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Um dia para recordar

Estava quase certa de que tinha perdido a noção do tempo, mas ainda me lembro dos olhares de quando criança. A mãe, que ora estava com seus curtos cabelos loiros, avermelhados, escuros ou em tons marrons. Seus olhos me perseguiam com cuidado e quando a besteira já estava feita, seus dedos subiam em direção as minhas orelhas que quase desapareciam entre eles. Era educação, mas que logo se repetia e se repetia de novo e de novo. Ai vinha o castigo e o outro dia. A cada oportunidade as mesmas observações.

Já conheço seus barulhos, as horas e o tempo que nunca é perdido. O rádio que há quantos anos no canto direito da sua cabeceira lhe acorda. Levanta-se e o chuveiro me acorda; as luzes se apagam e na cozinha bolacha no leite, leite na bolacha; bolacha no leite; leite na bolacha. Eu nunca apreciei essa modalidade de café da manhã, mas sempre foi assim. As luzes do banheiro se acendem novamente, se apagam, se acendem, apagam, a porta bate e o dia começou.

As brincadeiras com hora marcada sempre ouviam “entra já para casa” e ecoavam dia -a -dia. Era do telhado do vizinho, da rua de paralelepípedos onde a bola rolava e o portão era o gol, o barbante era a linha do vôlei, os meninos e meninas eram a seleção dos gritos, risadas e brincadeiras de rua. Tínhamos até um “esconderijo”, uma velha casa nova no começo da rua. Só estava para alugar, mas tínhamos certeza que era assombrada. Eu era sempre café com leite, e quem não foi??? Como toda criança cresci, e junto comigo cresceram as diferenças.

A Mãe e o pai já estavam separados como duas flores. Cada um desabrochando de um lado, cada qual com mais espinhos que o outro, assim como o sol e a lua, que não se encontram. Lembro-me dos meus aniversários, ele sempre chegava depois e com a boneca que eu tanto queria. A mesa, era enfeitada de papel crepom, em três camadas e de todas as cores. E quem animava a festa era a Xuxa. De fundo era o Ilariê e a dança das cadeiras que animavam a festa. E quando via uma embalagem molenga e sem forma??!! Sabia que brinquedo não era. Coisas de criança!

O coelhinho da páscoa sempre passava na minha casa e entrava pela janela da cozinha, onde sempre ficava com as marcas das suas patinhas. A casa toda tinha marcas de farinha, mas o dia que descobri a verdade, vi que era minha mãe que fazia suas patinhas com o indicador, do meio e o anelar...A cada ocasião uma fotografia, principalmente no natal, quando todos se reuniam. A tia que fala da novela, a avó preocupada com o “chester”, o avô falando da aposentadoria,  a outra tia reclamando do cabelo que não ficou bom, o cachorro que não para de latir e aquele monte de perguntas daquele primo do avô do seu tio. A velha tradição do amigo secreto e daquele "pijaminha" que você ganhou (acontece com todo mundo). Até a rolha da champagne alguma vez não quis estourar.

Estourar o tempo de recordações boas, das fotos, da época, das fases, das experiências...experiência do tempo, que se diz rápido para quem não soube recordar cada linha. E que recordações eu tinha do meu pai, olhos escuros como os meus, sobrancelhas no mesmo formato curvo e expressão semelhante. De longe sério e ao fundo pateta. Ele me girava pelas duas mãos quando íamos brincar no mar, meus pés batiam nas ondas e eu achava um máximo. E quem nunca brincou assim ou teve uma piscina de plástico de 1000 litros, aquela com os pés de ferro?? Lembro da voz do meu pai chamando minha atenção. Nem esperava terminar a frase, me rendia por alguém de mútuo respeito. E quando buzinavam na rua, saia correndo pela escada, afastava a cortina da sala e de joelhos no sofá olhava mais que depressa para ver se era meu pai. E quando não era, socava o ar e resmungava baixo.

Quando chovia, gostava muito, mas o banho de pingos gelados ficava sempre para outro dia, porque o resfriado dos adultos não permitia. O melhor vinha depois, quando saia na janela para sentir o cheiro que fica depois da chuva, acho que é o melhor cheiro que tem. E quando acabava a luz do bairro??Era pura diversão. Brincávamos de esconde-esconde, o que mais gostava, ou de gato mia.

Os passeios da escola, a ansiedade para chegar o dia seguinte e ao Playcenter com os amigos. E quando chega o final de tudo, tudo muda e tudo começa novamente, assim como o sol que nasce e se despede todos os dias. E os anos se vão, aqueles amigos, colegas, parentes, o colinho que ficou pequeno, as brincadeiras, onde estão? Alguns poucos o contato recíproco se desfez, outros ainda tem notícias e mais alguns chegarão. Já o colinho e as brincadeiras, nunca saíram de onde sempre estiveram.  E os anos passam! Com ele as recordações que às vezes perdem sua clareza, algumas voltam à tona, outras somem como bolhas de sabão. Vão indo, vão indo e desaparecem, mas de alguma forma renascem a cada dia, e a cada dia há algo para se contar e um dia recordar.






Talita Scotto
Enviado por Talita Scotto em 19/07/2006
Reeditado em 04/09/2008
Código do texto: T197623

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Sobre a autora
Talita Scotto
São Paulo - São Paulo - Brasil
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