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Quem espera sempre alcança - Capítulo I

     Esta é a minha história. Hoje no ano de 1985, estou com trinta anos. Naquele tempo, eu com apenas quinze anos, morávamos em uma cidade do Rio Grande do Sul, Santo Ângelo.Meu pai já era velho. Ele e minha mãe esperaram por mim vinte e oito anos. Depois deste tempo todo de casados, que eu apareci, depois de minha mãe submeter-se a uma cirurgia para tornar-se fértil, porque até então era estéril. Eu era para eles uma princesa encantada. Meu pai era o homem mais rico da cidade, era dono de várias fazendas com uma boiada de valor incalculável.

     Eu estudava no melhor colégio da cidade, era cercada de todos os luxos imaginários... mas eu não era feliz com tanto luxo, tanta jóia, tinha tudo que imaginava, mas não tinha o que mais engrandece uma pessoa, o amor. Talvez por ser uma guria rica, os jovens da minha cidade não me viam com carinho. Me viam como um saco de dinheiro, nada mais. Todos os rapazes que se aproximavam de mim era pra tirar algum proveito material, "descolar uma grana", como dizem os jovens de hoje.

     Um dia,chegou um professor novo no nosso colégio. Ele tinha exatamente o dobro da minha idade. Tinha ele trinta anos. Professor de Geografia. Cabelos pretos que brilhavam ao longe, olhos espertos, também pretos, seus olhos tinham um brilho diferente, sedutor, fascinante. Suas mãos eram lindas! Quando passava a matéria no quadro, eu ficava a analisar como Deus pôde colocar no mundo uma pessoa tão perfeita, além de lindo, era educadíssimo com as alunas que o chamavam de "Brisa leve de verão".

     Eu não entendia, gostava de suas aulas. Chorava o dia que não o via. Eu estava apaixonada! Pela primeira vez eu sentia o que nunca havia sentido antes. O amor havia nascido dentro de mim...

     Nas aulas, "Brisa leve de verão", era delicado com todas as alunas, aliás, o colégio era de freiras e só estudavam gurias, mas eu sentia que seu olhar para mim brilhava com mais fulgor.

     Ficaram assim, estes olhares, às vezes uma piscadinha, por seis meses. Um dia ele resolveu:
     - Oi, Aparecida, como está?
     - Tudo bem! - Falei gaguejando, emocionada.
     - Deixa eu te levar em casa?
     - Levar-me para casa? Você está louco? Papai te mandaria para fora da cidade. - Falei com todo medo que me acompanhava a cada vez que um rapaz tentava aproximar-se de mim.
     - Que é isso, Aparecida, isto acontecia há muitos anos. - Disse ele.
     - É? Você não conhece o meu pai. Você já ouviu falar em Olegário Salomé?
     - Ah! Ele quem é seu pai? Nossa! Não sabia que era você a "Cidinha do Salomé"! Quem nesse Estado não conhece Olegário Salomé? Ele é o maior produtor de leite e derivados de toda a região Sul, e seu pai nem sabe o que tem, não é?
     - É... acho que sim... mas se você se aproximou de mim para falar dos bens do meu pai, você está perdendo o seu tempo. - Falei muito nervosa e fui saindo.
     - Espere, Aparecida! Por favor, espere, eu não me aproximei de você com esta intensão, eu nem sabia que você era filha dele! Para mim, você é minha aluna, a qual eu me apaixonei desde a primeira vez que a vi.

     O professor falou com as mãos cruzadas, olhando nos meus olhos. Eu senti que não era mentira... mas eu tinha muito medo, muito medo mesmo. Medo de me desiludir, e disse com firmeza:
     - Olhe, professor! Vá brincar com a cara de outra guria! A mim você não engana! Você deve estar acostumado a fazer isto em todo o colégio que leciona. "Sedutor de gurias!" - Falei quase gritando e saí correndo. Antes de virar a esquina, olhei para trás e ele estava com as mãos na cabeça em sinal de desespero.

     Cheguei em casa e minha mãe já estava no portão da garagem. Já ia pegar o carro para buscara a "filhinha" dela que já estava atrasada quinze minutos. Aliás, foi uma luta para conseguir que não me buscassem no colégio. Eu queria paz, pelo menos no caminho de casa para o colégio e vice-versa, porque nem amigos eu não gostava de ter, achava que eram meus amigos só por causa do dinheiro do Salomé.

     - O que foi que demorou tanto, Cidinha? - Perguntou minha mãe com as mãos na cintura.
     - Nada, mamãe, só andei mais devagar do que o costume. - Respondi.
     - Que nada, guria! Você devia estar com algum namoradinho! Deixa seu pai saber que você chegou quinze minutos atrasada! - Disse mamãe com ironia.
     - Olhe mamãe, algum dia, eu não vou chegar não é quinze minutos atrasada não, eu não vou é chegar, nunca mais! Eu não agüento mais tanto enjôo, tanta vigilância. Deixa eu respirar! Me esquece! Faz de conta que morri! - Gritei e sai chorando, entrei em casa, subi as escadas correndo, bati a porta do meu quarto e caí na cama chorando como uma desvalida.

     - Guria malcriada! Eu não sei o que essa guria quer, tem tudo que pensa! - murmurava mamãe na porta do quarto, que mais pareci um palácio encantado.

     Nem no meu quarto podia ficar sossegada, mamãe tinha a cópia da chave. Abriu a porta e foi falando:

     - O que você tem, Cidinha? Por que você está assim, chorando tão deseperada?

     Tanto falou, tanto xingou e eu nada, não falei nada.

     Chorei, chorei, chorei até não haver mais lágrimas para chorar. Dormi ali mesmo, de uniforme, meia e sapato.

     No outro dia acordei com mamãe conversando com a empregada.

     - Coitadinha da minha filhinha!Dormiu arreada...

     - Dona Ana, esta guria está ardendo em febre! - falou Laura, colocando a mão na minha testa.

     No mesmo instante foi uma correria. Empregados correndo de um lado para o outro. Logo chegou o médico da família.

     - Doutor, o que tem minha filha? - perguntou minha mãe chorando.

     - Não se preocupe, Ana, é só uma febrezinha passageira, daqui um pouco a Cidinha está em forma. Não é Cidinha?

     Afirmei com a cabeça.

     - Não é preciso mandar chamar Olegário, que está em Porto Alegre? - perguntou minha mãe.

     - Não, Ana, isto é só um resfriadinho sem muita importância, à tarde ela estará boa.

     Este "resfriadinho" me deixou presa em casa uma semana. Minha mãe tinha uma preocupação exagerada pela minha saúde.

     Telefonemas do colégio chegavam todos os dias perguntando por mim.

     Chegou a final o dia de voltar às aulas. Eu estava com medo de enfrentar o professor Rogério Cintra Guimarães. Tinha medo de me decepcionar.

     Mamãe levou-me até a porta do colégio, levou-me à diretoria, entregou-me à diretora.

     - Olá, Irmã Edina, aqui está a guria.

     - Oh! Quem bom, já está curada, Cidinha? Eu vou levar-te à sala de aula. Já iniciou a aula de Geografia. O professor Rogério tem perguntado muito por você. - falou a diretora.

     Aquelas palavras da Irmã Edina me deixaram uma sensação de medo e emoção ao mesmo tempo.

     Ela acompanhou-me até a sala. Abriu a porta:

     - Professor Rogério, aqui está a guria que estava faltando às aulas há uma semana. - Disse a diretora e se retirou.

     Rogério deixou o livro cair das mãos. Parece que tomou um susto.

     - Seja bem-vinda, Aparecida. Você estava fazendo falta. - disse Rogério com a voz trêmula.

     Neste momento cada colega disse uma palavra de boas vindas e eu ali perto da porta com vontade de correr para seus braços e beijá-lo... mas consegui falar:

     - Professor, na hora do recreio, gostaria que o senhor reprisasse as aulas que perdi.

     - Pois não, Aparecida, com muito prazer! - disse Rogério, não contendo o sorriso.

     Passou aquela aula e eu não prestei atenção a nenhuma palavra que ele falou. Só fiquei contemplando sua beleza e pensando o que iria lhe falar.

     Passaram-se mais duas aulas e eu sempre voando. Ouvi alguns comentários:

     - De certo ela está assim por causa da doença.

     Que doença que nada, paixão pura!

     Chegou finalmente a hora do recreio. Fiquei sentada na minha carteira. Todas as colegas saíram. Mais do que depressa chegou o professor.

     - Eu queri pedir-lhe escusas pelas palavras que lhe falei aquele dia. - falei fazendo pequenas pausas.

     - Escusas por que, Aparecida? - disse Rogério com aquela voz doce e macia.

     - Eu fui muito grossa com você e acho que não merece isso. - falei gaguejando.

     - Não me importa o que aconteceu há dias, importa ´[e o agora, o presente. - falou com voz forte e pegou minhas mãos, levantando-me da carteira.

     Eu tremia dos pés à cabeça. De cabeça baixa estava, de cabeça baixa permaneci. Rogério soltou minha mão, pegou meu queixo, levantou minha cabeça e se declarou:

     - Aparecida, você e a pessoa mais linda, mais sensível que já conheci. Eu te amei desde o primeiro instante que te vi. Eu senti uma emoção que nunca senti antes. Estou verdadeiramente apaixonado por você.

     E nem sei que senti naquele momento. Meu coração parecia que ia sair do meu peito. Uma lágrima rolou em meu rosto e foi vetada por aquelas mãos macias, que me afagou no peito com um apertado abraço e um beijo prolongado, de paixão.

      - Posso te ver depois da aula? - perguntou.

     - Não... quero dizer, sim... mas como? Onde? Mamãe me vigia todo o dia. - disse temerosa.

     - Conta par sua mãe, Aparecida. Quem sabe ela entenderá. - Antes mesmo de terminar de falar, tocou a cirene para voltar às aulas.

     - Temos que ir, daqui a pouco começam a chegar as gurias. - falou Rogério abrindo a porta.

     Sentei-me na carteira e falei:

     - Encontra-me na pracinha do Monumento às duas horas. Eu dou um jeito lá em casa.

     Passei as outras duas aulas no ar. Eu sentia as mãos de Rogério como se ele estivesse ali me abraçando.
Maria Lúcia Flores do Espírito Santo Meireles
Enviado por Maria Lúcia Flores do Espírito Santo Meireles em 19/07/2006
Reeditado em 30/08/2006
Código do texto: T197493
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Sobre a autora
Maria Lúcia Flores do Espírito Santo Meireles
Brasília - Distrito Federal - Brasil, 58 anos
152 textos (4029 leituras)
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