estrelas. Mas de repente, seus joelhos dobraram-se.
Caiu, sentindo todo o seu ser esvair-se num espasmo de cansaço. Continuou ali, ajoelhado e com a cabeça junto a areia, em posição fetal. De seu modo, contente.
Voltando si, sacudiu a areia dos cabelos e olhou ao horizonte. O sol já começava a despontar. Depois, retraiu o olhar à praia, a maré já baixava, revelando um mundo colorido de conchinhas.
Contraindo os lábios numa expressão de indignação, procurou com os olhos algo que não admitia ter perdido. Era impossível tal distração de sua parte. O violão. Esquadrinhou novamente toda a área sua volta, só agora reparando na beleza da paisagem. Chegara às pedras e, sozinha lá em cima, uma garota o observava.
Sem cerimônias ou apresentações, subiu e sentou-se ao lado dela, permanecendo alguns minutos em meditativo silêncio.
- Foi você, não foi?
Ela não parecia disposta a falar com ele, muito menos a responder-lhe perguntas sem sentido. Franzindo a testa e olhando-a mais intensamente, insistiu:
- Você toca?
A interlocutora, abraçando os dois joelhos, continuou imóvel, com o olhar fixo no local onde ele caíra. Não devia ter mais de 20 anos, mas na pele clara do rosto se distinguiam marcas de tristeza.
Soltando um ruído de impaciência, ele desceu das pedras com medo. Disfarçaria para pegá-la no flagra, tocando seu violão. Mas quando ia dar o último passo à terra firme, caiu. Exatamente no mesmo lugar que antes.
Virou-se e viu que ela sorria, balançando a cabeça de um lado para o outro. Embora fosse sua desgraça o motivo do riso, ele sentiu uma paz como há muito não experimentava. Deixou-se ficar ali, vendo que ela descia ao seu encontro. Esquecendo que as mãos estavam cheias de areia, passou-as pelo rosto, tendo a sensação de aspereza.
Ela se aproximou para ajudá-lo, mas a desconfiança natural de sua personalidade o impediu de aceitar tal gesto. Afastando-a com certo cuidado, recompôs-se sozinho. A estranha, então, cruzou os braços, esperando que ele falasse ou fizesse algo.
Entretanto, a primeira atitude foi dela. Estendeu-lhe os dedos para o rosto, retirando a areia dos olhos e das bochechas. Ele, estático, procurou controlar o impulso de deter aquela mão invasora.
Avistou algo no mar, baixando a mão rapidamente. Olhou para ele, depois apontou a direção que chamara sua atenção.
- Não, meu violão!
E saiu desabalado na busca de seu tesouro, abandonando a nova amiga perplexa diante de tão inusitada situação. Por sorte, o instrumento não estava muito longe e ele, tirando a camisa às pressas, atirou-se em meio às ondas. Mas, em seu desespero, afastara-se do objeto de resgate, que era cada vez mais arrastado ao fundo.
De repente, engolia água e debatia-se, tentando gritar e chorar ao mesmo tempo:
- Socorro! Eu não sei nadar... meu violão!
Assistindo à cena lamentável, ela correu até o mar, arrependendo-se de ter saído de seu refúgio nas pedras. Ele estava submerso, mas logo conseguiu fazer-se socorrer. Ela abraçou-o, de modo a imobilizá-lo e o arrastou até a praia. A corrida e o esforço no frustrado resgate fizeram com que, embora consciente, descansasse a cabeça no colo de quem acabara de salvar sua vida. Adormeceram.
Quando despertou algumas horas depois, assustou-se à visão dela, mas logo tranqüilizou-se, recordando a paz daquele sorriso. Ela, abrindo os olhos, ficou a fitá-lo, depois disse suas primeiras palavras:
- Devia abrir os olhos para correr.
A principio sem entendê-la, sentou-se. Estava com fome. A cabeça rodava e ainda sentia a água salgada na boca.
        - Sua camisa está estendida na pedra, deu tempo de pegar.
- E o violão?
- Só dava para salvar um dos dois. Escolhi você.
Ele não respondeu, algo inexplicável o atormentava. Não tinha vontade de comer, embora sentisse o estômago vazio. Nem de beber, apesar da sede. Nem de pensar, embora inúmeros pensamentos viessem à tona.
Uma hora se passou em completo silêncio, apenas quebrado pelas pessoas que chegavam à praia, até que ele falou:
- Obrigado. Por ter me escolhido.
- Como assim? – estranhou ela, desembrulhado uma bala.
- Ter me salvado e não o violão.
- E o que eu ia fazer com um violão? Eu não toco como você achava.
- E o que vai fazer comigo?
- Você é sempre assim?
- Assim como?
- Oras... acho que eu deveria ter escolhido o violão!
Ele riu. No começo, era pelo lado cômico da situação. Mas depois, o riso se tornara magoado, como quando se sorri diante da lembrança de uma pessoa querida que não voltaremos a ver.
- Eu ia começar a aprender.
- Você é incapaz de dizer coisas com sentido?
- Aprender a tocar violão!
- Eu não acredito! Quase se mata para pegar um violão que nem sabe tocar?
- Foi de meu avô. Era a única coisa boa que trazia comigo.
- Eu vi quando caiu. Você abriu os braços de repente...
- Como sabia que eu estava de olhos fechados?
- Pra andar daquela forma, só assim. Ou estando bêbado. Mas eu não senti gosto de bebida.
Ele olhou-a com uma expressão de incredulidade nos olhos.
- Respiração boca a boca, nunca ouviu falar? – ela riu-se do rubor do rosto dele.
Ofereceu-lhe uma bala, avisando que não continha drogas nem veneno. Aceitando, ele saiu para procurar o violão, sem convidá-la para a caminhada. Voltou três horas depois, quando à sua espera já havia algo para comer. Ela estava no mesmo lugar em que se tinham visto pela primeira vez.
Depois de comer, quis subir nas pedras, só agora se dando conto do buraco disfarçado pela areia em que caíra duas vezes.
- É por isso que fica aqui?
- Também. É divertido e dá pra ver o pôr do sol.
Ele ficou cabisbaixo e escreveu com o indicador um nome de mulher na areia acumulada entre as pedras.
- É por causa dela que está assim?
- Minha mãe... Carolina, pobre mulher. Morreu há dois dias. Criou-me sozinha. Queria que eu fosse médico, que me casasse, aprendesse a nadar, a dançar e me vestisse melhor. Tentei, juro que tentei ser como ela queria. Mas fracassei como agora, procurando meu violão, a única coisa que sempre me interessou e que não tive coragem de fazer. Ela se foi e tenho uma vida sem graça, solitária. Sem sonhos... prazer, Carlos.
- Márcia... parece que está contando minha vida. – ela sorriu. – Fugi de casa.
Passaram horas conversando, choraram, riram. Até que anoiteceu novamente. Mas agora sabiam que o mundo não era tão cruel assim, que poderiam enfrentar tudo aquilo. De mãos dados, corriam pela praia, os olhos fechados, divertindo as estrelas. Carlos tropeçou em algo, apertando a mão de Márcia. O violão...





Maria Flor
Enviado por Maria Flor em 13/07/2006
Código do texto: T193537
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Sobre a autora
Maria Flor
São João da Boa Vista - São Paulo - Brasil, 27 anos
30 textos (1143 leituras)
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