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Malú - A caçadora de tesouros

 

Maria Luísa era uma jovem senhora que, num dia qualquer, deparou com uma difícil decisão no seu caminho. Continuaria a ser a executiva que sempre sonhara na empresa em que trabalhava ou seria a mãe, dona-de-casa, educadora de seus filhos?!

Para alguém acostumada com sua independência financeira, estava vivendo um momento inusitado, uma luta estressante e desigual, e que, lhe custavam noites insones. Amava os filhos, mas da forma que as coisas caminhavam, o mais viável seria renunciar os seus sonhos. Sem falar no salário considerável e de grande ajuda no orçamento familiar.

Assumiria sim, nada mais justo, a casa, os filhos e todas as complicações que viriam juntas. Afinal o que poderia fazer se ajudantes domésticas estavam em extinção? É o preço que pagamos pela evolução da espécie...

Foi assim que Maria Luísa se viu com suas manhãs atarefadas e tão só.  No dia-a-dia, aquela vida começou cair na mesmice de forma que a novidade se desgastou minando suas forças. Pela manha fazia o café, colocava as crianças pra escola, marido pro trabalho e então lá estava ele: o tédio...

A solidão a incomodava. Depois de executar seu trabalho abria algum livro e lia no seu refúgio particular. A sua rotina era sombria. Teria que encontrar um meio de fugir daquela monotonia.

Ouvia seus cedês e fitas cassetes, mas o dinheiro estava escasso não podia renovar sua discoteca ao bel prazer. Passou a cultuar um hábito, ouvir o rádio. Por que não? O rádio era a grande invenção. Abençoado Tesla, Morse, que revelou os primeiros passos da radiocomunicação. Salve a era digital!

Todos os dias se ouviam o som do seu rádio entre os ruídos das vassouras e espanadores. Sua alma viajava nas canções tocadas e algumas vezes ela as acompanhava. Era delicioso ouvir a programação, havia sempre a surpresa e não mais aquela seqüência que sabia de cor. O rádio era agora o seu grande companheiro. Podia interagir nas programações e pedir suas canções prediletas até pelo telefone.

Certo dia, numa emissora, algo lhe chamou a atenção. Era diferente daquilo que estava acostumada a ouvir. Tratava-se de um programa em que o locutor a cada intervalo musical lançava para os ouvintes uma espécie de dica para que desvendassem a charada, ou seja, o nome da canção e, a cada participação absurda, o prêmio era acumulado ou o acertador recebia a premiação que se dividia em, dinheiro vivo e vale compras nas lojas patrocinadoras do programa.  Chamava-se Caça ao tesouro.

Maria Luísa passou a se divertir com aquela brincadeira porque as respostas nem sempre eram coerentes e muitas inconcebíveis e recebiam de brinde ao serem detonadas, uma trombada de carros,  e ela ria com vontade...

Comentava com as amigas que a incentivava a participar, claro que consideravam um  mico, mas valia a pena. Para não correr o risco de ser reconhecida, adotaria um codinome : Malú. Assim Maria Luísa tornou-se a mais nova caçadora de tesouros. Agora, suas manhãs tinham um encanto, nem percebia o tempo passar e quando dava por si, as tarefas tinham sido executadas .

Um belo dia, eis que Malú matutava para decifrar as dicas do Caça ao tesouro, e a certeza lhe invadia a alma, desassossegada pensava: “Só falta agora não conseguir a bendita da ligação!?”  Ah, conseguiu seu intento! Os minutos pareciam intermináveis até entrar no ar... De repente, ouve-se a voz do locutor: Vamos a mais uma participação, Malú e aí, de onde fala? Da cidade do Sol... Tem  galera? A família torcendo por mim... Qual o nome da música? Do leme ao pontal... Como chegou a esta conclusão? Volta o locutor, vamos as dicas:

1.      Altura da embarcação entre a quilha e o convés principal? Pontal, responde Malú.

2.      Nota musical? Dó,  Malú  vai respondendo.

3.      Combinação da preposição a com o artigo o? Malú já não se agüentando ainda diz: ao.

4.      Muito usado no esporte náutico? Malú já sofrendo de aflição lança: Leme.

Aí o locutor brinca com ela e, nesse minuto, Malú se prepara para ouvir as batidas dos carrinhos, mas o que ela ouve é o som da caixa registradora... Em seguida a voz inconfundível de Tim Maia ecoa para todos os ouvintes “...Do leme ao pontal / Não há nada igual...” Malú Grita, festeja e agradece ao locutor.

Então conseguira! Daí por diante, ninguém segurava Malú, passou a ser como dizem, vassourinha do caça ao tesouro. Matava as charadas freqüentemente e quando não conseguia sua ligação telefônica, ficava frustrada. Bem, não podia ganhar sempre, o sol tem que sorrir pra todos.

Ganhadora assídua daquela programação divertia com os filhos ao saírem às compras. A vida rolava e seu tesouro aumentava, adquiria novos cedês, fitas cassetes, lindas roupas e calçados. Durante um bom tempo pôde usufruir desse esquema, mas as coisas nunca são simples assim e num belo dia ao ligar para o Caça ao Tesouro, ouviu-se do outro lado da linha: Infelizmente você não pode continuar participando ativamente desta programação, deve dar um tempo,  porque os ouvintes podem pensar que é marmelada...

Eles não sabiam que esta era a forma encontrada por Malú de preencher suas horas e dar um “chega pra lá” na solidão. Ficou triste mas, mesmo assim, participava unilateralmente. Quando acertava o nome da canção se sentia frustrada, afinal fora tolhida de sua diversão matinal.

De três em três meses ela dava sua pequena colaboração, às vezes ouvia o som do tilintar das moedas, quando isto acontecia, a galerinha corria à loja feliz da vida.

O  destino tece seus meandros e num destes vai-e-vem de ligações do “Caça ao Tesouro”, foi gentilmente convidada a não mais participar da programação. Mesmo magoada com a atitude da coordenação do programa, ela seguia ouvindo atentamente as dicas para decodificar os enigmas musicais, afinal, exercitava os neurônios, praticando a saúde mental, tudo tem seu lado positivo. Nós brasileiros temos o espírito de luta, tocamos em frente e pronto! Mas por que continuar alimentando a audiência daqueles que não a queriam por perto?! Pessoas que não souberam respeitar seus direito de cidadã... Não. Ela se afastaria desse tipo de comunicação.

Malú repensava a vida como se fosse um rolo de filme superoito. Deixava as emoções desfilar a sua frente como se escrevesse sua historia. Existem várias maneiras de sair à procura do tão almejado lugar ao sol, pois saíamos à caça que,  trabalhando estava cada vez mais difícil.

Sabe aquela coisa de ser brasileira e não desistir nunca? Malú possuía o espírito de guerreira, não  consentia se acomodar, toda semana estava ela na fila da casa lotérica. Em suas mãos os volantes da lotofácil e mega sena . Assim era ela, a eterna caçadora de tesouros!

 

bette vittorino
Enviado por bette vittorino em 18/07/2006
Código do texto: T196369
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Sobre a autora
bette vittorino
Juiz de Fora - Minas Gerais - Brasil, 62 anos
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