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As rosas

O dia amanhecia e Cecília adormecera há pouco. Ouvindo o despertador, esforçou-se para abrir os olhos. Seu corpo cansado, ainda com as roupas do dia anterior, doía e pedia descanso.
Passara a noite acordada, pensando nos acontecimentos das últimas semanas. Já fazia três dias que Marcelo a deixara e também que ela não comia, nem trabalhava, nem dormia direito.
Morava num bairro de alta classe em São Paulo, numa casa ao lado da de Augusto, um senhor cego, rico e dono de uma mansão antiga. Judite, a enfermeira, era a única moradora da casa além dele, fiel e sempre disposta a tudo.
Vencendo o sono, levantou-se e foi até o banheiro lavar o rosto que, refletido no espelho, não era mais jovem e belo, desenhava-se uma expressão amarga em suas linhas e os olhos estavam inchados. Tinha que ir trabalhar, pois suas consultas não poderiam mais ser adiadas.
- Bom dia, Cecília! – cumprimentou o senhor da sacada que, em uma cadeira, tomava sol e ouvira o carro da vizinha sair da garagem.
- Bom dia. – disse, disse sem sorrir e em tom seco, não correspondendo ao entusiasmo do outro.
- Saindo de casa hoje, hein? Já faz três dias que não sai, eu estava estranhando...
- Pois é, tive alguns problemas. Desculpe-me, mas estou atrasada agora, preciso ir trabalhar.
- Não se incomode, filha. Mas, só para lembrá-la, as suas rosas precisam de cuidado, não chamou o jardineiro ontem.
Fingindo ter ouvido o comentário do vizinho, Cecília apenas murmurou algo como “obrigada” e encaminhou-se à clínica.
Lá, Camila já a esperava com vários recados e telefonemas para retornar, junto com quatro crianças e suas mães. Antes, tinha prazer em trabalhar, pensando na recompensa no fim do dia, a companhia do marido. Agora, nada mais fazia sentido.
Quando voltava para casa, não prestara atenção nas crianças que faziam malabarismos no sinal, nem no trânsito e muito menos no sorriso grato de uma velhinha que deixara atravessar. Não se dera conta de que aquele era o primeiro dia ensolarado depois de muitos chuvosos e cinzentos. Nada conseguia enxergar sem os olhos de Marcelo.
Já na garagem de sua casa, procurando a chave da porta na bolsa, ouviu a voz familiar novamente:
- Como foi o seu dia de trabalho hoje? – perguntava Augusto, do alto de sua sacada, em que podia ouvi-la remexer a bolsa.
Procurando a origem da pergunta, ela olhou para cima, encontrando a figura do vizinho iluminada pelos últimos raios de sol.
- Muito bem, seu Augusto. Obrigada. – e, sem interesse, mas educamente, acrescentou – E o senhor, como passou o dia?
- Tive um mal-estar, mas foi coisa passageira. Entretanto, Judite ainda está insistindo em que eu procure um médico. Mas, para facilitar as coisas, será que poderia me atender aqui?
- Bem, sou pediatra, mas posso atendê-lo como clínica geral. Se o senhor puder, terei a manhã de terça-feira livre.
- Está ótimo! Assim, Judite me deixará em paz! – sorrindo, comentou.
- Então, até lá.
- Já vai entrar? Está bem... vá descansar.
Cecília já se encaminhava novamente à porta, mas o vizinho acrescentou:
- Suas rosas precisam de cuidados, não as deixe morrer. Cecília!
- Rosas? Ah, sim, obrigada por avisar. – confusa, ela agradeceu, mas sem compreender a preocupação do vizinho com seu jardim.
Augusto era respeitado por todos naquela rua, procurava fazer amizade com as vozes, perfumes e ruídos de cada um. Sabia quando a empregada da casa da frente estava de mau-humor, pois assim ela não cantava. Ou quando os cachorros de Inês faziam algo errado e recebiam alguma advertência, conhecia o choro de cada um. Esperava sempre o aroma do café quente preencher todos os espaços da casa para sair da cama.
Mas aquele senhor era uma exceção entre as pessoas que viviam naquele bairro, naquela rua ou, até mesmo, dentro de suas próprias casas, com suas famílias. A maioria era fria, falando-se apenas cordialmente, não se importando realmente com o estado de saúde do outro. Tristezas e alegrias raramente eram compartilhadas.
Terça-feira chegara e, depois de tomar banho, Augusto já esperava Cecília sentando numa poltrona em sua sala de estar. Atrasada alguns minutos, a médica chegou, sendo conduzia por Judite até seu paciente.
- Bom dia, seu Augusto. – com certo desânimo na voz, saudou-o.
- Quer mesmo que meu dia seja bom?
Perturbada, ela replicou:
- Claro, quero sim.
- Então, deseje-me bom dia novamente! – a voz dele estava maus dura.
- É alguma brincadeira?
- Não, fale, cumprimente-me de novo!
- O que o senhor quer? – já começava a se irritar.
- Não fique irritado comigo, só quero que realmente me deseje um bom dia! – um sorriso terno formou-se em seu rosto.
- Tudo bem, eu digo.
- Vamos lá, garota, eu sei que você consegue! Entre novamente, será mais fácil! – agitando as mãos no ar, incentivava-a.
E assim se passou mais de uma hora, até que a vibração da voz de Cecília satisfizesse Augusto. Depois, começaram a rir juntos, enchendo a casa imensa de sons e perfumes de cumplicidade e ternura.
Cecília diagnosticara como sendo a causa do mal-estar pressão alta e, além do remédio receitado, aconselhou-o a medir todos os dias, considerando-se a sua idade. Ele, então, comprou o aparelho e tratou de pedir a ela que fizesse o controle, já que Edite não se atrevia a mexer no aparelho moderno e sofisticado.
Mesmo estando bastante ocupada com as consultas acumuladas, a médica encontrou um horário conveniente para ambos, bem cedinho, de modo que tomava café com o vizinho todos os dias. Desta forma, tinham longas conversas e, um dia, percebendo como ela estava alheia a tudo o que ele falava e que sua respiração tornava-se mais rápida e aflita, perguntou:
- Sente muita falta dele, não é?
Sobressaltada pelo súbito questionamento, dissimulou:
- De quem está falando?
- Ora, você sabe, Marcelo. – respondeu, em tom irônico.
Baixando a cabeça, demorou alguns minutos para tornar a falar.
- Sinto, sim. Às vezes, penso que não há mais sentido para nada do que eu faço.
- Também sinto muita falta dela. – piscando os olhos, em tom de consolo e sorrindo, revelou.
- Perdeu um grande amor, seu Augusto? – curiosa, interrogou.
- Pode-se dizer que sim, querida. Sabe, quando amadurecemos e procuremos enxergar os fatos como realmente são, podemos sofrer um pouco, Mas, livre de ilusões e falsos valores, temos grandes chances de encontrar felicidade, de viver realmente, dando valor ao que é verdadeiramente belo e valioso.
Sem obter resposta, ele continuou:
- Enxergar tudo isso não é simples, mas extremamente fácil, porque tudo está muito perto de nós. Está á a complexidade: é tão fácil que não conseguimos. E, cada um, aprende de um jeito, um acidente, uma perda, uma decepção amorosa. No meu caso, perdi a visão e, por mais paradoxal que seja, foi só a partir desse momento, que passei a enxergar.
Os olhos da mulher, marejados de lágrimas, fitavam os dele, agora livres dos óculos escuros que costumava usar. Sentindo que ela o observava, abriu os braços, a fim de acolhê-la num abraço amigo.
Naquela noite, Cecília não conseguira dormir, assimilando tudo o que ouvira e aprendera durante aquelas semanas em que visitava diariamente uma pessoa maravilhosa, de quem ela nunca valorizara a amizade e os desejos de bom dia. Seu Augusto, de rosto redondo e bochechas rosadas. O homem que nada via, mas tudo enxergava.
Agora, vivia o presente, estava atenta a tudo o que acontecia a sua volta e que merecia atenção. Não deixava de retribuir um sorriso, ou de oferecer um, ajudava sempre que podia famílias e crianças desamparadas e tentava estabelecer relações de amizade com os vizinhos. Passou a gostar de sol e tomar chuva.
Num domingo, bem cedo, Augusto acordou com um ruído familiar, porém que não ouvia a algum tempo. Sorrindo ternamente, procurou os chinelos com os pés, levantou-se da cama, foi até a sacada e pôde ter a certeza de que Cecília finalmente se dera conta de que suas rosas precisam de cuidado. Para a sua surpresa, não foi a voz áspera do jardineiro que o cumprimentou, mas sim uma suave voz feminina, que entusiasticamente disse:
- Bom dia!

Maria Flor
Enviado por Maria Flor em 15/07/2006
Código do texto: T194702
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Sobre a autora
Maria Flor
São João da Boa Vista - São Paulo - Brasil, 27 anos
30 textos (1143 leituras)
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