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Coisa de Cinema

     Rodrigo estava sentado num dos bancos do shopping center a espera de Raquel. Era o primeiro encontro deles e por enquanto tudo estava indo bem, afinal o fato de conseguirem marcar um horário e um local que agradou a ambos já era um avanço. Todavia, Rodrigo começava a se cansar de esperar, tinha marcado para se encontrar em frente ao cinema por volta das cinco horas e quando ele olhou no relógio pela última vez faltava quinze para as seis. A primeira sessão de um filme estilo comédia romântica não daria mais para ver, teriam que ver outro filme. Impaciente e inconformado, Rodrigo levantou-se e foi olhar as lojas que estavam próximas a ele. Uma vitrine lhe chamou a atenção, era uma loja de roupas de marca, vários manequins que pareciam vivos olhavam para ele que se imaginava usando aquelas roupas, mas quando ele voltou sua atenção para dentro da loja deparou-se com uma moça do lado de dentro que também olhava os manequins até que ela reparou nele. Coincidentemente, naquele momento, a música ambiente do shopping tocava uma música interpretada por uma mulher, era mais ou menos assim: ” de tanto levar flechada do seu olhar” , porém Rodrigo e a moça nem se ligaram na música, mas se fixaram num único olhar ao mesmo tempo em que Raquel entrava pela porta principal do shopping e quando ela estava no segundo piso, Rodrigo e a moça que se apresentou como Simone já conversavam num clima bem agradável.
_ ... quer dizer que você largou seu noivo no meio da viagem? – perguntou Rodrigo sentindo liberdade, e também Simone depois de trocar algumas palavras já contava da sua vida pessoal.
_ Sim, eu larguei aquele cachorro, na ilha do Mel, você conhece?
_ Só sei que fica no litoral do Paraná. – respondeu Rodrigo, um típico paulistano que mal conhece a capital toda e quando lhe perguntam por que ele não viaja muito ele sempre vem com a desculpa do trabalho e das férias que ele vende sempre.
_ Pois é, no Paraná, da onde eu sou e ele também, mas resolvi vir pra São Paulo, trabalhar aqui.
_ Trabalhar no quê? – perguntou Rodrigo.
_ Sou farmacêutica, formei-me ano passado e semana passada já participei de umas dinâmicas, agora é torcer pra entrar.
_ Bacana, boa sorte pra você. Posso te fazer companhia, afinal quem seria minha companhia acabou me dando o cano.
_ Que chato, eu não daria o cano em você. – disse Simone ao mesmo tempo em que Raquel passava por eles sem ter-los visto.
_ Pode ser que ela já tenha chegado e está me procurando, mas marcamos cinco horas e já são quase seis e meia, e nem me ligou dizendo que ia atrasar.
_ Pode ser que ocorreu algum imprevisto, sabe como é mulher, né? E também o celular deve estar sem crédito ou sem serviço.
_ Eu sei, fico imaginando que até celular sem crédito é desculpa pra dar o cano, antigamente não era assim.
_ Acontece, mas já que ela perdeu a companhia, eu acabo de ganhar, ou não?
_ Apressadinha você heim! Acha que já me ganhou?
_ Ah não acredito, foi você quem fez a proposta e agora está recuando. Homens! Só me faltava essa mesmo, me chamando de oferecida e ainda se faz de difícil. – disse Simone inconformada.
_ É brincadeira. – disse Rodrigo pedindo para que ela o acompanhasse e foram em direção ao cinema, enquanto que Raquel estava sentada num banco mexendo no celular, tinha acabado de colocar crédito e esperava a confirmação e nesse meio tempo surgiu Márcio, um colega antigo da faculdade que gostava dela.
_ Não acredito, é você mesma, Raquel?
_ Não acredito digo eu, você ta vivo? – retrucou Raquel mais surpresa ainda.
Os dois se levantaram e se abraçaram, pois não se viam há uns bons anos. Ambos são formados em Enfermagem e eram do mesmo grupo de amigos, ele nutria sentimentos por ela que sabia disso, mas nunca quis dar uma chance, pois não o enxergava como possível namorado. Raquel deixou a preocupação do celular de lado para colocar as novidades em dia com Márcio que tinha cabelos castanhos claros, quase louros, e nas horas vagas toca numa banda de hardcore. Os dois pareciam felizes em se ver, principalmente Márcio. Dessa vez quem passou por eles foi Rodrigo e Simone que também não os viram e tinham acabado de comprar os ingressos para um filme. Quem também teve a idéia de filme foi Márcio que estava só e ia assistir a um filme também sozinho, Raquel ouviu isso e não se conformou e perguntou se podia acompanha-lo e com um largo sorriso Márcio aceitou e foram comprar os ingressos.
Os dois casais foram comer um lanche e acidentalmente ficaram em mesas próximas, Rodrigo e Raquel um de costas para o outro. Demorou para que percebessem que estavam em mesas opostas e quando perceberam começaram a suar frio, porém, se mantiveram equilibrados para que as respectivas e novas companhias não captassem nada. Até que chegou num ponto em que não dava para disfarçar. Rodrigo e Simone saíram primeiro, deixando o lanche pela metade e Raquel e Márcio fizeram o mesmo e foram em direção contrária.
_ O que aconteceu? – perguntaram, identicamente, Márcio e Simone.
_ Não foi nada não. – Rodrigo e Raquel responderam identicamente.
_ Conta vai. – insistiram as respectivas companhias.
_ O cara com quem eu ia me encontrar estava sentado atrás de mim com outra garota. – respondeu Raquel.
_ A garota com quem eu ia me encontrar estava sentado atrás de mim com outro cara. – respondeu Rodrigo.
_ Vamos logo pra fila do cinema. – disseram os acompanhantes que também estavam nervosos, sentiam-se ameaçados.

Já dentro do cinema, Rodrigo e Simone conversavam animadamente, como se já conhecessem e isso fez com que ele nem reparasse na chegada de Márcio e Raquel, que acidentalmente sentaram ao lado deles, Raquel só não viu isso acontecendo porque Márcio estava na frente e na hora de sentar, ele deu espaço e ela sentou justamente ao lado de Rodrigo que continuava atento ao que Simone dizia. Márcio e Raquel também começaram a conversar, ainda tinha muito para conversar. Num certo momento Rodrigo e Simone ficaram quietos e isso fez com que Rodrigo ouvisse a voz que ele julgou familiar, a voz da Raquel? – perguntou pra si mesmo e sem querer em voz alta e sem querer ela acabou ouvindo também. Voz do Rodrigo? Não é possível que isso esteja acontecendo! – disse Raquel inconformada.
_ Não vou falar nada, a situação em que nos encontramos já diz tudo. – disse Rodrigo.
_ Pior que é verdade, nenhum de nós tem razão pra reclamar do outro. Está certo que eu me atrasei, e quando cheguei iria ligar pra você, mas nem cheguei a tentar, pois meu amigo Márcio me encontrou.
_ Mulheres sempre se atrasam, pelo menos a maioria delas e essa aqui é Simone, uma garota que veio do Paraná para trabalhar.
_ E agora? Deixa como está ou falamos para eles?
_ O que você acha melhor? – perguntou Rodrigo.
_ Esperto você heim. Vou ver o que o Márcio pensa disso. Márcio? Ué, cadê ele?
_ Está bem ali embaixo de pé ao lado de Simone. Acho que eles entenderam a situação. Agora só falta a gente se entender, a começar por esquecer tudo isso que aconteceu. O que acha?
_ Ótima idéia. E sabe o que é melhor, nem tem como a gente brigar, porque nenhum de nós tem razão e no fim das contas fica uma situação estranha e engraçada. Ninguém vai acreditar nisso. Parece coisa de cinema.
_ Verdade. – disse Rodrigo abraçando Raquel que sorriu aliviada por estar ao lado de uma pessoa que a faz sentir como personagem de um romance cheio de idas e vindas.

22/07/06
Miguel Rodrigues
Enviado por Miguel Rodrigues em 23/07/2006
Código do texto: T199921
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Sobre o autor
Miguel Rodrigues
Barueri - São Paulo - Brasil, 33 anos
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Miguel Rodrigues